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Teresa Rodríguez (PODEMOS): “Nunca existiram tantas pessoas indignadas com o sistema”

O resultado obtido pelo partido PODEMOS foi uma das grandes surpresas destas eleições europeias no Estado Espanhol. O Esquerda.net reproduz neste artigo uma entrevista, publicada pela revista Atlántica XXII a 21 de maio, a Teresa Rodríguez, professora da secundária, ativista da Maré Verde e militante da Izquierda Anticapitalista, e número dois da candidatura do PODEMOS.
Na Foto: Pablo Iglesias, cabeça de lista do PODEMOS às eleições ao Parlamento Europeu.

Que tipo de pessoas participam na campanha do PODEMOS?

Há uma mistura de perfis. Pessoas que vêm do 15-M, das diferentes marés ou que têm uma trajetória militante anterior, e outras que são completamente novas. O bom é ver que os veteranos se estão a adaptar muito bem ao perfil das novas fornadas de ativistas sociais pós 15-M.

Algumas pessoas da esquerda e os movimentos sociais ficaram um pouco nervosos com essa transversalidade de que fala o PODEMOS, o apelo à polícia e aos militares ou ao patriotismo popular face à troika e à Europa alemã que fez Pablo Iglesias, e, em geral, o uso de uma linguagem que não era habitual nestes meios...

O discurso que mais aprofundámos coletivamente foi o do bom senso. Outras coisas como o da polícia ou o patriotismo não são compartilhadas por todos e todas no PODEMOS. No entanto, no que há um acordo é em que é necessário adaptar a linguagem ao nível de consciência das pessoas, e as novas pessoas que vão incorporando as lutas sociais já nem sempre se identifica com as palavras e as metáforas que tradicionalmente usamos na esquerda. O positivo é que nunca existiu tanta população indignada com o sistema e que já não crê no regime. Há muitíssimas pessoas que não se sentem representadas e temos que ser audazes para conseguir organizar essa maioria social.

O grupo promotor do PODEMOS é formado principalmente por pessoas do programa “La Tuerka” em torno de Pablo Iglesias e a Izquierda Anticapitalista, como está a funcionar a relação entre essas duas partes?

Vamo-nos entendendo durante o processo. Eu digo sempre que estamos a desenhar o padrão ao mesmo tempo que cosemos. Surgem complicações, mas é normal quando se trata de uma polifonia de vozes, e o normal é que esta diversidade aumente se após o 25 de maio tivermos sucesso e este projeto se consolidar.

O protesto social desde o 15-M continua a ser maioritariamente composto por classes médias empobrecidas e universitários precários, onde estão os outros setores populares?

Há dois setores sociais que genericamente nos faltaram desde o 15-M. Por um lado, os trabalhadores e trabalhadoras dos setores produtivos tradicionais, como a indústria, e, por outro, os setores mais individualizados e desorganizados, como pessoas desempregadas e precárias. Alcançá-los é um eterno repto, mas a PAH (*) ou as assembleias de desempregados e desempregadas são um exemplo de que se pode fomentar a consciencialização e organização de setores sociais que até agora tinham estado maioritariamente à margem da mobilização. Temos uma longa história de derrotas nas nossas costas e a consequência lógica disso é a resignação e a desmobilização da maioria social.

Como vão ser as relações com a IU e outras formações políticas? Está no horizonte a formação de algo como a SYRIZA?

A SYRIZA na Grécia recusou governar com o PASOK porque tal implicava aplicar as políticas da troika. Se a IU está disposta a seguir esse caminho e manter uma política desobediente anti-troika encontrar-nos-emos, mas optar por reproduzir noutras comunidades pactos como o andaluz seria fechar uma janela de oportunidade. Quando a esquerda governa e também aplica cortes lança a ideia de que não há outra alternativa. Seguir por esta via supõe entrar um círculo vicioso que já conhecemos: as bases sociais da esquerda defraudam-se, a direita ganha e depois voltam a votar no PSOE como autodefesa. Agora temos a oportunidade de gerar um grande espaço comum anti austeridade e pela rutura contra a troika, que seja algo mais que uma mera soma de siglas, que seja aberto e participativo e incorpore muita mais pessoas.

Teresa Rodríguez, professora da secundária, ativista da Maré Verde e militante da Izquierda Anticapitalista, e número dois da candidatura do PODEMOS.

Teresa Rodríguez,  número dois da candidatura do PODEMOS.


PODEMOS incorpora muitas pessoas que vêm dos movimentos sociais, como evitar, como sucedeu na Transição, que os movimentos fiquem descapitalizados e que estas pessoas deixem de ser ativistas sociais subsumidas pela militância de partido ou o trabalho institucional?

Na Transição fomentou-se exatamente isso porque o que se queria era precisamente desmobilizar a população. Nós perseguimos precisamente o contrário, desenhar uma organização que não bloqueie o tempo ativista das pessoas, que ninguém renuncie, por estar no PODEMOS, aos seus outros pertences sociais, sindicais ou de partido. Queremos uma política não profissional, na que os cargos públicos sejam rotativos, por um tempo limitado e ganhem o mesmo que um trabalhador normal.

O outro perigo é que essa limitação nos cargos públicos leve a organização a prescindir demasiado cedo de algumas pessoas muito valiosas. Esse é o problema que têm agora as CUP (**) com David Fernández.

As CUP obrigam a deixar o cargo após uma legislatura. Talvez seja pouco tempo, porque os substitutos também demoram a formar-se. Um dos reptos é que todos tenham uma formação e um bom nível para representar a organização em qualquer momento e que se evite ter que escolher sempre o atalho do líder. Uma grande liderança pode esconder logo uma organização débil detrás. Quanto ao caso concreto de David Fernández, o facto de se retirar do Parlamento não significa que vá desaparecer da vida pública, social e política catalã.

Euro sim ou euro não?

Convém não fazer um fetiche nem da permanência nem da saída do euro. Sair do euro não vai solucionar todos os nossos problemas e ainda menos se o fizermos unilateralmente, à margem de qualquer aliança com outros países do sul e a periferia da Europa. Sobretudo agora, a chave deveria ser procurar alianças com outros estados na nossa situação para enfrentarmos o problema da dívida, que é ilegítima e impagável.

Entrevista conduzida por Diego Díaz e publicada na Revista Atlántica XII.

Tradução de Mariana Carneiro para esquerda.net

(*) PAH – sigla para Plataforma contra os desalojamentos

(**) CUP – Candidatura de Unidade Popular, formação de esquerda da Catalunha.

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