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"Se há voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta, é no Bloco"

Em entrevista à Agência Lusa, Catarina Martins considerou que últimos quatro anos mudaram o centro do debate da política portuguesa. Hoje, afirmou, o equilíbrio de forças decisivo joga-se à esquerda e o voto útil para evitar uma maioria absoluta do PS é no Bloco.
Catarina Martins em entrevista à Agência Lusa, setembro de 2019. Foto: Paula Nunes.
Catarina Martins em entrevista à Agência Lusa, setembro de 2019. Foto: Paula Nunes.

Em entrevista à agência Lusa publicada este domingo na íntegra, Catarina Martins afirmou que o voto útil daqueles que não querem uma maioria absoluta do PS é no Bloco de Esquerda, cujo crescimento "pode ser o fator decisivo" para a impedir. A coordenadora do Bloco abordou também que está em jogo nas próximas eleições, o programa "ambíguo" do PS, as cedências do governo perante uma Europa cada vez mais manietada pela extrema-direita, as contradições da direita portuguesa, e as forças e fraquezas dos outros partidos no mapa parlamentar nacional.

"Se há um voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta nestas eleições é no Bloco de Esquerda", afirmou a coordenadora do Bloco à Lusa, lembrando que as experiências passadas mostram como "uma maioria absoluta é perigosa". As eleições de 2015 marcaram uma viragem de paradigma na política portuguesa no seu entender, ao desfazerem a ideia de que só se podia escolher governos entre PS e PSD, e mostrarem que "as maiorias que são formadas no parlamento determinam que programas vão para a frente".

Por estas razões, o voto útil hoje "não tem a ver com a escolha de um primeiro-ministro, tem sobretudo a ver com o equilíbrio de forças, com o equilíbrio que queremos para puxar pelo país", afirmou Catarina Martins. Nesse equilíbrio, o voto no Bloco representa "dar força a quem deseja que Portugal continue a avançar nas conquistas dos direitos do trabalho, de valorização de salários e de pensões, na defesa do Estado social, na defesa de investimento público".

Questionada sobre o programa do PS, Catarina Martins apontou-lhe ambiguidades e números mal explicados. Nos salários da função pública, o PS promete seguir a inflação mas apresenta "uma conta que não chega": 95 milhões de euros, quando "atualizar os salários da função pública ao nível da inflação custa 345 milhões de euros". "Nós percebemos que, em vez de atualização, estamos a falar, seguramente, de cortes", vaticinou. E adiantou mesmo que "estamos a ver quais são os cortes, mas era bom que o PS falasse ao país sobre isso". O PS diz querer rever as carreiras especiais, o que no seu entender "significa que muito provavelmente para enfermeiros, médicos, professores, polícias, oficiais de justiça, estão preparadas más notícias".

Catarina Martins criticou também as declarações de António Costa sobre os cortes nos vencimentos de políticos, considerando "chocante" que o primeiro-ministro os tenha considerado o "último dos cortes" que é preciso acabar. "Isso não é verdade, as horas extraordinárias passaram a ser pagas pela metade, quando deviam ser pagas pelo dobro", contrapôs. Tão pouco foram repostas as compensações por despedimento ou os 25 dias de férias: "As pessoas continuam a ter só 22 dias de férias e não ganharam mais por trabalhar mais três dias por ano". Em suma, "quem trabalha em Portugal sabe que hoje está a ganhar menos do que ganhava antes da troika", pelo que "alguém dizer que o corte sobre os salários dos cargos políticos é o último dos cortes parece-me um enorme desfasamento com a realidade, que tende a insultar quem trabalha e sabe que ainda não recuperou o seu salário".

Sobre política europeia, Catarina Martins acusou o PS e os partidos de centro europeus de falhar em toda a linha perante a extrema-direita europeia. "Prometeram construir uma aliança que não permitisse à extrema-direita conduzir os destinos da Europa e, de facto, falharam em toda a linha e acabaram por ceder", sentenciou.

Que a pasta europeia atribuída a Elisa Ferreira se chame "coesão e reformas" tem um significado no seu entender: "o que nos estão a dizer é que querem fazer depender os fundos de coesão, o investimento público do que precisamos, de aceitarmos imposições sobre o que fazer com as nossas pensões, os nossos salários, os nossos serviços públicos — e isso é muito grave". Noutro exemplo, que a pasta das migrações tenha sido batizada como "modo de vida europeu" constitui para Catarina "uma cedência a uma semântica da extrema-direita" e a uma "retórica xenófoba que é muito prejudicial" e nada tem a ver um espaço europeu, "que deve ser um espaço de respeito pelos direitos humanos".

Em suma, para a coordenadora do Bloco, Portugal cedeu a uma Comissão Europeia que "assume um discurso muito próximo da xenofobia da extrema direita, por um lado, e por outro lado assume uma visão neoliberal para a economia. Isso é muito grave do nosso ponto de vista",

Centro do debate político mudou, direita "desorientada"

Voltando à política nacional, Catarina Martins afirmou que os últimos 4 anos foram de "debate muito intenso, mesmo dentro do BE". Numa retrospetiva, considerou que o Bloco conseguiu conciliar "uma enorme prática do respeito pela diversidade de opiniões, tanto internamente como externamente" com "grande coesão".

Um exemplo de como estes quatro anos "mudaram o centro do debate político" é a direita portuguesa, que na avaliação de Catarina Martins ficou desorientada e sem discurso. A única receita da direita para as contas públicas era fazer cortes, e caiu no descrédito quando se demonstrou que se obtém melhores resultados recuperando os salários e as pensões, comentou. Há quatro anos, a direita dizia "claramente que queria baixar os custos de trabalho. Hoje já não tem coragem de o dizer, mas também não põe nada nos programas que resolva o problema dos baixos salários". "Lendo os programas do PSD e do CDS é até confrangedor", apontou a Catarina Martins, por um lado pelas "contradições", por outro lado pela "falta de capacidade de dizer como é que vão executar aquilo a que se propõem, porque não têm coragem de propor voltar atrás".

Em relação ao PCP, questionada pela Lusa sobre se os dois partidos de esquerda não perderam força negocial perante o PS por nunca terem reunido e trabalhado conjuntamente, Catarina Martins concordou que um trabalho conjunto teria sido importante, pois teria sinalizado "um equilíbrio à esquerda mais forte" e "uma posição maior de força". Porém, concluiu, "não foi esse o entendimento do PCP. Nós respeitamos”.

Sobre o crescimento do PAN, a coordenadora bloquista não crê que este aconteça à custa do Bloco de Esquerda, e considerou positivo o maior foco que há hoje nas questões ambientais, que o PAN estimulou. Mas apontou uma divergência importante em relação à forma como os dois partidos concebem uma estratégia para proteger o ambiente: "O PAN acha que se fará a coisa pelos comportamentos individuais, nós achamos que é preciso uma mudança mais vasta”. Na sua avaliação, é "preocupante" a ideia do PAN de que não é preciso mexer na economia: "a ideia de que tem tudo a ver com comportamentos individuais", de que é possível resolver a emergência climática "se tivermos políticas que se impõem às pessoas, seja por proibições sobre os comportamentos individuais, seja pela sensibilização das empresas por via fiscal", é uma ideia falsa e contraproducente, considerou.

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