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"A solução para combater o terrorismo terá de ser política"

O jornalista José Manuel Rosendo e a eurodeputada Marisa Matias participaram no painel “Como combater o terrorismo?”, no Fórum Socialismo 2017.
José Manuel Rosendo e Marisa Matias participaram no painel “Como combater o terrorismo?”, no Fórum Socialismo 2017. Foto de Paulete Matos.
José Manuel Rosendo e Marisa Matias participaram no painel “Como combater o terrorismo?”, no Fórum Socialismo 2017. Foto de Paulete Matos.

No início da sua intervenção, José Manuel Rosendo referiu-se à forma como tem vindo a ser utilizada a palavra “terrorismo”.

“A invasão do Iraque só porque foi feita por um Estado não é terrorismo? Os responsáveis já foram julgados?, questionou. “Já sabemos que a invasão do Iraque foi um embuste, já sabemos que os motivos que levaram à guerra afinal não existiam, mas é como se nada tivesse acontecido. Ninguém sabe quantas centenas de milhares de pessoas morreram desde que o Iraque foi invadido. Passa-se por cima de isto como se fosse uma coisa perfeitamente natural. Não é. Da mesma forma que não é normal aquilo que está a acontecer nas ruas da Europa e, mais recentemente, em Barcelona e em Cambrils”, frisou o jornalista.

José Manuel Rosendo assinalou ainda que terrorismo não é só o ato de violência, existindo muitas formas de terrorismo, como o terrorismo económico ou político.

“Hoje, o debate sobre o terrorismo está praticamente centrado no chamado terrorismo islâmico”, referiu.

O jornalista lembrou que os atentados mais recentes, na sua esmagadora maioria, foram cometidos por “pessoas que já nasceram na Europa”, ficando “desde logo afastado o mito que se criou de que a chegada de refugiados ia fazer aumentar o terrorismo na Europa”.

“Sobre aqueles que cometeram, ou que, pelo menos, são acusados disso, temos, em regra, um padrão”, sinalizou José Manuel Rosendo, acrescentando que em causa estão pessoas muito jovens e que não estão integradas. “Se é que é possível montar um perfil”, realçou o jornalista, tratam-se de “jovens colocados perante duas realidades na sua fase de crescimento e de educação”.

“Em casa têm a cultura do país de origem, muitas vezes ligada ao Islão, e cá fora - na escola e em toda a sociedade que os envolve - têm outro tipo de cultura que vai formatando a sua personalidade, e que são os valores ocidentais, que promovem o sucesso individual e o consumo. Muitos desses jovens chegam a um momento em que são confrontados com uma espécie de curto-circuito, quando percebem que não conseguem atingir esses valores que a maravilha do ocidente lhes promete. E é aqui que as coisas se complicam e que há, por vezes, uma tentativa de regresso às origens”, expôs o jornalista.

Rosendo deu o exemplo da “Irmandade Muçulmana, que surgiu no Egipto, no início do século passado, precisamente como resposta a uma transformação da sociedade egípcia que se estava a verificar mediante a presença de, nomeadamente, franceses e ingleses”: “Quem forma a Irmandade tinha como objetivo contrariar a tendência de alteração cultural na sociedade egípcia”.

O jornalista indicou que “esse regresso a esses valores está muitas vezes associado à religião, que tem um papel central nas sociedades dos países a que nós geralmente nos referimos como sendo aqueles onde está a origem deste tipo de terrorismo”. “Neste contexto, basta que surja um líder religioso, um Imã mais radical, para que estes jovens sejam levados a cometer atos desta natureza”, mencionou.

Sobre a abordagem da comunicação social, e os estereótipos que se vão criando, Rosendo considera que, muitas vezes, o que se faz é “espalhar veneno num rio”, que “pode matar tudo à passagem e demora muito tempo a desaparecer”.

José Manuel Rosendo considera que o “terrorismo é uma questão política e a religião é um instrumento”. “Se é um problema que tem origem política, a solução só pode ser política”, defendeu.

Para o jornalista, existem duas frentes de combate ao terrorismo. Por um lado, “onde estes atos terroristas têm origem, ou seja, nos países de onde vêm as pessoas e onde existem os conflitos que dão origem a este tipo de situações”. Segundo Rosendo, é preciso que existam nestes países “situações políticas onde as pessoas sintam que têm uma vida digna e onde haja justiça”.

“Isto demora tempo. É preciso não apoiar ditadores e pessoas que são fantoches políticos que só se limitam a estar no poder para fazer o jogo de interesses das grandes potências internacionais”, realçou, lembrando que muitos destes países são países ricos, não se percebendo como é que as pessoas vivem na miséria.

“A outra frente, e falando no nosso caso, é na Europa”, explicou o jornalista, vincando que “é preciso que existam governos que tenham vontade de apoiar este tipo de soluções políticas nos países de onde vêm estas pessoas”.

“Temos esses governos? Sinceramente parece-me que não. Mas é a única forma. Não há volta a dar. Podemos arranjar paliativos, podemos colocar blocos de betão e barreiras de segurança à entrada dos aeroportos, do metro, mas isso nunca vai resolver o problema”, rematou.

A solução para o terrorismo terá de ser uma solução política

“Temos um olhar muito ocidental sobre o que é o terrorismo”, afirmou Marisa Matias, lembrando que “não foi há muito tempo ainda que Portugal, pela voz do seu primeiro-ministro da altura, Cavaco Silva, foi um dos dois países que manteve a classificação de terrorista para Nelson Mandela”.

Segundo a eurodeputada bloquista, a utilização da palavra terrorista “evolui muito com a história e depende muito do sítio de onde é que estamos a ver”.

Marisa Matias também fez referência à cobertura dos media, frisando que “é importante perceber que há imagens que valem mais do que mil palavras”. A dirigente do Bloco deu o exemplo das imagens dos refugiados sírios que são transmitidas na televisão, e que não têm nada a ver com a realidade que tem encontrado no terreno, em que 80% dos refugiados são mulheres e crianças.

A eurodeputada lançou alguns dados para o debate, recordando que existem 22 países árabes e que o Islão não está concentrado naquela região do mundo. Marisa Matias considera que a diversidade da comunidade muçulmana é ignorada, e que é tudo tratado como igual, e tudo catalogado como terrorista.  

Para a dirigente bloquista, é preciso “acabar de uma vez por todas com a ideia feita de que o terrorismo tem uma região do mundo, tem uma religião e de que toda a gente que procurou fugir ao terrorismo é em si mesmo terrorista”.

Sobre a forma como a questão terrorista tem sido tratada no espaço da União Europeia nos últimos anos, Marisa Matias afirmou que, de facto, se trata de uma questão de segurança, “mas é uma questão de segurança tanto o atentado de Barcelona como o atentado que ocorreu um ou dois dias depois na Síria, e que matou 38 crianças, ou um atentado que aconteceu na mesma altura no Iraque”.

“Só temos notícias dos atentados que ocorrem no espaço europeu, mas os atentados terroristas têm lugar em todo o mundo”, assinalou Marisa Matias, vincando que repudia cada um destes atentados.  

A eurodeputada defendeu que, "sendo um problema político, a solução para o terrorismo também terá de ser uma solução política".

No que se refere a quem defende o reforço da legislação penal, a eurodeputada defendeu que essa é uma medida “totalmente ineficaz”, apontando que, “nos sítios onde houve reforço da legislação fiscal como resposta ao terrorismo, o mesmo não impediu atentados, mas pôs em risco liberdades civis”, que é o que os terroristas procuram também fazer.

Também a suspensão do Acordo de Schengen não evitaria, segundo Marisa Matias, nenhum atentado, inclusive porque estes foram cometidos, na sua grande maioria, por cidadãos europeus, e representaria, isso sim, um atentado às liberdades civis.

A dirigente do Bloco fez também referência ao PNR (Passenger Name Record), que estipula o registo dos nossos dados nos voos comerciais - dados estes que são oferecidos à NSA e a outros órgãos norte americanos - mas que deixa de fora os voos charter e os aviões privados, ou seja, não controla quem tem poder económico para viajar desta forma.

Não há interesse em “pôr em causa a livre circulação de capitais” e nem em “controlar os fluxos financeiros para paraísos fiscais” onde está “a chave para o financiamento de grupos terroristas”.

Marisa Matias lamentou que não haja interesse em “pôr em causa a livre circulação de capitais” e nem em “controlar os fluxos financeiros para paraísos fiscais”, onde está “a chave para o financiamento de grupos terroristas”.

Destacando a importância de pôr em xeque as relações comerciais com a Arábia Saudita e o Qatar, a dirigente do Bloco adiantou que tal não é feito porque representa uma “fonte de rendimento e de equilíbrio da balança comercial de muitos países europeus, em particular da França e do Reino Unido”.

“Poucos meses depois do atentado de Paris de novembro de 2015, o presidente François Holande condecorou o príncipe da Arábia Saudita por causa das boas relações comerciais entre os dois países”, recordou Marisa Matias, avançando que, nos últimos dez anos, a Arábia Saudita tem ocupado o primeiro lugar no que respeita às exportações francesas de armamento.

“A venda de armamento para o Qatar e para a Arábia Saudita, bem como para outros países, como a Turquia, que direta ou indiretamente financiam e armam grupos terroristas, continua em prática”, referiu a dirigente do Bloco, adiantando que também a moratória à compra de petróleo nos poços ocupados por grupos terroristas não teve acolhimento no Parlamento Europeu.

Marisa Matias reconheceu que as Nações Unidas, e o grupo especial liderado por Staffan de Mistura, têm tentado fazer alguma coisa a esse respeito com as conversações de Genebra, e que o Processo de Astane, liderado pela Rússia, e entretanto integrado agora nas negociações de Genebra, também foi importante e complementar neste processo.

Contudo, a eurodeputada frisou que “tem de estar toda a gente à volta da mesa menos os terroristas”, sendo que a exclusão dos curdos é inaceitável.

Por outro lado, Marisa Matias alertou que “não se podem fazer declarações de intenção nem dizer que se apoia este processo político ao mesmo tempo que não se faz nada do ponto de vista das relações comerciais e dos fluxos financeiros”, bem como de “uma desmontagem profunda daquelas que são as ideias preconcebidas relativamente àquilo que são os movimentos terroristas, como é que estes foram construídos, o que é que esteve na sua origem”.

“Às custas disto”, avançou a dirigente bloquista, “nós, os países ocidentais, andamos a formar, a armar, a apoiar, a criar grupos terroristas há muitos anos, como aconteceu no Afeganistão, no Iraque e na Síria”.

É preciso assumir, segundo Marisa Matias, que os países ocidentais têm responsabilidades diretas ou indiretas na formação destes grupos terroristas, em particular o Daesh. “E não é preciso haver tropas no terreno para que isso seja evidente”, frisou.

Para a eurodeputada, é ainda preciso “não calar nem anuir de cada vez que alastra a islamofobia por esse mundo fora”. “Temos essa obrigação”, vincou.

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