“Se o mundo mudou, o Governo ficou no mesmo sítio”

08 de abril 2022 - 17:23
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Catarina Martins no encerramento do debate do programa do Governo.

O debate do programa de Governo terminou esta sexta-feira e a coordenadora do Bloco destacou o silêncio do documento aprovado em relação ao problema da inflação. Mesmo a intervenção na véspera do primeiro-ministro, que prometeu medidas para conter o aumento dos preços, só deixou duas certezas a Catarina Martins. “A primeira: ainda agora começou o aumento dos preços e o Governo já desistiu de aumentar os salários. A segunda: a solução do Governo para combater a inflação é, convicto de que será passageira, esperar que passe”.

“Com a recusa de atualização de salários pela inflação, o que o Governo veio anunciar a este debate é o corte real de salários, mais ou menos transitório, por um período mais ou menos imprevisível, mas corte de salários”, sublinhou.

Imposto sobre lucros excessivos "teve vida curta e não durou um dia"

Lembrando que o preço do cabaz dos produtos essenciais já aumentou 5% e ao mesmo tempo empresas dos setores da eergia e grande distribuição,  como a EDP, GALP, Pingo Doce e Continente distribuíram aos seus acionistas mais de 2 mil milhões de euros em dividendos, Catarina deixou uma pergunta. “O que é mais justo: uma família pagar mais no supermercado para proteger os lucros da grande distribuição ou uma cadeia de hipermercados lucrar menos para proteger os rendimentos das famílias?”. Para a coordenadora do Bloco, a ausência de medidas para o aumento dos salários “deixa intactas as margens de lucro das grandes empresas e passa a fatura da inflação para as famílias”.

Catarina destacou também a novidade do debate, trazida pelo ministro Costa e Silva, ao admitir estudar a criação de um imposto sobre lucros excessivos de algumas empresas durante a crise. “Mas essa taxa teve uma vida curta; não durou um dia. O ministro da Economia falou dela ao início da manhã, o ministro do Ambiente garantiu que tal não existiria ainda antes da manhã terminar”, apontou a coordenadora do Bloco.

Na sua intervenção, Catarina Martins referiu-se ainda ao papel da direita neste debate, em que “não ouvimos uma palavra da direita sobre quem está a jogar - e a ganhar - com a inflação”, e recordou os tempos em que Durão Barroso dizia que os preços dos combustíveis iam baixar com a liberalização do mercado. “A direita bem pode querer esconder o seu passado, mas o país sabe que terá havido poucas “reduções de preço” que tenham saído tão caras à carteira dos consumidores”, concluiu.

No que respeita aos planos do Governo para o setor da Saúde, Catarina criticou o abandono do objetivo de médico de família para toda a população e a resignação do executivo à falta de professores na escola pública, uma “boa notícia para os privados, péssima notícia para quem não os pode pagar e péssimo para a democracia”. E concluiu que o Bloco parte para esta legislatura para fazer oposição a este programa e continuar a defender um país “com justiça na economia e respeito por quem trabalha”.