Está aqui

Suicídios de trabalhadores da France Télécom chegam a julgamento

Entre 2007 e 2010 a empresa francesa de telecomunicações foi varrida por uma onda de suicídios de trabalhadores. As investigações que se seguiram revelaram um ambiente de trabalho altamente tóxico na altura da reestruturação da empresa que despediu dezenas de milhares. O caso chega agora a julgamento.
Foto de blaklavablaklava/Flickr

Patrick Ackermann era delegado sindical do SUD-PTT na France Télécom na primeira década do século XXI e não se consegue esquecer do que ele e os colegas de trabalho viveram nessa altura. O sindicalista que apresentou queixa em tribunal em setembro de 2009 teve vários colegas de trabalho que se suicidaram: “o verão de 2009 foi um traumatismo, havia um suicídio por semana.” Enquanto isto, os administradores da empresa diziam que havia uma “operação mediática” contra a sua empresa.

Ackermann conhecia as pessoas afetadas e tratava também de contactar com as famílias. Em tribunal contou como um dia telefonou à mulher de um colega que se tinha enforcado: “quando lhe disse que trabalhava na France Télécom chamou-me canalha e desligou. Os sindicalistas levaram muito na cabeça, vivemos os dramas,” afirma. E se os sindicalistas estiveram na linha da frente, o mesmo não se pode dizer dos dirigentes da empresa. No seu depoimento lembrou outro caso: “antes deste julgamento, liguei para as pessoas mais próximas de Jean-Michel que se tinha mandado para debaixo de comboio em Troyes em 2008. A France Télécom nunca contactou a família a família. Eu fiz o meu trabalho de sindicalista. Vocês não fizeram o vosso”, dispara na cara dos responsáveis da empresa.

Por estes dias do julgamento tem-se assistido também ao depoimento de vários peritos. Entre eles está Sylvie Catala, inspetora de trabalho que confirmou que nunca na sua carreira de 27 anos se tinha deparado com tantas declarações explícitas: “vou-me suicidar por causa do trabalho”. Esta inspetora classificou os métodos de gestão da empresa como “brutais”. No relatório de fevereiro de 2010 que suporta o julgamento escreveu “os factos que examinei eram constitutivos de uma colocação em perigo da vida alheia e de assédio moral”.

Um inquérito da empresa Technologia, de junho de 2010, obteve 80 mil respostas de trabalhadores desta empresa. Resultado: problemas do sono, esgotamentos, perda de peso, entre muitos outros problemas relatados. Um dos responsáveis pelo estudo Jean-Claude Delgenes, presidente da Technologia, declarou em tribunal que “nunca antes tinha visto uma tal crise em trinta anos”, sendo claro para si que “o projeto era fazer sair o máximo” de trabalhadores possível.

Christian Baudelot, membro do Observatório Nacional do suicídio e professor de Sociologia na École Normale Supérieure, confirma os testemunhos acusatórios: “na France Télécom é claro que não se trata de imitação, nem da mediatização que produz este fenómeno [o suicídio]. As pessoas que passaram ao ato não o fazem como imitação dos seus predecessores. Exprimem os mesmos sofrimentos ao ponto de preferir a morte.”

Acusação: a gestão pelo terror

Este caso de assédio moral é inédito pela sua dimensão. A empresa, que entretanto mudou o nome para Orange para escapar a esta herança, vê sete dirigentes e quadros de topo seus serem julgados. Didier Lombard, o chefe máximo, Louis-Pierre Wenes, o seu número dois, e Olivier Barberot que era responsável pelos recursos humanos estão sentados no banco dos réus. São acusados de assédio moral. O seu plano de reestruturação agressivo chamava-se Next e tem sido considerado como “gestão pelo terror”.

Este plano previa 22 mil despedimentos e 10 mil pessoas pessoas colocadas “em mobilidade”. Didier Lombard explicava em 2007, numa reunião de quadros da empresa, o que pretendia: “farei as saídas pela porta e pela janela”. O saldo desta operação é macabro: 19 suicídios, 12 tentativas de suicídio, várias depressões e outros problemas psicológiccos. Em 2009, o mesmo Lombard declarava frente às câmaras de televisão: “é preciso travar esta moda do suicídio”.

Ivan du Roy, autor do livro "Orange stressé", explicou à France Inter o que se passava: “nessa altura, havia formações

destinadas aos quadros e aos gestores para incitar os assalariados às mudanças permanentes e, cito, “identificar os freios psicológicos dos assalariados”. Tratava-se explicitamente de insecurizar ao máximo os trabalhadores, desestabilizar os assalariados para criar “um clima profissional ansiogénico”.

Defesa: houve uma “crise mediática”

Didier Lombard tem agora 77 anos. O seu depoimento contrasta com o quadro que nos foi apresentado pelos outros protagonistas desta história. Caracteriza o que se passou naqueles anos na sua empresa não como “uma crise social, mas uma dificuldade”. E estima que “as transformações sociais não foram agradáveis, mas é assim.”

Este engenheiro de formação, recusa responsabilidades pelo assédio laboral considerando que “se não tivesse lá estado, teria sido igual ou pior.” Insiste nas teses de que houve “uma crise mediática”, que foi o facto dos jornais dizerem que “a sua empresa era lamentável” que “destruiu a moral” destes trabalhadores e que foram as notícias de suicídios avançadas pelos meios de comunicação social que causaram a epidemia de suicídios.

Quando lê um depoimento pré-preparado, na voz de Lombard encontram-se palavras cuidadosas que expressam um “desgosto profundo” por “aquelas que não aguentaram a transformação imposta à empresa”. Mas quando questionado volta a falar em “números insuflados artificialmente” pelos meios de comunicação social. E a pergunta direta “não se arrepende de nada” depara com a sua resposta indireta “não responderei a essa questão.”

As relações de trabalho no banco dos réus?

Seja qual for o resultado do julgamento, este julgamento é considerado histórico. Nas 650 páginas do processo encontram-se descritas práticas empresariais massivas que vão a julgamento como as “incitações repetidas” a que os trabalhadores abandonem pelo seu pé a empresa de forma a poupar dinheiro e facilitar procedimentos à empresa, processos de mobilidade “forçada” e missões desvalorizantes com o objetivo de quebrar os trabalhadores e “isolamento”. Visava-se, pode-se ler, “desestabilizar os assalariados”. E não apenas para emagrecer os quadros de pessoal.

Por isso, não falta quem ache que este julgamento pode fazer justiça aqueles que sofreram das mais diversas formas pelas práticas da France Télécom. E que pode também influenciar decisivamente futuros casos.

Termos relacionados Sociedade
(...)