Tensão cresce pela quarta noite nos subúrbios de Paris

23 de abril 2020 - 13:34

Acidente de viação ou impunidade policial? O incidente que envolveu uma viatura descaracterizada da polícia e um motociclista que acabou no hospital foi o rastilho da revolta que alastrou a outras cidades francesas. Moradores queixam-se do aumento da violência policial nos bairros desde o início do confinamento.

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Foto de Denna Jones/Flickr (2007)

No sábado à noite um motociclista circulava numa avenida de Villeneuve-la-Garenne quando embateu contra a porta de um veículo que se abriu à sua frente. Com a velocidade foi projetado contra um poste e caiu no chão. O veículo envolvido era uma viatura descaracterizada da polícia. Vários testemunhos referiam o facto de a porta ter sido aberta intencionalmente pela polícia para lhe cortar a marcha. No Twitter, no Snapchat, e outras redes sociais começam a espalhar-se os vídeos, fotos e relatos do acidente.

Durante a noite, aos relatos deste acidente juntam-se as memórias de outros ocorridos também na sequência de incidentes com a polícia. Recordam-se ainda os incidentes com os coletes amarelos, espancados e cegados, na sequência da violência policial. As pessoas dividem-se entre a denúncia da impunidade policial e os que criticam o motociclista por ter saído sem capacete, em plena quarentena, e ainda por cima sendo pai de família. 

No domingo à noite um sindicato da polícia divulga no Twitter os antecedentes criminais da vítima e sugere que este não merecia melhor. Cerca da meia-noite Villeneuve-la-Garenne está iluminada pelos disparos de morteiros, de fogo de artifício e pelas chamas dos caixotes de lixo e carros a arder. A polícia responde com granadas de gás lacrimogéneo até às 2h da manhã de segunda.

A divulgação de vários vídeos a denunciar a escalada da violência policial nestes bairros desde o início do confinamento fez crescer as tensões. Dois dias depois do incidente, os confrontos estenderam-se a outros subúrbios, mas também a Clichy, Nanterre, Toulouse, Lyon ou Estrasburgo. Fogo de artifício e caixotes de lixo em chamas de um lado contra granadas de gás lacrimogéneo e disparos de balas de borracha do outro.

O motociclista fez a partir do hospital um apelo à calma e dizendo que seria feita justiça.

Na terça-feira as autoridades policiais confirmam que há três inquéritos em curso: um sobre o motociclista por “rodeo” urbano e colocar em perigo a vida de outrém; outro contra as pessoas que se juntaram na altura do acidente, por desacatos, ameaças e insultos contra as autoridades; e o terceiro contra os autores dos desacatos na noite de domingo.

A noite de terça para quarta-feira voltou a ser de incidentes, com um incêndio a atingir parcialmente uma escola primária em Gennevilliers. Os sindicatos da polícia já reagiram. O SGP Unite alertou para o facto de esta situação poder atingir contornos semelhantes aos conflitos ocorridos há quinze anos e que duraram três semanas. O Alliance, acusando o Governo de não ser capaz de agir contra uma minoria que só quer provocar distúrbios e atacar os polícias.

O Ministro da Administração Interna afirmou que seriam algumas pessoas ligadas ao tráfico de drogas, cujas actividades estão reduzidas por causa do confinamento, que estariam por detrás dos desacatos.