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Superliga Europeia abre guerra no mundo do futebol

O anúncio da criação de uma liga privada por parte de doze grandes clubes do futebol europeu está a provocar ondas de choque no desporto e na política. Clubes ingleses foram os primeiros a não resistir à pressão de adeptos e governantes para abandonarem o projeto.
Estádio de futebol
Foto de Kieran Clarke/Flickr

Doze “tubarões” do futebol europeu entraram em rota de colisão com as autoridades que regulam o desporto, ao anunciarem a intenção de virem a organizar um campeonato paralelo às competições oficiais. Uma “Superliga europeia” em que os clubes entram por convite e dividem entre si os milhares de milhões de euros do bolo publicitário e das receitas televisivas. O grupo de fundadores não é totalmente conhecido, pois há três clubes que não se atreveram ainda a declarar a sua decisão. Quanto aos restantes doze, são as figuras de proa dos principais campeonatos europeus, os de Inglaterra, Espanha e Itália: Manchester United, Manchester City, Arsenal, Chelsea, Liverpool, Tottenham, Real de Madrid, Atlético de Madrid, Barcelona, Juventus, Inter de Milão e AC Milan.

Mas ao fim da tarde desta terça-feira, a BBC dava conta que o grupo contava com uma baixa quase à nascença, com a notícia de que o Chelsea estaria a preparar a documentação para se desvincular do projeto. Não demorou muito a saber-se que o recuo seria conjunto por parte dos clubes ingleses, entretanto alvo da fúria dos adeptos por causa da decisão reprovada pelos próprios jogadores e treinadores.

Pouco depois, a Sky Sports anunciou que o Manchester City também tinha intenção de se retirar da iniciativa anunciada na véspera, o que foi confirmado em nota divulgada pelo próprio clube na noite de terça-feira. Também o Manchester United confirmou o abandono do projeto da Superliga Europeia, afirmando ter ouvido a reação de adeptos, Governo e de outras partes interessadas. Em comunicado, o clube diz estar dispnível para continuar a trabalhar com a comunidade do futebol para "encontrar formas sustentáveis de enfrentar os desafios de longo prazo para este desporto". Coincidência ou não, anunciou pouco antes da divulgação do comunicado a saída do seu vice-presidente e CEO, o banqueiro de investimentos Ed Woodward.

À mesma hora,, o Arsenal anunciava o recuo na forma de carta aberta aos adeptos, reconhecendo o erro e pedindo desculpas. A direção afirma que desejava proteger os interesses do clube, dando-lhe estabilidade financeira. E o Liverpool publicava um comunicado a confirmar que interrompe o seu envolvimento no projeto da Superliga Europeia e a agradecer os contributos de intervenientes chave “internos e externos” que se dirigiram à direção do clube. Quanto ao Tottenham, o anúncio da desistência surgiu acompanhado das palavras do presidente Daniel Levy a lamentar o incómodo causado pela ideia de criar “uma nova estrutura que procurasse melhorar o fair play financeiro e sustentabilidade financeira” do negócio do futebol.

“O que gera mais dinheiro?", pergunta Florentino Pérez, o líder da iniciativa

O plano inicial era arrancar com a competição já este verão, juntando ao todo 20 clubes em dois grupos de dez. Ao fim de 16 jogos, os três primeiros classificados de cada grupo disputam os quartos de final a duas voltas com os apurados num playoff entre os quartos e quintos classificados. Os jogos seriam disputados a meio da semana.

“Quando não temos mais fontes de rendimentos além da televisão, a forma de rentabilizar é fazer jogos mais interessantes. Foi assim que começámos a trabalhar. Chegámos à conclusão que ao criarmos uma Superliga durante a semana, ao invés da Liga dos Campeões, seríamos capazes de diminuir a perda de rendimentos”, afirmou o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, ao programa El Chiringuito de Jugones, citado pelo jornal A Bola. Segundo este dirigente desportivo escolhido para presidir à Superliga, o novo modelo da Liga dos Campeões que a UEFA apresentou esta semana - e que foi ofuscado pelo anúncio surpresa dos dissidentes - não serve o interesse dos grandes clubes. “O que gera mais dinheiro? Um Real Madrid-Manchester United e um Barcelona-Milan ou um jogo contra uma equipa modesta da Champions?”, questiona o presidente do Real Madrid, apontando as perdas de 5.000 milhões destes clubes - 400 milhões no caso do Real Madrid - por causa da pandemia.

Pelas contas dos organizadores desta competição, publicadas no El Pais, haverá mais de 7.000 milhões de euros a repartir pelos participantes, com mais de metade a vir de direitos televisivos e o restante financiado entre outros pelo banco norte-americano JP Morgan. O modelo desta Superliga está a ser comparado ao das competições nos Estados Unidos - de onde vêm alguns dos proprietários dos clubes em causa, como o Manchester United, Liverpool e Arsenal -, mas  as semelhanças ficam-se pelo facto de ser uma liga fechada. Nos EUA, um dos critérios da composição é o da representatividade regional e existe também um teto salarial para garantir o equilíbrio na Major League Soccer.

UEFA e FIFA ameaçam com expulsão dos clubes e suspensão dos jogadores

Ao anúncio dos “tubarões” na véspera do congresso da UEFA, o seu presidente Aleksander Ceferin respondeu com ameaças, como a de suspender a participação dos doze clubes já nas competições europeias de futebol que ainda decorrem.

A concretizar-se a ameaça, ela poderia levar o Futebol Clube do Porto a ser repescado para para disputar as meias-finais da Liga dos Campeões. A UEFA não afasta a hipótese de expulsar estes clubes de todas as competições oficiais e até de impedir os seus jogadores de representarem as seleções nacionais. Além de afastar os principais protagonistas do Europeu de Futebol deste verão, frustraria também o objetivo de Cristiano Ronaldo, ao serviço da Juventus, de se tornar o melhor goleador da história do futebol ao serviço das seleções.

No mesmo sentido, o líder da FIFA, Gianni Infantino, avisou os clubes que "ou estão dentro ou estão fora. Não podem estar meio dentro e meio fora".

As reações conhecidas dos protagonistas nos relvados são negativas quanto ao projeto dos clubes dissidentes. Jurgen Klopp, treinador do Liverpool, diz que  “o Liverpool é muito mais do que algumas decisões. A parte mais importante do futebol são os adeptos e a equipa. E devemos ter certeza de que nada se interpõe sobre isso”. Já o treinador argentino Marcelo Bielsa, ao serviço do Leeds United, foi mais direto: "O que mantém o futebol saudável é a chance de crescimento dos mais fracos, não o excesso de crescimento dos mais fortes. A lógica que impera no mundo, e o futebol não está fora disso, é que os poderosos sejam mais ricos e o resto seja mais pobre".

A Associação Internacional de Futebolistas Profissionais, citada pela Lusa, diz que este ponto de rutura “é reflexo de uma governação na qual alguns tem usufruído de demasiados poderes, e grupos como os jogadores, e os adeptos têm sido ignorados”. "O futebol baseia-se num património social e cultural único, e para que este se mantenha é fundamental uma cooperação sã e solidária entre as competições nacionais e internacionais. Uma nova competição que prejudique estes princípios pode causar danos irreparáveis”, diz a associação que representa mais de 60 mil futebolistas em todo o mundo.

Rui Pinto: "O plano exposto em 2018 no Football Leaks torna-se hoje uma realidade"

Também o autor do Football Leaks, reagiu nas redes sociais, afirmando que “o plano exposto em 2018 no Football Leaks torna-se hoje uma realidade, nos mesmos moldes e com os mesmos intervenientes. É um dia triste para o futebol mundial”, afirma Rui Pinto.

Na ressaca do anúncio, o tempo é agora da pressão política sobre os  clubes dissidentes e os potenciais candidatos a acompanharem-nos nesse projeto. Em Itália, Mario Draghi diz que o seu governo “está a acompanhar de perto o debate em torno do projeto da Superliga e apoia fortemente as posições das autoridades do futebol italiano e europeu para preservar as competições nacionais, os valores meritocráticos e a função social do desporto”. Em Inglaterra, Boris Johnson foi mais taxativo: “Não gosto da aparência desta proposta e farei tudo o que puder para que não aconteça”.

Os próximos dias prometem o agudizar do braço de ferro entre estes tubarões do futebol e as autoridades que supervisionam o desporto e a política nacionais. Mas há clubes que usam a arma do humor para reagir à situação: é o caso do Wolves, que passou a apresentar-se no Twitter como o "vencedor da Premier League na época 2018/19", ante a probabilidade de exclusão dos seis clubes que terminaram essa época à sua frente.


(Notícia atualizada na terça-feira às 23h15 com referência ao recuo dos clubes ingleses)

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