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Surto de língua azul gera situação de "calamidade" para produtores

Veterinário Adérito Galvão afirma que metade das ovelhas dos concelhos de Abrantes, Constância e Sardoal, está infetada com o vírus, lamentando que o Ministério da Agricultura não tenha disponibilizado vacinas atempadamente. Bloco pede medidas de apoio aos criadores.

"De um total de 15 mil ovelhas existentes em 400 explorações e rebanhos nos concelhos de Abrantes, Constância e Sardoal, mais de 50% está infetado com o vírus da língua azul, uma situação de calamidade para estes produtores. Só em Alvega [Abrantes] um produtor já perdeu 70 cabeças", afirmou na semana passada Adérito Galvão, veterinário do Agrupamento de Defesa Sanitário (ADS) daqueles três municípios, citado pela agência Lusa.

O veterinário sublinhou que "as vacinas foram apenas cedidas às zonas de restrição do vírus, entre elas o Alentejo, mas o vírus propagou-se pelos mosquitos e entrou no Ribatejo no início de novembro, tendo apanhado todas as ovelhas por vacinar, uma vez que esta região não foi considerada zona de risco".

"Hoje, depois de ter mais de metade de um efetivo de 15 mil ovelhas contaminado, e muitas delas prenhas, é que comecei a vacinar o gado, porque libertaram na quarta-feira 30 mil vacinas, mas já com a doença no terreno", avançou Adérito Galvão, esclarecendo que as vacinas são administradas em duas doses, com três semanas de intervalo.

"Só ao fim de um mês se estabelecem as resistências e durante este período ainda podem vir a adoecer", destacou.

Segundo o veterinário, "ao contrário das notícias que estão a ver veiculadas pelo Ministério da Agricultura”, também “não estava prevista a vacinação voluntária das ovelhas pelos produtores, apenas a das vacas”.

“Portanto, essa informação que está a ser veiculada pelo Ministério da Agricultura, não é correcta. Eu aconselhei algumas pessoas, que seria do ponto de vista preventivo, bom, vacinar as ovelhas. E foi-me dito e estava escrito nos editais que previam a vacinação voluntária das vacas e não das ovelhas", acrescentou.

Em declarações ao Esquerda.net, o produtor Artur Lopes afirmou que, até esta segunda-feira, já perdeu cerca de 80 ovelhas devido ao surto da língua azul, e que todos os dias morrem ovelhas no seu rebanho, não conseguindo prever com exatidão o número de animais que estão contaminados.

Artur Lopes apontou ainda que praticamente todos os rebanhos da vizinhança estão contaminados e que os animais que já estão doentes dificilmente resistem à vacinação, que é de caráter preventivo.

Assim que surgiram os primeiros casos de ovelhas doentes, o produtor alertou o veterinário, no entanto, só obteve confirmação do diagnóstico mais de uma semana depois. Agora, Artur Lopes desespera ao ver as suas ovelhas a perderem as forças e a deixarem de comer, tombando pelos pastos.

Bloco pede medidas de apoio aos criadores

A 25 de novembro, e através dos deputados Carlos Matias e Pedro Soares, o Bloco de Esquerda solicitou ao Governo que adote medidas de apoio aos criadores cujos animais foram atingidos pela febre catarral ovina, (vírus da língua azul), no Médio Tejo.

O projeto de resolução bloquista refere que “as consequências do vírus são agravadas pelo facto das fêmeas se encontrarem numa fase crítica do ciclo reprodutivo, mais vulneráveis, agravando as taxas de mortalidade do efetivo de ovinos” e que “às despesas com medicamentos e deslocações, somam-se as horas perdidas tentando recuperar animais e a frustração por perder crias, precisamente na época pré-natalícia, em que a sua venda seria potencialmente mais rentável”.

“Os prejuízos são elevados e dificilmente suportáveis por pequenos criadores, sem grande capacidade financeira, numa atividade de risco e de margens reduzidas”, alertam os deputados do Bloco, sublinhando que “acresce a este quadro a generalizada incompreensão pela, demasiado tardia, emissão do edital da DGAV, em 18 de novembro último, só então alargando a área de vacinação obrigatória aos concelhos atingidos no Médio Tejo, já depois de confirmados os primeiros resultados positivos das análises para deteção viral”.

Neste contexto, os bloquistas pedem que o Governo “apoie os criadores de ovinos atingidos pelo vírus da língua azul, nos concelhos no Médio Tejo, minimizando os prejuízos materiais que os atingiram e assegurando a continuidade das suas explorações” e que, “em situações de ameaça similar, as decisões sobre vacinação sejam tomadas com uma antecedência que minimize ainda mais a propagação do vírus”.

Ministério avança que "não poderá haver lugar a quaisquer indemnizações"

O Ministério da Agricultura assinala que "todas as explorações de ovinos situadas dentro da zona de restrição [todas as regiões do Alentejo e Algarve e também 3 concelhos de Castelo Branco] acederam a vacinas fornecidas pela DGAV - Direção Geral de Alimentação e Veterinária", sublinhando que as restantes explorações "podiam vacinar voluntariamente, sendo o custo da vacina suportado pelos produtores".

O Ministério avança ainda que "a DGAV (...) em novembro publicou o edital n.º 42, que estendeu a zona de restrição a outros concelhos de Lisboa e Vale do Tejo e a mais alguns da Beira Interior, incluindo também o concelho de Abrantes" e que as medidas "entraram em vigor à data da publicação dos editais".

Questionado sobre se prevê que os produtores possam vir a ser ressarcidos pelos prejuízos, aponta que, "estando em vigor medidas de controlo muito específicas, de aplicação obrigatória, e que são consideradas suficientes para evitar a ocorrência da doença, à partida foram prejudicados os produtores que não as aplicaram, desrespeitando os editais da DGAV".

Nesse sentido, o Ministério conclui que "não poderá haver lugar a quaisquer indemnizações", mencionando que "a DGAV, enquanto Autoridade Sanitária, tomou as medidas adequadas e informou os produtores".


 

REBANHO DE OVELHAS DE ALVEGA DIZIMADO PELO VIRUS LINGUA AZUL

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