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SOS Racismo apresenta queixa contra manual da Porto Editora

A associação acusa a editora de “mentir às gerações mais novas e agredir a memória coletiva” ao resumir a relação de Portugal com África e o Brasil nos séculos XV e XVI a “contactos comerciais marcados por relações pacíficas e amigáveis”. A editora reconhece o erro e diz que vai reformular este manual de apoio às provas de aferição.
Foto de Paulete Matos.

Em comunicado, a associação SOS Racismo critica o manual de apoio às provas de aferição de História e Geografia do 5º ano, que resume o contacto dos portugueses “com povos de diferentes raças e diferentes costumes” nos séculos XV e XVI. Para os autores do manual da Porto Editora, a relação dos portugueses com o Brasil e África ficou marcada pelo estabelecimento de “contactos comerciais marcados por relações pacíficas e amigáveis”.

“Tais referências em manuais escolares e pedagógicos são infelizmente recorrentes e inaceitáveis. É incompreensível que ainda existam autores, autoras e editoras que concebam materiais com estes propósitos, contendo referências a categorias biológicas de “raça” e que reproduzem imaginários lusotropicalistas, típicos do Estado Novo, negando a violência colonialista e esclavagista de Portugal”, aponta a SOS Racismo.

A associação repudia “a veiculação de estereótipos infundados e estigmatizantes” e exige “uma tomada de posição inequívoca a este respeito” por parte do Ministério da Educação e do Alto Comissariado para as Migrações. A SOS Racismo vai apresentar uma participação à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.

Excerto do manual de apoio às provas de aferição d Porto Editora

Excerto do manual de apoio às provas de aferição de História e Geografia do 5º ano.

 

“Afirmar que a submissão de milhões de pessoas à escravatura corresponde a ‘contactos comerciais marcados por relações pacíficas e amigáveis’ com África e com o Brasil, é negar a História e é violentar a memória de milhões de pessoas que sofreram, que perderam a sua dignidade e a sua vida. É mentir às gerações mais novas e agredir a memória coletiva, não apenas de Portugal, mas sobretudo dos países que sofreram com o colonialismo e com a escravatura portuguesa”, refere ainda a SOS Racismo.

Em declarações citadas pelo Jornal de Notícias, a Porto Editora reconhece que "o excerto referido não está correto e desde já informamos que vamos solicitar aos autores do livro a necessária reformulação”. A editora sublinha que se trata de um livro de compra livre e não de um manual adotado pelas escolas e afirma que no excerto alvo de repúdio ”pretendia-se falar dos primeiros contactos, no final do século XV e início do século XVI, e não abarcar todo o 'decorrer da construção do império'. Infelizmente, nas décadas e séculos seguintes o comércio e sobretudo a ocupação enveredou pelo caminho de atitudes condenáveis, como a desconsideração pelas culturas próprias e a escravatura".

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