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Ser carteiro parece simples, mas tem custos na saúde

A Assembleia da República debateu esta quarta-feira uma petição que alerta para as profundas consequências físicas do trabalho de carteiro. O Bloco de Esquerda propõe a revisão da regulamentação da profissão.
Carrinho de distribuição de correspondência para carteiros apeados. Foto de Paulete Matos, esquerda.net

Numa reportagem publicada pela TSF, Nuno, um carteiro com 27 anos de carreira, descreve o seu dia-a-dia de trabalho a partir de um centro de distribuição dos CTT, no Porto.

"Normalmente entramos às sete da manhã. O serviço já foi todo preparado, portanto já estamos prontos para sair. Antes de arrumar o carrinho estive a preparar as cobranças. Depois vim para aqui, para o posto onde tenho a correspondência do dia, e já tenho as cartas sequenciadas. Dividi por três sacos. Agora levo um e depois os restantes".

Cada saco pesa quinze quilos e, ao longo do dia, irá percorrer doze quilómetros a distribuir a correspondência. As consequências físicas no corpo fazem-se sentir de forma dura.

"Para provar que andamos sempre um bocadinho carregados, temos as doenças profissionais que advêm desse esforço. Nomeadamente hérnias discais, eu tenho duas, e tendinites. Não é difícil provar que é uma profissão de desgaste rápido", diz ainda à TSF.

Foi isto que motivou uma petição com mais de 5 mil subscritores a pedir a consideração da profissão de carteiro como profissão de desgaste rápido.

Os números dão força ao argumento. Num dia comum de trabalho, um carteiro apeado “irá puxar um carrinho com cerca de 30 quilos durante 8 quilómetros e 5 horas”, o que, num ano, corresponde a 7260 quilos durante 1.210 horas por 1.936 quilómetros. Depois, é multiplicar por 46 anos de trabalho. Mas os carteiros mototizados ou em motociclos também não escapam, nomeadamente a problemas de coluna devido às centenas de quilómetros percorridos diariamente.

Identificam três fatores essenciais: a “pressão e stress da atividade”, devido ao “cumprimento rigoroso de um conjunto de prazos que se relacionam com o serviço postal na sua generalidade”; a responsabilidade pela “entrega de notificações judiciais, outras comunicações de entidades públicas e também correspondência relativamente ao cumprimento de obrigações”; e o “desgaste emocional ou físico” associado à carga física.

No projeto de resolução entregue pelo grupo parlamentar do Bloco de Esquerda para acompanhar a petição, o partido considera que “não é por acaso que cada vez mais profissões, de diferentes setores de atividade, têm pedido, através de petições ou outras formas, o reconhecimento da sua profissão como desgaste rápido”.

Os ritmos de trabalho “têm-se acelerado, os horários de trabalho são cada vez mais longos e desregulados, as condições de trabalho são degradadas e não se tem em conta as condições de penosidade inerentes ao exercício de determinadas profissões”, argumentam.  

Por isso, o Bloco propõe que o governo “proceda à revisão da regulamentação da profissão de carteiro por forma a impor condições mais limitativas e protetoras dos trabalhadores, que reduzam o desgaste provocado pelo exercício da sua atividade, garanta condições de saúde e segurança no trabalho e condições de acesso à reforma adequadas à profissão”.

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