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Slow media: renovar o debate numa era de autoritarismo digital

As redes sociais geram informação rápida e superficial que está a degradar o debate público e a gerar formas de autoritarismo digital. Os media lentos querem resgatar o debate numa nova direção, não-comercial, que aponte a uma internet de serviço público e plataformas cooperativas. Por Christian Fuchs.
Mulher com laptop. Foto de colorblindPicaso/Flickr.
Foto de colorblindPicaso/Flickr.

A ascensão de uma nova forma de capitalismo global, digital e móvel desde a década de 1970 acelerou o ritmo das nossas vidas. Produzimos mais, consumimos mais, tomamos mais decisões e vivemos mais experiências. Essa aceleração é impulsionada por princípios subjacentes do tipo "tempo é dinheiro", "tempo é poder", "a vida é curta".

No terreno dos media e da comunicação, somos confrontados por fluxos globais de informação em ritmo acelerado na Internet, a que acedemos constantemente de qualquer lugar através dos nossos telefones, laptops e tablets. As plataformas comerciais como o Facebook, o Twitter e o YouTube são tabloides digitais que fazem circular a alta velocidade informação muitas vezes superficial, consumida em intervalos de atenção cada vez mais curtos. O principal objetivo desta aceleração estimulada pelas redes sociais é a venda de publicidade dirigida. Com esta comunicação de alta velocidade, estão a proliferar o autoritarismo digital, públicos fragmentados, notícias falsas, bots, bolhas de informação filtrada e uma cultura narcisista do "eu".

As redes sociais de hoje são, na verdade, redes anti-sociais que prejudicam a comunicação política e o esclarecimento público. Em 2019, uma investigação da comissão parlamentar do Reino Unido sobre desinformação e notícias falsas concluiu que as implicações negativas das redes sociais deveriam "permitir-nos uma pausa mais demorada para refletir".

Começa a notar-se um desejo por uma coisa diferente. Uma investigação conduzida pela minha equipa no projeto da UE netCommons mostrou que quase 90% de mil internautas que responderam a inquérito disseram estar interessados ​​em alternativas às plataformas comerciais dominantes.

Na mesma linha do slow food — movimento criado para responder às implicações negativas da cultura do fast food, e que se tornou parte de um movimento mais amplo por uma vida lenta — Sabria David, Jörg Blumtrit e Benedikt Köhler propuseram um manifesto por slow media [media lentos].

Os media lentos tiram velocidade à informação, às notícias e à comunicação política, reduzindo a quantidade de informação e comunicação. A ideia é que o público se envolva mais profundamente entre si e com o conteúdo. Os media lentos não distraem os utilizadores com publicidade, não se sustentam na sua vigilância e não visam gerar lucro. Trata-se não só de uma forma diferente de consumir, mas de uma forma alternativa de organizar e produzir media — um espaço para reflexão e debate político racional.

Clube 2.0: debate lento

O Clube 2 foi um formato de debate transmitido pela televisão pública austríaca (ORF) entre 1976 e 1995. Os espetadores podiam assistir a um debate ao vivo, com polémica e sem censura, entre diversos interveniente num pequeno estúdio sem público. O Clube 2 foi, nesse sentido, o slow media original. Não tinha interrupções para publicidade e dispunha de um tempo de antena ilimitado. Na Grã-Bretanha, uma versão do Clube 2 produzida pela OpenMedia sob o nome After Dark foi para o ar de 1987 até 1997.

Na era dos conteúdos gerados por utilizadores, proponho uma versão atualizada do Clube 2, que reuniria televisão ao vivo e internet, transmitida através de uma plataforma de vídeo não comercial. O Clube 2.0 seria baseado numa versão sem fins lucrativos e sem publicidade do YouTube. Os utilizadores, nomeados e registados, gerariam discussões para acompanhar o debate na TV ao vivo disponibilizado pela plataforma de vídeo.

Um limite ao número de utilizadores registados e ativos — e ao número de vídeos e comentários que podem fazer durante os debates — permitiria controlar o ritmo das discussões online. Em vez de um limite máximo da carateres nos comentários (e vídeos), como no Twitter, haveria um limite mínimo. Grupos de utilizadores em escolas, universidades, empresas, associações, comunidades locais, bairros, igrejas, sindicatos e outros corpos da sociedade civil poderiam co-criar vídeos antes de um episódio.

Em certos momentos da transmissão ao vivo, um vídeo criado por um utilizador seria escolhido e transmitido, contribuindo para o debate em estúdio. Idealmente, um debate com uma duração de duas ou três horas permitiria selecionar um número razoável de vídeos de utilizadores.

Num tempo em que a comunicação política sustentada de pessoas com posições diferentes se tornou quase impossível, novas visões para uns media lentos apontam para soluções possíveis no sentido de criarmos uma nova cultura de debate político e renovarmos a esfera pública. Desacelerar a lógica dos media é incompatível com os princípios que norteiam os monopólios digitais comerciais.

Transformar esta visão em realidade requer mudanças estruturais na comunicação. Os media lentos exigem que reinventemos a internet como um serviço público com plataformas cooperativas.

A internet comercial é dominada pelo capital digital, por monopólios digitais, notícias falsas, bolhas de opinião filtrada, política pós-verdade, autoritarismo digital, nacionalismo online, tabloides digitais e fluxos rápidos de conteúdo superficial. A resposta está numa internet de serviço público e em plataformas cooperativas, que apontem para uma internet baseada na partilha do comum, democrática, uma verdadeira esfera pública digital.

Christian Fuchs é professor e diretor do Communication and Media Research Institute, Universidade de Westminster. Artigo original em The Conversation. Tradução de José Borges Reis para esquerda.net.

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