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Socialismo 2010: Há feminismo sem feministas?

Numa das sessões da iniciativa "Socialismo 2010 - Debates para a alternativa", que arranca esta sexta-feira em Braga, Sofia Roque trará ao debate as ideias do movimento feminista, a auto-organização das mulheres e as relações entre marxismo e feminismo.


Texto de Sofia Roque que introduz a sessão "Há feminismo sem feministas?"

 

Sinopse: A questão que serve de título a esta comunicação necessita de uma justificação prévia. Não se trata de uma pergunta de retórica cujo conteúdo enfático bastaria como mote, embora, neste caso, não conduzisse a nenhuma reflexão. Não se trata também de nenhuma simplificação do tema do feminismo e da acção feminista pela redução destes a uma relação de identificação entre a ideia e os seus seguidores. Tal colocar-nos-ia, desde logo, no plano da superfície, bloqueando-nos aí, no lugar onde a utopia se torna o conceito centrifugador que neutraliza tanto o plano da análise teórica, tal como bloqueia qualquer modelo de práxis emancipatória.

Assim sendo, perguntar se poderá existir isso a que se chama «feminismo» sem haver simultaneamente «feministas», significa que o feminismo não se esgota numa espécie de ideal que se quer fazer cumprir e, portanto, feministas não são aqueles que acreditam nesse ideal e o esperam nesse futuro por vir. A questão não é neutra e indica já que se entende o feminismo como um modelo de análise crítica da realidade que contém em si mesmo, tanto quanto possível, as condições para a construção da superação dessa mesma realidade. Por conseguinte, o feminismo é uma teoria e uma práxis, e «feministas» serão tanto os que se inscrevem nesse modelo de análise como os que necessariamente o protagonizam enquanto modelo de acção política. Estas duas vertentes são inseparáveis. Se quisermos simplificar, não há aqui lugar para feministas não-praticantes, e isto não reflecte apenas a exigência de uma postura coerente, é a condição para a transformação.

A pergunta «Há feminismo sem feministas?» esconde ainda uma outra ambiguidade que interessará explorar no desenvolvimento da própria questão. O termo «feministas» é neutro quanto ao género e, portanto, fica a dúvida sobre se estamos a falar de homens e mulheres feministas ou apenas de mulheres feministas. Bom, a resposta é sim e não. Pelo que já foi dito, esta questão reclama a exigência de se pensar na acção, na organização para lá da análise e, por conseguinte, no modo como todos nós, mulheres e homens, nos deveremos comprometer com isso mesmo. Mas ao colocar-se esta questão, impõe-se também a abordagem da importância da auto-organização das mulheres, seja enquanto movimento autónomo, ou no interior de outros movimentos, sindicatos, partidos, organizações políticas em geral. Adianto já que a minha resposta à questão, abordada sob este ponto de vista, é não – não há luta feminista, sem mulheres auto-organizadas, isto é, as mulheres têm de ser necessariamente o sujeito político do seu processo emancipatório.

Pretende-se, nesta comunicação, desenvolver os argumentos que sustentam esta resposta, mas numa perspectiva comprometida que implique a relação entre feminismo e marxismo, isto é, com o intuito de pensar e contribuir para a construção de um movimento que é feminista e anti-capitalista, sem uma hierarquia interna na definição da sua identidade. Um movimento politizado e combativo, que assuma a interseccionalidade das opressões de género, classe e raça, e que ouse a desconstrução radical de um modelo global que incorpora já essa intersecção, sistémica e organicamente, nas suas instituições, estabelecendo uma teia de relações de poder que potenciam continuamente as suas condições de actualização, de controlo e de domínio.

Através da invocação dos diversos momentos históricos que ensaiaram, ou concretizaram revoluções, considerando a acção de muitas mulheres que permitiram e ajudaram, de facto, à constituição de espaços de liberdade e de experiência política real, pelo seu confronto directo com sistemas e instituições de opressão, pode-se desenhar um percurso histórico dos acontecimentos entrecruzando-o com a história da teoria feminista, evidenciando encontros e desencontros, que, por sua vez, espelham também o desenvolvimento e aprofundamento da tradição do pensamento marxista, e da sua práxis.

Pretende-se, em última análise, olhar para a classe e para o género (e também para a nacionalidade ou a sexualidade) como categorias não-estanques, antes permeáveis e transmutáveis pela intersecção das opressões. Como modos de ser relativos que resultam não apenas de condições objectivas, estabelecidas no plano económico ou no biológico, mas também no ideológico, no cultural, no histórico, de tal modo que, entrelaçadas nas redes da relação de forças e/ou das relações de poder, exploração e opressão complexificam-se, atenuam-se ou agravam-se – mas não se extinguem.

Classe e género funcionam como dois espartilhos que mais ou menos apertados, sobrepostos ou não, pertencem ao mesmo sistema e a sua superação deverá ser encarada para lá da dicotomia entre as reivindicações da redistribuição e do reconhecimento, sob pena de se cair na exigência mínima do estado de providência e da igualdade; ou de se ignorar o facto desses meios/reivindicações, potenciadores de visibilidade e afirmação de uma identidade, contribuírem para os processos de consciencialização e subjectivização que levam comunidades ou grupos à luta política.

Sofia Roque

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