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Silvia Federici: "Espero que o momento impulsione os movimentos feministas"

Em entrevista à Agência Pública, a filósofa italiana fala sobre a acumulação de trabalho para as mulheres durante a pandemia e o novo feminismo que vê nascer.
Silvia Federici. Foto de Despieces Blog/Flickr.
Silvia Federici. Foto de Despieces Blog/Flickr.

A filósofa, escritora e professora italiana Silvia Federici ficou conhecida no Brasil pelos seus livros “Calibã e a Bruxa”, “O Ponto Zero da Revolução” (Editora Elefante) e “Mulheres e Caça às Bruxas” (Editora Boitempo). Nascida em Itália e radicada nos Estados Unidos desde a década de 1960, Silvia lança agora um novo livro pela Boitempo, “O patriarcado do salário – notas sobre Marx, género e feminismo” que traz uma série de artigos sobre como o trabalho não remunerado das mulheres – como o doméstico e o de cuidados com a reprodução – teve e tem um papel importante na consolidação e na sustentação do sistema capitalista. Silvia também reivindica espaço para o que chama de “trabalho reprodutivo” nas reivindicações da esquerda como mostra esse trecho do livro: “De Lenine a Gramsci, toda a tradição da esquerda concordou com a ‘marginalidade’ do trabalho doméstico para a reprodução do capital e com a marginalidade da dona de casa para a luta revolucionária. Para a esquerda, na condição de donas de casa, as mulheres não sofrem por causa da evolução capitalista, mas pela ausência dela. O nosso problema, ao que parece, é que o capital não organizou as nossas cozinhas e os nossos quartos, o que gera uma dupla consequência: a de que nós aparentemente trabalhamos num estágio pré-capitalista e a de que qualquer coisa que façamos nesses espaços é irrelevante para a transformação social. Pela lógica, se o trabalho doméstico é externo ao capital, a nossa luta nunca causará sua derrocada”.

Na década de 1970, a filósofa defendeu um salário para o trabalho doméstico e um relatório da Oxfam de março de 2020 estimou que as mulheres dedicam 12,5 mil milhões de horas, a cada dia, para limpar a casa, cozinhar e cuidar de crianças e idosos. Algo que temos visto escalar durante a pandemia de coronavírus com a sobreposição do trabalho remunerado – seja ele remoto ou não – com o não remunerado como o cuidado com os doentes, com a casa e os filhos fora da escola, disse Silvia numa conversa por vídeo com a Agência Pública. “Muitas mulheres estão a ficar loucas e estão a dizer isso. Esta é uma crise muito forte. Eu espero que esse seja um momento que impulsione uma forte mobilização de movimentos feministas. Que não se torne uma situação permanente porque as mulheres não irão permitir”, refletiu.

Federici disse também ter esperança num novo feminismo “dissidente, alternativo, popular como o que existe na América Latina” que se encontra com outros movimentos sociais como o antirracista, anticapitalista, indígena, camponês, “a luta sobre o controle dos nossos corpos e a defesa da natureza, a luta contra a contaminação das águas pelo agronegócio”, algo que ela chama de “um feminismo mais amplo, focado em combater a supremacia masculina, a dominação das mulheres pelos homens e também aberto a outras atividades e lutas que são fundamentais para uma transformação real da sociedade”.

Sobre o governo Bolsonaro, a ascensão de uma nova extrema-direita no mundo e o fundamentalismo religioso que coloca feministas e população LGBT como principais inimigos, Silvia Federici fala em uma nova caça às bruxas: “Não existe o desejo de proteger a vida mas sim o de controlar os corpos das mulheres, assegurar-se de que as mulheres sejam subordinadas, sacrificadas, que possam ser exploradas pelas suas famílias e pelo capitalismo. É uma questão económica também, a igreja com essa aparência da defesa da vida, da família, na verdade está a defender a produção do trabalho não assalariado das mulheres. E quando a igreja vê que não pode mais nos convencer de tudo isso então trata-nos como inimigas, cria novas divisões entre mulheres e homens e entre mulheres também. Porque colocam algumas mulheres como aliadas do diabo”.

 


Em debate com Sonia Guajajara no último dia 11, disse que o feminismo não é isso que os meios de comunicação social têm mostrado ao longo dos anos e nem o que a indústria tem tentado cooptar e fala de um novo feminismo. Que feminismo é esse que vê surgir e como vê essa apropriação?

A tentativa dos meios de comunicação social, do capital, das instituições em cooptar o feminismo vem de longa data, é uma história que começa nos anos 1980, quando as Nações Unidas e vários governos começam a celebrar o desejo das mulheres por emancipação através do trabalho assalariado. E num momento de forte crise do capitalismo, que era também um momento de muita luta, de protestos, o capitalismo abre as portas para as mulheres e celebra as suas iniciativas e seu desejo de emancipação. Então para muitos o feminismo é somente o desejo de ter oportunidades e de ser igual aos homens e essa é uma visão muito reducionista.

Claro que ninguém deve ser discriminado, claro que as mulheres não devem receber tratamento diferente dos homens mas o feminismo pode muito mais do que isso! Denuncia a desvalorização de toda uma esfera de atividades, denuncia que as mulheres produzam, cuidem de toda a infraestrutura da casa antes de sair para trabalhar e nunca tenham sido devidamente recompensadas, denuncia essa desvalorização do trabalho não pago com a reprodução. E nos últimos anos temos visto essa ênfase do movimento feminista sobre a reprodução, sobre o corpo, essa ênfase é muito importante.

Podemos ver também as conexões entre a luta sobre o controle dos nossos corpos e a defesa da natureza, a luta contra a contaminação das águas pelo agro-negócio. Esse parece-me o aspeto mais importante dessa nova forma de feminismo, que vem sobretudo do sul, da América Latina, Chile, Brasil, de movimentos que se encontram. Movimento de mulheres camponesas, por exemplo, das mulheres indígenas com o movimento feminista que parece mais clássico, contra as relações patriarcais. Existe hoje então um feminismo que é contra a dominação patriarcal e quer criar um mundo diferente, um mundo que não é governado pela lógica capitalista, de mercado, um mundo em que não sejamos controladas pelas grandes empresas capitalistas. Isso parece-me importante. Um mundo crítico ao racismo. Essa capacidade de ver conexão entre diferentes movimentos, um feminismo mais amplo, focado em combater a supremacia masculina, a dominação das mulheres pelos homens e também aberto a outras atividades e lutas que são fundamentais para uma transformação real da sociedade.

Nós sabemos que historicamente o feminismo tem sido visto como uma luta secundária por outros movimentos sociais e por grande parte da esquerda. Gostaria que falasse um pouco sobre como o feminismo atravessa e é atravessado por todas essas lutas e como podemos fazer essa conversa?

Sim, espero que a esquerda e os movimentos sociais comecem a compreender a importância disso para a mudança social. Porque por muito tempo a luta das mulheres era considerada como uma luta de suporte a outras lutas. É esquecida toda uma esfera muito importante, da reprodução social, a esfera da reprodução da força de trabalho. Um feminismo dissidente, alternativo, popular como o que existe na América Latina tem sido capaz de abrir os horizontes da visão da esquerda, da visão que Marx nos propôs, que continua a ser fundamental, trouxe-nos repertório, trouxe-nos categorias que nos ajudam a compreender a lógica da sociedade capitalista mas que também tem dado uma visão muito reducionista do que é esse trabalho, do que é essa exploração, quem somos os sujeitos revolucionários, justamente por esse enfoque somente à fábrica, ao trabalho industrial, ao trabalho assalariado.

Marx viveu num período particular, da Revolução Industrial, e apesar de toda a sua crítica à sociedade capitalista, sempre olhou para o capitalismo como um sistema que explora mas todavia cria condições materiais para a criação do comunismo. Essa visão da indústria, sobre como é fundamental também para libertar o trabalho humano, reduzir o trabalho necessário para que possamos fazer coisas mais importantes, tudo isso tem um impacto muito negativo sobre todas as atividades reprodutivas. Muitas das quais não se pode mecanizar, não se pode industrializar

Reproduzir pessoas, reproduzir a vida não é a mesma coisa que fazer um carro! O movimento feminista é capaz de recuperar a crítica ao sistema capitalista de Marx mas também de se distanciar de alguns aspetos do marxismo que privilegiam um setor particular de trabalho e um setor particular de sujeitos políticos, privilegia-os e assim confirma as divisões nas hierarquias de trabalho construídas pelo capitalismo.

Assim os partidos comunistas, os partidos de esquerda têm reproduzido a mesma hierarquia que se encontra na organização capitalista do trabalho e essa é nossa crítica. Não é uma rejeição de Marx ou do anticapitalismo, é uma rejeição a uma visão que privilegia alguns setores, algumas formas de trabalho e vê as outras como marginais.

Temos vivido hoje no Brasil, com o governo Bolsonaro que é tomado por militares e religiosos, uma ameaça muito grande aos direitos das mulheres e população LGBT. Mas sabemos que a tentativa de dominação dos corpos por parte da igreja definitivamente não é algo novo. Poderia falar um pouco sobre isso?

Sim, claro, a igreja tem toda uma história, na idade média, na inquisição, de caça às bruxas e não só de caça às bruxas mas a igreja tem sido uma presença fundamental, importante, de controle e restrição à vida das mulheres. É só olharmos para os textos sagrados em que as mulheres são as causas da perdição da humanidade! São as que introduziram o pecado no mundo!

Hoje continua a ser assim, temos visto uma intervenção fanática do Vaticano sobre a luta das mulheres na Argentina pelo direito ao aborto. A igreja é uma parte do Estado, é um poder político e hoje continua disciplinando as mulheres na vida quotidiana, na reprodução. E isso é muito preocupante, essa nova cruzada liderada pelo Vaticano e pelos protestantes, é uma nova caça às bruxas! Não é somente uma metáfora é uma realidade.

E várias investigações académicas e produções jornalísticas sempre observam a conexão entre a nova caça às bruxas por exemplo na África, na Papua-Nova Guiné, com a presença muito forte a partir dos anos 1980 do desenvolvimento dessa crise neoliberal do capitalismo que tem desmantelado a organização comunitária da vida. Os novos missionários ajudam nesse processo de conquista e são financiados por instituições como o Banco Mundial. Fazem um trabalho de neutralizar protestos, são contra as vacinas e dizem que a pobreza, os traumas da vida são causados pelo demónio. É muito preocupante porque há uma inversão de fundos e energia nessa nova cruzada, nessa nova presença da religião sobre a vida quotidiana, o impacto que isso tem na fragmentação de comunidades minando a sua capacidade de existir.

Com a ascensão desses movimentos de extrema-direita e governos autoritários no mundo hoje, as mulheres feministas (assim como os comunistas e a população LGBT) são apontadas cada vez mais como as grandes inimigas, as que irão destruir as famílias heteronormativas — o próprio Bolsonaro elegeu-se muito baseado neste discurso e mantém grande parte da sua base de apoio, especialmente entre religiosos dessa forma. Como as acusações e a punição de ‘bruxas’ se repetem na atualidade, nesse contexto?

Sim, tentam culpabilizar as mulheres de tudo. Acredito que é importante denunciar isso e mostrar o quanto é falso e mentiroso o que esses senhores estão a fazer. Porque, por exemplo, dizem que estão a defender a vida, que a mulher não pode controlar a sua sexualidade, que não pode controlar o seu corpo em nome de uma defesa da vida. Mas isso é na verdade uma grande mentira porque se preocupam com os fetos somente enquanto estão dentro dos ventres das mulheres. Quando nascem essa preocupação acaba. É muito claro que isso na verdade é só para controlar os corpos das mulheres. Por exemplo, proibindo a contraceção ou o aborto. Não existe o desejo de proteger a vida mas, sim, o de controlar os corpos das mulheres, assegurar-se de que as mulheres sejam subordinadas, sacrificadas, que possam ser exploradas pelas suas famílias e pelo capitalismo.

É uma questão económica também, a Igreja com essa aparência da defesa da vida, da família, na verdade está a defender a produção do trabalho não assalariado das mulheres. E quando a Igreja vê que não pode mais convencer-nos de tudo isso então trata-nos como inimigas, cria novas divisões entre mulheres e homens e entre mulheres também. Porque coloca algumas mulheres como aliadas do diabo.

Por isso é muito importante que as mulheres se organizem, que prestem atenção ao que está a acontecer em África, por exemplo, em que muitas têm sido acusadas de bruxaria e mortas, expulsas das suas famílias, dos seus povoados. Praticam exorcismos não só em mulheres, mas também em rapazes que protestam contra a precarização, o empobrecimento. Por isso acredito que este é um tema que merece atenção dos movimentos feministas e dos movimentos sociais como um todo.

Pensando no cenário pandémico que tem feito as mulheres trabalhar em casa e acumularem as suas funções de trabalho remunerado com as de trabalho não-remunerado, ou naquelas mulheres cujo trabalho remunerado as obriga a sair de casa e expor-se a riscos de saúde e ainda cuidar dos enfermos, dos velhos e das crianças em casa. Acha que as mudanças no trabalho das mulheres causadas pela pandemia serão permanentes?

Hoje existe uma tensão, uma tensão geral sobre o trabalho doméstico. A razão é que há uma explosão de crise de muitas mulheres que se encontram em casa com o trabalho remoto e o cuidado com os filhos que hoje é muito grande porque além de tudo precisam ajudá-los com os estudos porque as escolas estão fechadas. E também com os traumas porque as crianças estão fechadas em casa, há traumas, problemas psicológicos. E há o trabalho doméstico, a comida, sair para comprar coisas e tudo isso neste momento com a pandemia de Covid. Muitas mulheres estão a ficar loucas e estão a dizer isso. Esta é uma crise muito forte. Eu espero que este seja um momento que impulsione uma forte mobilização de movimentos feministas. Que não se torne uma situação permanente porque as mulheres não irão permitir. Essa é minha esperança.

No entanto, sei que muitos empregadores irão [após a pandemia] usar a Covid para tentar trancar de vez as mulheres em casa porque vão se dar conta de que é mais económico. O trabalho remoto é muito útil aos empregadores porque lhes permite economizar dinheiro. E se não houver uma luta forte, uma forte mobilização, que se foque na problemática da reprodução, que se foque numa mudança qualitativa significativa de como se organiza a reprodução, iremos viver um pesadelo. Vamos ter uma jornada laboral de 24 horas. Dizem que o trabalho da mulher nunca acaba e agora estamos a viver isso de facto. E isso também é verdade para as mulheres que são obrigadas a trabalhar fora de casa, correndo grande perigo, sobretudo as que trabalham em lugares essenciais como hospitais, lojas, mercado. E voltam para casa para continuar a trabalhar.

É uma situação insustentável. E os empregadores e os governos vão desfrutar, usar como desculpa para que a mulher esteja cada vez mais sobrecarregada, a custos reduzidos, é um momento de grande perigo. É um momento decisivo, uma encruzilhada, ainda não é claro como será o futuro. O que vai decidir esse futuro é se haverá uma grande mobilização, se os movimentos serão capazes de pôr de lado as diferenças e criar um interesse comum, unir-se. Isso para mim é uma questão em aberto.


Entrevista de Andrea DiP publicada na Agência Pública. Adaptada para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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