Sistema de saúde grego à beira da catastrofe

17 de agosto 2011 - 18:16

Uma reportagem do jornal inglês Guardian mostra como os mais pobres estão a ser afastados dos cuidados de saúde na Grécia. Os cortes da troika também deixaram os hospitais com falta de equipamento.

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A carência de materiais é um dos principais efeitos da troika no funcionamento dos hospitais públicos na Grécia. O outro é o afastamento dos doentes pobres. Foto Darcie/Flickr

O jornalista do Guardian visitou um centro de atendimento da ONG Médecins du Monde,  criado para dar resposta a imigrantes ilegais mas que hoje praticamente só atende cidadãos gregos, os "novos pobres" que não conseguem pagar o acesso à saúde.



As pessoas que procuram este centro são "sobretudo novos pobres e um problema suplementar é que os hospitais agora cobram por cada vez que o doente lá vai", diz George Padakis, o médico que ali dá assistência e admite que "não esperava vir para aqui tratar gregos". "Um sistema de saúde que já não era o melhor, agora vai de mal a pior", lamenta Padakis.



"As pessoas que podem pagar têm acesso imediato ao tratamento. Mas o que está a acontecer em zonas como esta, com desemprego alto, é que quem tem problemas de saúde não está a ser acompanhado ou então, como este doente - um diabético de 42 anos - não tomam a medicação quando devem porque não conseguem pagá-la", denuncia o médico deste centro instalado na cidade de Perama.



O conjunto do sistema de saúde ressente-se agora dos cortes orçamentais do governo e da troika. Os salários dos médicos foram reduzidos ao nível da função pública, há carência de instrumentos de trabalho nalguns hospitais e até as clínicas privadas foram obrigadas a baixar os preços. É o caso da maternidade de Iasso, onde se fazem 16500 partos por ano e que cortou 35% nas tarifas aplicadas para não perder clientes.



Para além do corte salarial, que lhes levou os subsídios do Natal, Páscoa e férias, os médicos gregos também deixaram de ver apoiada a compra de livros de medicina, normalmente caros. Jenny Ioannidis trabalha no maior hospital de Atenas e disse ao jornalista do Guardian que este ano já houve alturas em que faltava muito material.



"Como o hospital devia dinheiro aos fornecedores, ficámos sem endopróteses. Depois houve duas semanas em que não tivemos toalhetes para tirar o gel aos doentes. Usámos papel higiénico e rolos de cozinha". Mais grave foi o caso contado pelo marido, também médico, sobre a falta sentida em vários hospitais de Atenas de lentes intraoculares usadas nas operações às cataratas. O resultado foi uma deslocação em massa destes doentes para o hospital onde trabalha, o único com lentes em stock e que se viu obrigado a recusar muitos doentes a precisar delas.



As faltas de material são um relato comum a outra médica que trabalha com doenças infecto-contagiosas. Olga Kosmopoulou faz questão em dizer que está no serviço público porque escolheu "trabalhar para os que não podem pagar". Esta médica diz que a Grécia tem "um sistema privado que tem sido muito lucrativo e um sistema público que tem dado boas respostas" e que a razão para agora não estar a funcionar "não tem a ver com os cortes nos salários", mas sim com "a carência no sistema público de materiais que são essenciais, bem como o facto de já não sentir que trabalho na medicina pública, isto porque as pessoas são obrigadas a pagar tantas vezes". 

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