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Sara Barros Leitão: "Queremos o futuro, e temos pressa"

Leia aqui na íntegra e veja o vídeo do discurso da atriz e encenadora Sara Barros Leitão no comício de Marisa Matias este domingo no Porto.
Sara Barros Leitão
Sara Barros Leitão. Foto Ana Mendes.

O meu nome é Sara Barros Leitão e tenho trinta anos.

Isso significa que voto há doze anos, significa que já votei duas vezes em eleições presidenciais, quatro vezes em eleições legislativas, três em eleições autárquicas, três em eleições europeias. Doze anos é pouco menos que metade da minha vida. Em doze anos, votei treze vezes. Por isso, não tentem convencer-me que votar não serve para nada.

Uma das coisas que planeei fazer no dia em que comemorei 18 anos foi recensear-me. (Tenho trinta anos, mas ainda sou do tempo em que nos precisávamos de recensear.) Infelizmente, foram poucas as vezes em que acompanhei os meus pais às urnas. Às mesas das várias casas em que cresci não se falava de política, os votos eram secretos, tão secretos que durante muitos anos eu nem era capaz de dizer o nome de nenhum partido com assento parlamentar.

Sei bem o que é sentir que a política é coisa para os outros, sentir que não percebemos nada do que é discutido, sentir que nada daquilo é feito e dito para nós, sentir que não fazemos nenhuma diferença nas grandes decisões, que nem sabemos bem quais são. 

 

Comecei a trabalhar com 16 anos. Isso significa que pago impostos e Segurança Social antes até de ter podido votar. Durante esses primeiros dois anos de trabalho até atingir a maioridade, em que morava sozinha numa cidade que não era a minha e que estava a descobrir, cruzei-me com a política todos os dias, apesar de não saber, porque não a conhecia. A política tinha sido, até aí, um assunto tabu, uma coisa de outras pessoas, uma atividade que acontecia longe da minha casa, e sobre a qual não havia grandes perguntas a fazer.

Mas, ao morar sozinha, comecei a ter de gerir o meu dinheiro e ter de fazer escolhas na minha vida. Passei a ter de pagar a conta da eletricidade e ter de controlar as horas em que ligava o aquecedor no inverno. Passei a depender de uma rede de transportes públicos para poder ir trabalhar ou ir a casa aos fins de semana. Comecei a juntar dinheiro para me candidatar à faculdade pública, condições financeiras que só reuni com 24 anos. 

Ao longo daqueles anos, conheci pessoas que trabalhavam mais de doze horas por dia, seis dias por semana. Pessoas que nunca assinaram um contrato de trabalho na vida, embora trabalhassem para a mesma empresa há 16 anos. Apanhava o autocarro todos os dias, pelas sete da manhã, onde me cruzava com milhares de outros trabalhadores, que já iam no segundo ou terceiro transporte desse dia, tendo pela frente mais dois ou três trabalhos.

E, a cada dia, ia cruzando-me com a política, com o resultado de decisões políticas, com o resultado do investimento ou desinvestimento nos serviços que me rodeavam, e fui percebendo que, afinal, a política era o que dizia respeito às actividades humanas. A política era também a forma como olhamos para o outro. A política era sobre cuidar do que nos rodeia. A política eram as decisões que iriam influenciar-nos quando fôssemos a um hospital, quando apanhássemos um autocarro, quando quisemos arrendar um quarto, quando fôssemos levantar a reforma aos correios, caso aquele posto ainda existisse. A política era sobre representação. Sobre quem eu escolhia para representar as minhas ideias. E, o perigo de não participar nela, o perigo de não querer saber, o perigo de não me implicar, era deixar que os outros escolhessem por mim.

Em janeiro de 2016, faltavam poucos meses para o meu irmão fazer 18 anos, e poucas semanas para as Presidenciais. Seriam as últimas eleições em que ele não poderia exercer o seu direito de voto.  A partir dali o meu irmão, iria tornar-se um cidadão adulto, responsável pelas suas decisões, responsável pelos seus actos, responsável pelas suas escolhas.

Conversámos sobre isso. Falei-lhe de como era importante entender de que problemas era feito o mundo. Acordámos que íamos ler os programas dos vários candidatos e discutir os seus posicionamentos sobre alguns temas. Em troca, eu iria oferecer ao meu irmão a prenda de aniversário mais generosa que lhe podia dar: ele iria escolher o seu candidato em consciência e com responsabilidade, e eu ia oferecer-lhe o meu voto, comprometendo-me a votar em quem ele escolhesse. E assim fiz.

Ao longo de vários dias discutimos o que era, de facto, um cargo de Presidente da República: quais as responsabilidades, em que medida podia atuar, como podia fazer a diferença. Não só falámos do poder de vetar ou promulgar leis que nos irão influenciar a todos, falámos de como um presidente tem o poder de dar visibilidade a lugares, a assuntos, a pessoas. Lembro-me de o meu irmão me dizer que era preciso um presidente que conhecesse o mundo, para levar e trazer esse mundo. Foi com muita surpresa e emoção que, nesse dia, em 2016, o meu irmão me pediu para votar Marisa, porque era a única candidata capaz de nos trazer e dar o mundo todo ao mesmo tempo. Depois, perguntou-me, em quem iria eu votar, caso não lhe tivesse dado o meu voto. Respondi: votaria Marisa, também, sem hesitar.

Este ano, o meu irmão inscreveu-se para o voto antecipado, e ligou-me hoje às 8h30 da manhã. Os votos continuam a ser meio secretos entre nós, mas ele disse-me: “Relaxa, não voto em quem, um dia, me poderá querer tirar o voto”.

Não gosto da palavra “geração”, porque acho que todas as generalizações são perigosas. Mas, de facto, até ao momento não encontrei palavra melhor para me referir às pessoas da minha faixa etária, e a todas as que nasceram depois de mim e que estão, neste momento, a exercer pela primeira vez o seu direito de voto.

Comecei a trabalhar em plena crise económica. Nunca conheci outra realidade que não esta. Passaram 14 anos, e vamos entrar na segunda crise das nossas vidas. Somos a geração que vai viver pior do que os seus pais.

Dizem-nos que não temos nada por que lutar, que nascemos com tudo garantido. Permitam-me discordar. Fazemos parte de uma geração que nada tem por garantido. Para a nossa geração acabou o emprego para a toda a vida. Vivemos com ameaças diárias ao acesso ao ensino universal e gratuito e ao Serviço Nacional de Saúde. Seremos nós a pagar todos os bancos que deixaram falir. Enfrentamos a ameaça da desinformação e das fake news, com a qual ainda ninguém sabe como lidar. Temos, nas nossas mãos a difícil tarefa de reverter a inevitável crise climática, e seremos nós a viver com suas consequências.

Nasci em 1990, o muro já tinha caído. Nasci já a ter de competir com metas europeias, e mais o empreendedorismo. Quando nasci, já estava atrasada para o mercado de trabalho. Nasci atrasada e cheia de pressa. A minha geração é cheia de pessoas diferentes, mas que já admite voltar para trás.

Gente, daqui não regredimos.  Não admitimos nem um passo atrás no que foi já conquistado. E queremos mais. Queremos o futuro. Queremos os nossos assuntos na agenda do dia. E temos pressa. Eu tenho pressa. Já nasci atrasada e não posso esperar mais. Tenho pressa em ter uma presidente mulher. Sim, isso é importante para mim. Tenho pressa em ter uma Presidente que lute por um mundo mais tolerante. Tenho pressa em ter uma Presidente que esteja na luta pelo fim da violência contra as mulheres. Tenho pressa em ter uma Presidente que enfrente o machismo, a misoginia, o assédio, como uma luta por todas as mulheres. Tenho pressa por ter uma Presidente que defenda o direito à autodeterminação. Tenho pressa em ter uma Presidente que lute convictamente pelos direitos das pessoas LGBT+. Tenho pressa por uma Presidente que conheça e defenda as pessoas refugiadas. Tenho pressa pelo caminho de um ensino gratuito e universal que chegue a todos. Tenho pressa que todas as pessoas tenham acesso a cuidados de saúde. Tenho pressa que os trabalhadores tenham melhores condições de trabalho. Tenho pressa na luta da crise climática. Tenho tanta, tanta pressa! Tenho pressa de ter finalmente uma Presidente que sabe que há silêncios opressores. Tenho pressa por uma Presidente assumidamente anti-racista, que traga este debate para a ordem do dia. Tenho pressa em ter uma Presidente que conhece a Constituição Portuguesa, e que a defenda. Tenho pressa em que a cultura chegue a todos os cidadãos, independentemente do lugar onde vivam. Tenho pressa em ter uma Presidente que defenda, finalmente, um estado laico.

Eu voto no dia 24.

Voto sempre por respeito a todas as pessoas que sofreram e que morreram para que eu pudesse exercer o meu direito. Voto a pensar nas pessoas que fizeram greves de fome, para que eu pudesse estar ali. Voto a pensar nas pessoas a quem cortaram as mãos, para que eu pudesse estar ali. Voto a pensar nas pessoas que viveram na clandestinidade, para que eu pudesse estar ali.

E quando votar, no dia 24, vou votar no futuro. Vou votar no mundo todo ao mesmo tempo, porque não há tempo para mais desigualdades. Voto na candidata que, em convicção, mais me representa, porque não posso esperar mais.

Voto Marisa Matias.

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