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Separar famílias de migrantes é uma barbaridade. E os EUA fazem isso há séculos com não brancos

É difícil encontrar um período razoavelmente extenso da história americana em que pais e filhos não brancos não tenham sido separados uns dos outros à força pela estrutura branca de poder do país. Artigo de Shaun King, publicado no The Intercept.
Leilão de escravos. Do livro Henry Bibb, Narrative of the life and adventures of Henry Bibb, an American slave (Nona Iorque, 1849).

Como a maioria das pessoas que está a ler este artigo, estou completamente estarrecido pelo que vejo acontecer hoje nos Estados Unidos – crianças, filhos de imigrantes, a serem arrancadas dos seus pais e enviadas para centros de detenção separados, muitas vezes trancadas em jaulas com estranhos, sem real noção de quando serão reunidas às suas famílias. É abominável.

Frequentemente, no entanto, vejo dois tipos preocupantes de resposta à crise, que mostram como milhões de americanos se encontram atualmente alienados e adormecidos.

O primeiro é uma declaração mais ou menos assim: essa não é a América que conheço e amo. O segundo é uma pergunta fundada na mesma ignorância, nos seguintes moldes: como isso pode estar a acontecer nos Estados Unidos?

O que está acontecer agora no país é, sem dúvida, uma catástrofe de direitos humanos. Os mecanismos profundamente entranhados nessas políticas e o espírito que move essa catástrofe, porém, são tão americanos quanto o Facebook e a Disneylândia.

O que está acontecer agora no país é, sem dúvida, uma catástrofe de direitos humanos. Os mecanismos profundamente entranhados nessas políticas e o espírito que move essa catástrofe, porém, são tão americanos quanto o Facebook e a Disneylândia.

Vamos por partes. Há pelo menos cinco fatores inquietantes em jogo. Todos os cinco estavam integralmente presentes antes do início da crise atual. Eles deram o tom e formaram a cultura onde algo tão hediondo poderia acontecer.

Primeiro, isso já aconteceu aqui antes. A bem da verdade, isso já aconteceu milhões de vezes ao longo dos anos neste país. Os africanos forçados à escravidão nos Estados Unidos eram frequentemente separados dos seus filhos, não apenas durante o transporte até as Américas, mas muitas outras vezes, nas plataformas de leilão. Não foram milhares, e sim milhões de mães e pais, maridos e mulheres, pais e filhos, irmãos e irmãs separados uns dos outros à força. E tampouco se tratou de um período curto da história americana, mas de uma característica institucional da escravidão que perdurou nos EUA por quase 250 anos.

Não apenas as crianças africanas escravizadas eram rotineiramente separadas das suas famílias, mas também os povos indígenas. Do final do século XIX até os anos 1970, crianças indígenas eram regularmente retiradas das suas casas à força e enviadas a desumanas “escolas de índios”, onde os seus cabelos eram cortados e onde eram despidos dos seus nomes e culturas. Muitas delas nunca voltaram a encontrar suas famílias.

O que talvez seja mais chocante, no entanto, é o modo como os EUA – hoje, neste momento – separam tantas famílias cujas histórias não são consideradas dignas de nota. Falo da crise do encarceramento em massa, da qual a investida sobre os imigrantes é apenas mais uma peça terrível.

Agora mesmo, enquanto lê, centenas de milhares de adultos e crianças, desproporcionalmente negros e latinos, estão em prisões de todo o país – não porque tenham sido condenados por algum crime, mas porque não podem pagar a fiança. Muitos deles irão definhar na prisão sem jamais serem condenados por um crime, não por dias ou semanas, mas por meses e anos. Na verdade, cerca de 65% das pessoas nas prisões municipais dos EUA não foram condenadas por nenhum crime. Estão na prisão simplesmente por não conseguirem pagar a fiança. Elas também estão separadas das suas famílias.

É difícil encontrar um período razoavelmente extenso da história americana em que pais e filhos não brancos não tenham sido separados uns dos outros à força pela estrutura branca de poder do país. É normal, de uma forma lamentável e dolorosa. E é por ser tão normal que é fácil acontecer várias outras vezes. Esse país é especialista em separar pais e filhos, e fingir que não é esse o caso é um tipo de revisionismo histórico.

Não é de espantar, portanto, que tantas pessoas de direita – aquelas que se arrepiam diante da ideia de admitir essa história, ou pior, se desculpar por ela – estejam a encampar uma política de separação familiar forçada.

Na noite de segunda-feira (18), Laura Ingraham, da rede de notícias Fox News, disse, com um sorriso nos lábios, que as crianças imigrantes presas em centros de detenção estavam “praticamente numa colónia de férias”. Disse isso quando médicos e associações médicas relevantes em todo o país já declararam que separar crianças dos seus pais à força nos centros de detenção lhes causa “danos irreparáveis”. E disse isso também a despeito do áudio dilacerante obtido pela organização jornalística sem fins lucrativos ProPublica, em que se ouvem crianças detidas a chorar aos berros, a chamar pelo seus pais e a serem ridicularizadas pelos guardas.

Quase 60% dos republicanos aprovam a prática de separar crianças imigrantes dos seus pais na fronteira, e não é difícil entender os motivos.

Já há alguns anos Donald Trump tem vindo a aproveitar todas as oportunidades de desumanizar os latinos que atravessam a fronteira, chamando-os frequentemente de animais, assassinos e estupradores. Ele reduziu nações não brancas inteiras a “países de merda”. Na segunda-feira (18), reiterou esse entendimento, ao dizer que os imigrantes eram provenientes dos “lugares mais perigosos do mundo”.

Essa etapa essencial, de reduzir imigrantes a um status sub-humano, não pode ser ignorada. Ela aconteceu durante o comércio transatlântico de escravos. Aconteceu durante o genocídio dos nativos americanos. Aconteceu durante o Holocausto. Aconteceu durante o genocídio de Ruanda. Acontece hoje com as vítimas de violência policial.

Sempre que um grupo de pessoas sofre opressão e horrores inomináveis, os grupos no poder primeiramente reduzem-nas e desumanizam-nas, por forma a aliviar a consciência dos poderosos enquanto dure a opressão. É assim que Ingraham conseguiu comparar os centros de detenção a “colónias de férias”. Ela convenceu-se de que os Estados Unidos estão a fazer um favor a essas crianças “sub-humanas”.

No cerne da atual crise de direitos humanos nas fronteiras americanas estão a supremacia branca e o preconceito. Trump não tem um problema com imigrantes. A sua mãe era uma imigrante escocesa. Todos os seus avós foram imigrantes. A sua primeira esposa, Ivana, veio como imigrante de onde hoje é a República Tcheca; os filhos de Trump com ela – Donald Jr., Ivanka e Eric – têm uma mãe imigrante. A terceira esposa de Trump, Melania, é uma imigrante da Eslovénia. Ela adquiriu a cidadania em 2006. O filho dos dois, Barron, tem uma mãe imigrante. Assim, Trump não odeia imigrantes. Mas ele aparentemente odeia imigrantes não brancos, e essa distinção é essencial.

Os pais de Melania Trump são beneficiários do que Trump e a direita chamam de “migração em cadeia”. Eles estão legalmente nos Estados Unidos em razão do parentesco com ela. Trump e os conservadores insurgem-se contra essa política, mas os seus pais, avós e parentes por afinidade beneficiaram-se dela. Se a direita odiasse os imigrantes, Trump provavelmente seria uma das figuras públicas mais detestadas do país por esse motivo. No entanto, muitas das pessoas de direita – como todos nos EUA, menos os nativos americanos – são elas mesmas descendentes de imigrantes. O problema delas não é com os imigrantes; é com os imigrantes não brancos, venham eles do México, das Américas ou de qualquer um dos países muçulmanos que Trump incluiu na lista de proibições.

Supremacia branca e preconceito comandam muitas políticas americanas. Stephen Miller, importante consultor político de Trump, tem vindo a mostrar tendências preconceituosas desde o tempo de escola. E agora diz-se que ele foi o principal autor, tanto da proibição de muçulmanos, quanto da nova política de separar dos seus pais as crianças imigrantes. Vivemos numa época em que os crimes de ódio estão em ascensão nos Estados Unidos. Supremacistas brancos estão a concorrer a cargos eletivos em número recorde.

Há dois outros fatores essenciais em jogo com relação ao que estamos a assistir agora na fronteira. Precisamos falar sobre essas coisas para realmente entender o que está a acontecer, para ver como chegámos a esse ponto.

A primeira é o facto de que os Estados Unidos são o país do encarceramento. Nenhum país do mundo encarcera mais pessoas. Há regularmente cerca de 2,3 milhões de pessoas em prisões e presídios nos EUA, em qualquer momento, e pelo menos 10,6 milhões são colocadas nessas instituições todo ano. Os Estados Unidos criminalizaram a pobreza, empurrando as pessoas para a prisão caso não tenham condições de pagar as tarifas básicas, sejam multas de trânsito ou administrativas, ou fianças. Os Estados Unidos criminalizaram o vício em drogas, mandando milhões de pessoas para prisões e presídios há décadas, por simples porte de drogas. Esse país criminalizou a doença mental. Dois milhões de pessoas com doenças mentais são presas a cada ano.

Era só uma questão de tempo até serem criminalizadas e enjauladas as pessoas que pedem asilo nas fronteiras dos EUA. É o que esse país faz. Em vez de resolver os nossos problemas mais difíceis, aumentamos as forças policiais, construímos mais prisões e presídios, inclusive provisórios, se necessário, e prendemos pessoas – especialmente pessoas não brancas.

Por fim – e isso é fundamental – o que vemos acontecer agora nas fronteiras tem tudo a ver com a privatização e a lucratividade das prisões e dos presídios dos EUA. É uma indústria enorme e bilionária. Esse país negocia ações de empresas cujo negócio é lucrar em cima do encarceramento em massa – há uma margem de lucro sobre a construção e a administração de abrigos emergenciais e instalações provisórias como as que estão a ser montadas atualmente para prender crianças e famílias imigrantes. Não apenas esses lugares precisam de pessoal e de segurança, mas também a alimentação, a limpeza e os mantimentos têm custos exorbitantes.

Os mesmos conservadores que fazem campanhas pelo corte de custos e pela redução dos défices não veem problema em gastar vários milhares de milhões de dólares no encarceramento em massa. Executivos da indústria das prisões privadas estão a ver seus lucros explodirem no governo de Trump, e ele tem sido fartamente recompensado com doações de seis dígitos. Nesse país, quando se vê o mal, quase sempre é possível seguir o rastro do dinheiro.

O que está a acontecer agora é horrendo, ponto final. Sem meias palavras. Só não é algo que surgiu do nada. Veio diretamente do manual de estratégias dos Estados Unidos. Essa nação tem vindo a praticar maus-tratos e abusos rotineiros contra pessoas não brancas há centenas de anos – e já separou intencionalmente, sobre este solo, milhões de famílias, muitas delas de forma permanente, por desporto ou por lucro. Levante a sua voz contra isso. Mobilize-se contra isso. Saiba, porém, que o que está a ver tem raízes profundas.

Artigo publicado no The Intercept.

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