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Sala de Leitura Feminina: um espaço segregado na biblioteca (Porto, 1945-53)

A 24 de novembro de 1945, foi inaugurada a Sala de Leitura Feminina na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Que se leria em tal sala? Quem iria lá ler? Por Paula Sequeiros para esquerda.net.
Sala de Leitura Feminina, s/ data, estúdio Alvão, ref. ALV004609, CPF/DGARQ/MC

Homens na rua, mulheres em casa?

Contou-nos um bibliotecário que tinha havido, ali na Pública do Porto, uma sala reservada a mulheres1.

Que se leria em tal sala? Quem iria lá ler? Teria sido criada para não serem incomodadas, não distraírem os homens das suas leituras sérias, ou para elevarem com a sua presença o ambiente moral desses locais, como se advogou em alguns dos países mais desenvolvidos do Ocidente em época umpouco anterior? O salazarismo deixou rastos de aproveitamento ideológico análogo, mas peculiar2.

No caminho dessa investigação cruzámo-nos com as figuras de Virgínia de Castro e Almeida (1874-1945), escritora e produtora cinematográfica cujo nome foi dado à sala. E também de Tília Dulce Machado Martins (c. 1890-1937), mulher que apurámos ser de famílias de dirigentes republicanos, ter fortuna própria, e ter doado, anos antes, boa parte dos livros com que a sala veio a abrir. Cruzámos biografias de ambas com literatura, fotografia e entrevistas realizadas com algumas mulheres, jovens no momento da inauguração, e com familiares de Tília Dulce. Quisemos reconstruir um contexto que permitisse recriar com esses dados uma realidade tal como ela "poderia ter sido". Confirmámos que mulheres das classes trabalhadoras estavam presentes no espaço público nessa época, embora fossem invisíveis para um olhar patriarcal. O olho da câmara fotográfica registou-as. E feministas da época tinham enfatizado já esse processo de invisibilização, contrariando a tese da ausência das mulheres em espaço público. Percebemos, de caminho, como mulheres de outras classes poderiam ter, surpreendentemente (?), um uso em vários aspetos mais condicionado desse espaço, sem obrigações laborais que ditassem o uso da rua, com a moralidade pequeno-burguesa a permear códigos de conduta dominantes. Consultámos ficheiros e registos da sala para saber que livros tinha, que visitas recebia. Bibliotecárias contaram-nos as histórias que conheciam da sua instituição.

Mulheres portuguesas houve que marcaram a História com o seu feminismo, marcas que procurámos também para entender este contexto. A sua atitude e espírito emancipatórios foram, por seu lado, replicados e encarnados nas pequenas lutas que fizeram o quotidiano de muitas antecessoras nossas recentes. Quando, por exemplo, ir à biblioteca constituía um desafio.

Notas introdutórias

Contaremos de seguida a história de uma jovem mulher de classe média que visita a Sala pela primeira vez. Este relato só parcialmente é ficcionado, incorporando pedaços da realidade vivida por várias mulheres, colhidos de narrativas literárias ou das conversas e entrevistas que mantivemos, para criar o discurso desta personagem. A par e passo adicionaremos algumas referências, como cenário para esta história, organizadas em tirados à parte ou em notas.

Na primavera anterior à inauguração o exército alemão rendera-se. A Segunda Guerra terminava nesse ano de 45, a 2 de setembro, deixando Portugal economicamente esgotado. Em agosto, uma conspiração militar contra Salazar saía derrotada. Manifestações e protestos, logo após a vitória dos aliados, levam ao anúncio de eleições livres em outubro, Salazar tenta legitimar-se perante as potências vitoriosas. A farsa eleitoral fica clara, o único partido de oposição desiste do processo. Ainda havia esperança de que o ditador caísse como tinham caído as ditaduras da Alemanha ou Itália.

Após as eleições, a repressão aumenta: e um bibliotecário do Porto é de novo suspenso das suas funções sob a acusação de atividades políticas contra o governo, juntamente com vários outros funcionários públicos de todo o país, vindo a ser preso em 48, como tinha sido já em 39.

Durante o tempo de guerra houve racionamentos, filas para o pão ou para o leite tornaram-se rotina. Rendas muito altas levaram trabalhadores industriais e famílias pobres a construir barracas. A maioria das casas não tinha abastecimento de água nem esgotos. Um crescente número de mendigos e de prostitutas na cidade mantinha a polícia ocupada. Aumentaram os roubos de alimentos e fizeram-se assaltos a depósitos de pão. Em 44, tiveram lugar as "marchas da fome" na cidade e vizinhanças. As epidemias eram frequentes e dizimavam a eito entre os mais pobres3. A tuberculose espalhara-se pelo país; atinge vários trabalhadores da biblioteca, dando lugar a inspeções sanitárias frequentes.

Desemprego, cortes salariais por redução do tempo de trabalho eram frequentes. Em 50, cerca de 23% da população assalariada são mulheres, raras são as domésticas entre o povo. E Salazar ao determinar que os homens tinham preferência, se desempregados, fizera diminuir a força de trabalho feminina desde a sua chegada ao poder. À época, as mulheres podem esperar ganhar, para o mesmo trabalho, dois terços do salário masculino4.

Na Sala - Figuras angelicais são bem-vindas

O presidente da câmara, diversos vereadores, o diretor da biblioteca, alguns representantes da intelectualidade e algumas mulheres reúnem-se para inaugurar a Sala de Leitura Feminina na Biblioteca Pública Municipal do Porto, a 24 de novembro de 1945.

Estudo da UNESCO, poderá dar uma ideia aproximada: em 1940 o analfabetismo geral em Portugal era de mais de 50%, mas para as mulheres aproximava-se dos 595.

O diretor elogia o papel das Artes em“dignificar e elevar a vida espiritual”. Dirigindo-se ao presidente da câmara, proclama que, se algumas "límpidas, figuras angelicais", forem vistas a ler ali no futuro, o presidente da câmara pode ter a certeza de ter realizado a melhor compensação para a sua vida administrativa.

D. Virgínia de Castro e Almeida é o nome inscrito em placa à entrada da sala. Tendo falecido em Lisboa dois dias antes, é então evocada como romancista de renome e escritora para crianças, não uma mulher revolucionária (!), mas "inclinando-se para uma beleza calma", não uma defensora do feminismo atual (!), mas um tipo de mulher que é a da "voz de uma mulher educada, equilibrada, pura, que aspira a estar junto ao seu companheiro, para compartilhar sua tristeza, os seus trabalhos, as suas alegrias”.

Virgínia de Castro e Almeida, Illustração Portugueza, nº. 11, nov. 1911

Porquê esta intrigante advertência? As próprias palavras de Virgínia esclarecem: fora feminista, lamentando ter começado por confundir o feminismo com uma “utopia grotesca e vaga, talvez perigosa”. Mas, então aprendeu com “uma grande mestre a Vida, dura e prodigiosa [...] cujos ensinamentos nunca falham”, reconhecendo que o feminismo é “uma grande e generosa ideia de redenção, que avança gravemente com a serenidade majestosa de todas as forças invencíveis destinadas a mudar a face do mundo”

Daí o seu apelo apaixonado publicado em 1913:

“Mulheres da minha terra!... Gatas Borralheiras com o cérebro vazio, que esperam, sentadas na lareira e com estremecimentos mórbidos, a hipotética aparição do príncipe encantado, criadas graves, que passam a vida com as chaves da dispensa e a agulha na mão, sem terem a menor noção de economia domestica nem de higiene, confundindo a honestidade com o desleixo da beleza; animais de carga ou de reprodução, rodeadas de filhos que não sabem criar nem educar; bonecas de luxo, vestidas como as senhoras de Paris e com a inteligência toda absorvida na decifração das modas, incapazes de outro interesse ou de outra compreensão; [...] instrumentos passivos nas mãos habilidosas do jesuitismo que as modela como cera; servidoras ferventes do snobismo e da bisbilhotice; imitadoras superficiais de modelos que mal conhecem...
Pobres mulheres da minha terra!”6

Para além de pioneira na produção de cinema, fez parte da direção da Universidade Popular, dirigida por Bento de Jesus Caraça. Nos anos seguintes, contudo, aproxima-se da ideologia do regime fascista, produzindo livros infantis dedicados à glorificação dos mitos nacionalistas. Com um percurso intelectual marcado poroscilações várias, esta aproximação foi certamente a razão para o apreço público das autoridades e para a negação da sua inclinação progressista que o discurso oficial faz.

Adozinda estava curiosa e animada: tinha hoje uma oportunidade para sair de casa e encontrar algumas amizades, talvez, ou fazer outras. E, acima de tudo, esperava poder encontrar um bom livro e ler num ambiente acolhedor. Mora ali perto da biblioteca e Berta, colega de escola, falou-lhe dessa nova Sala, só para mulheres, que abriu há dias. A mãe da Berta fora convidada para a cerimónia de inauguração, como escritora conhecida na cidade.

A Faculdade de Farmácia ocupava agora a maior parte do seu tempo. Adozinda tinha pensado em Medicina mas o Papá dissuadira-a: Farmácia não era tão difícil e “era um curso muito bonito para uma menina”, aliás “andavam lá quase só meninas”7.

Quando sai, fá-lo na companhia de familiares ou de amigas. Acompanha muitas vezes a Mamã e as amigas em que se encontram para tomar chá na baixa, naquela confeitaria de ambiente selecionado. De quinze em quinze vai com a Berta ao cinema, as matinés às quintas são apropriadas para meninas, mesmo se o mano dela não as puder acompanhar. Já a Berta é capaz de ir ao café sozinha, diz-se rapariga de ideias avançadas. Quando se aborrece, Adozinda vai ver montras, sempre calha encontrar alguma novidade nas retrosarias ou alguma ideia numa revista elegante. A pensar na Mamã, que passa muito tempo a tricotar ou a bordar para o seu enxoval, nas tardes em que não está ocupada pelos deveres da caridade, visitando os seus pobres e doentes.

Adozinda tem é de evitar certas ruas do Porto, certos passeios de cafés ou tascos, conhecidos pelos homens que se juntam a mirar e a atirar piropos às raparigas que passam. Nos seus vinte anos, sabe que deve baixar os olhos ao cruzar-se com homens. Não é nenhuma coquette nem quer passar pelo embaraço deser tomada por “aquele” tipo de rapariga. E raparigas e mulheres “desse” tipo há por ali várias, nos passeios ou encostadas à porta de pensões na rua ao lado.

São Lázaro, 1950, arquivo fotográfico do jornal O Primeiro de Janeiro

Em frente à porta da biblioteca, no parque de São Lázaro, há crianças a brincar acompanhadas pelas criadas das famílias. Jovens recrutas, também eles longe de casa, costumam parar por aí na esperança de chegar à fala com alguma delas. De manhãzinha as peixeiras começam a chegar e a apregoar, subindo do cais do rio, com as canastras à cabeça ainda carregadas. Outras mulheres vêm à cidade vender legumes e fruta, trazidas por carroças vindas de Campanhã ou da beira-rio.Já não encontra é padeiras e leiteiras a fazer as entregas nas casas habituais, a sua rotina diária na cidade começa à alvorada. A essa hora está o pequeno-almoço a ser-lhe servido pela criada lá de casa.

Maria, criada de servir, é uma patusca, sempre a rir, mesmo sem razão. Será o seu modo próprio de lidar com a má-sorte: deixou a aldeia aos 14 anos para escapar à fome, a mãe deixou de poder criar tanto filho depois que o pai morreu. O pouco tempoque foi obrigada a ir à escola não foi suficiente para poder ler sozinha os romances que tanto aprecia. A pedido da Mamã, Adozinda andava a ensiná-la. Para já, contenta-se com as novelas que passam na rádio à tarde, enquanto remenda e passa a roupa. Antes de a menina Zindinha ter entrado para a universidade, ambas as ouviam na sala de costura, um pouco antes da novena da tarde que a senhora também gosta de seguir.

Ao entrar na biblioteca, Adozinda procura a Sala de Leitura Feminina. Encontra-a junto à entrada, passando o jardim do claustro. Naquela grande casa, antes convento, a humidade do Porto mistura-se com o cheiro do papel, das madeiras, para espalhar aquele cheiro a livros que lhe é familiar.

Que há de escolher? Olha em volta: há várias raparigas da sua idade, estantes com portas de vidro, uma salinha confortavelmente decorada. A sala de leitura geral não tem esses luxos!, disse-lhe o guarda-sala. Podia lá entrar, mas aqui estaria mais à vontade. Aparece então a Berta para o encontro marcado, não têm aulas nesse dia. Os pais da Berta, são pessoas remediadas e trabalham muito. A mãe é professora primária, chega a ensinar três e quatro classes em cada ano. Por isso está satisfeita, agora já não precisa de comprar tantos livros para estudar, de casa apanha o elétrico com facilidade para São Lázaro.

Adozinda lembra-se de ter lido em criança alguns livros da Virgínia, alguns artigos no suplemento feminino do jornalO Século. Perguntaque outros livros dela pode ler ali. Escolhe "A Mulher". É um livrinho que lê rapidamente, dando voltas à imaginação com a forma como a educação das mulheres se fazia na Suíça.

Mas mais que tudo, surpreende-se com estas palavras:

“Li a 'Bibliothèque Rose', depois Dickens, Walter Scott, Jules Verne, e mais tarde os romances modernos sensaborões e inúteis que as literaturas francesa e inglesa põem à disposição das raparigas. Nada disto podia constituir no meu espírito um terreno propício ao desenvolvimento das minhas convicções exaltadas sobre o destino da mulher.”

E umas páginas adiante:

“Mulheres da minha terra!... Gatas Borralheiras com o cérebro vazio... Pobres mulheres da minha terra!”

E mais à frente ainda:

“No feminismo, como no socialismo, como em todas as grandes crenças e em todas as esperanças que enobrecem o espírito humano, e o têm levado à conquista de um ideal redentor, há os exaltados, os fanáticos, os incompreensivos, os que vão além do sonho, os que não calculam a parte que é preciso deixar-se ao tempo e que julgam poder realizar no espaço de uma vida o que só o trabalho dos séculos fará um dia”.

Então Virgínia tinha sido uma feminista? Não lhe teria passado pela cabeça! Os tempos mudaram muito, de qualquer maneira. 1913? Tinha sido escrito entre o nascimento da Mamã e o dela.

Pires de Lima declarou em 32, antes de ser Ministro da Educação Nacional: “Sim, Meninas que me estais a escutar, só há para vós uma emancipação digna e legitima: o casamento”.

Leis regressivas tinham alterado as medidas republicanas: o marido podia pedir a entrega e 'depósito' judicial da mulher se ela deixasse o lar. Sem consentimento do marido as mulheres não podiam dedicar-se ao comércio, assinar contratos, administrar bens, comparecer em tribunal, viajar para o estrangeiro ou deixar o país, nem publicar. Na prática, o divórcio era negado. Eleger ou ser eleita era direito apenas das solteiras com mais de 21 e certos rendimentos pessoais, a casadas e chefes de família se tivessem diplomas do secundário e pagassem um tanto de contribuição predial. Professoras primárias só podiam casar com autorização ministerial; enfermeiras, telefonistas e hospedeiras do ar não podiam.

A lei declarava a autoridade do marido sobre a mulher casada: só com o seu consentimento podia tornar-se vendedora, viajar para o estrangeiro, assinar contratos, administrar bens de família8.

Ao sair, estas ideias ainda lhe enchem a cabeça. Acompanha Berta até à paragem, distrai-se, volta atrás: lembra-se que tem de comprar selos para o Brasil, quer escrever à Tia. As duas irmãs do Papá imigraram para o Brasil quando atingiram a maioridade, casaram-se e constituíram família por lá. Para as moças sem grande dote, o Brasil era uma chance. Os irmãos do Papá imigraram todos para Moçambique. Tinha uma família pequena. Sem primos ou irmãos era-lhe mais difícil sair, se não fosse na companhia dos pais.

Chegada a casa, conta à mãe esta nova experiência na biblioteca: “Senti-me como aquelas mulheres da Suíça ou da França, a ler num sítio tão especial. Ali não havia homens a pasmar para mim, nem tive de me preocupar que me atirassem ó doutora,ó sabichona, como os rapazes me fazem na rua a mim e às minhas colegas por irmos de livros para a faculdade9. A confusão que a certa gente faz que eu tenha estudos, ou que goste de ler!”.

Notas finais

A foto da inauguração mostra o que poderia ter sido um grupo de alunas acompanhadas por uma professora, num registo talvez encenado. Contudo a sala foi usada predominantemente por estudantes – o colégio feminino tão perto - mas também por algumas leitoras tais como artistas plásticas, arquitetas – a escola de Belas-Artes, no quarteirão ao lado, usou deste edifício – e ainda por algumas donas de casa, costureiras, peixeiras.

Mais inesperado foi concluir que, contrariamente às congéneres estrangeiras, a coleção de obras da sala não era objeto de mais controle moral, ideológico do que noutras salas. Talvez até o contrário se pudesse ter verificado. As estantes encerravam obras de vários escritores, predominando políticos e ensaístas do séc. 19 e ainda autores associados à Revolução Francesa e ao romantismo francês, mas também obras sobre parlamentarismo e política em geral, higienismo, enologia, física e química. Os livros mais técnicos e mais políticos poderão ter sido adquiridos – e nalguns casos confirmámo-lo – por um dos maridos de Tília Dulce ou pelo seu pai, dadas as suas atividades económicas e políticas. Entre estes estava o exemplar mais antigo do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels existente em toda a biblioteca (1892) e obras de Kropotkine.

 Tília Dulce Machado Martins, fotografia cedida pela família, datada de 1894

A inclusão dos livros da biblioteca pessoal de Tília Dulce terá seguido a norma da época que consistia em manter os legados indivisos num só espaço – e talvez a sua condição social tenha sido garante que obstasse a uma seleção censória. Quanto a isto só podemos conjeturar. Mais tarde sim, foram acrescentados outros, livros mais consentâneos com as leituras recomendáveis para senhoras segundo a mentalidade dominante da época. E era já uma comissão escolhida pelo município que se encarregaria da selecção: Virgínia de Castro e Almeida, Stefan Zweig, Emilio Salgari e ainda cerca de duzentos títulos escritos, prefaciados ou traduzidos por Camilo.

É preciso contudo lembrar que estas leitoras, e os demais noutras salas, não possuíam acesso livre à estante – deviam pedir os livros pretendidos ao balcão e proceder ao registo do que liam, o que implicava alguma forma de controle sobre as suas escolhas. E sabemos que, na época, acontecia que certos pedidos fossem recusados aos leitores em bibliotecas públicas por parte dos funcionários “guarda-sala” ou outros. A vigilância sobre o que se lia podia ser exercido também através de outros leitores: encontramos registo de protestos de leitores por terem presenciado certos livros a serem lidos na Sala de Leitura Geral, caso de uma edição de Le Capital.

A Sala veio a ser ampliada em 1947 e em 52 e, com os anos, as presenças iam aumentando e diversificando-se socialmente. Note-se que antes da sua abertura as estatísticas de uso não discriminavam o sexo. Terá encerrado em agosto de 1953, sendo as leitoras dirigidas para a sala geral onde, até ao fim dos anos 60, se deviam sentar em ala separada.

Virgínia e Tília Dulce tinham em comum um elo com a História colonial. A primeira era filha do 1ºConde de Nova Goa.A segunda, nascida no Brasil, teve como terceiro marido um governador da Índia e ministro da 1ª República.Não fosse este casamento e dificilmente teríamos encontrado pistas biográficas dignas de nota sobre a segunda. A invisibilização de género jogou também aqui o seu papel.

O caso desta sala ilustra como espaços segregados, para mulheres apenas, foram fruto da dominação patriarcal fascista, segregadora e condescendente, marca daquele daquele tempo e lugar. Mas emparelha-se também com processos de apropriação do espaço e com práticas de uso análogas, noutras cidades, talvez noutros tempos, onde e quando a fruição do espaço público e semipúblico foi contestada por mulheres - que permaneceram frequentemente anónimas.

Podemos concluir que este caso de separatismo, tal como casos análogos, originado em segregação com motivações negativas, acabou por proporcionar resultados positivos para as mulheres que foram além das finalidades esperadas pelas próprias instâncias do poder: a sua presença nestes espaços tornou-se habitual, deu-lhes visibilidade, constituindo-se em degrau usado para superar um uso muito desigual dos espaços públicos e semipúblicos. Este novo estatuto de leitora públicacontribuiu para reforçar de forma positiva o papel das mulheres e o seu reconhecimento, num período em que estes estavam claramente em reconstrução, pela incorporação de novas experiências na sua vida quotidiana e na vida da sociedade em geral.

Texto de Paula Sequeiros em nova versão, traduzida e adaptada para o esquerda.net, a partir de original assinado com Sónia Passos; investigação desenvolvida na Biblioteca Pública Municipal do Porto entre 2010 e 2011


1 parece ter havido uma outra numa biblioteca popular de Lisboa, mas documentação própria não é conhecida; sabe-se que em Inglaterra, Estados Unidos e Nova Zelândia, houve umas tantas, durante os finais do séc. 19 e os princípios do 20, sabendo-se que salas só para leitores negrosse criaram também nos EUA; se houve inspiração nas práticas norte-americanas acompanhadas pelo diretor da Bib. Pública de então, ou nas inglesas, dados os laços que ligavam o Porto a Inglaterra, é questão sobre a qual só se pode especular - não se encontrou qualquer fundamentação.

2 Neves, Helena. 2001. O Estado Novo e as mulheres: o género como investimento ideológico e de mobilização. Lisboa: Biblioteca Museu República e Resistência.

3 Rosas, Fernando. 1990. Portugal entre a paz e a guerra: estudo do impacte da II Guerra Mundial na economia e na sociedade portuguesa (1939-1945). Lisboa: Estampa.

4 Lamas, Maria. 1950. As mulheres do meu país. Lisboa: Actuális.

5 Sousa, Cynthia Pereira de. 2006. A escola de massas em Portugal e no Brasil nas estatísticas da UNESCO: um estudo histórico-comparado (de 1946 aos anos 60). In Anais do VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação:6472-6483. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia.

6 Almeida, Virgínia de Castro e. 1913. A mulher: história da mulher; a mulher moderna; educação. Lisboa: Livraria Clássica.

7 Lamas, citada acima

8 Pimentel, Irene Flunser. 2000. História das organizações femininas no Estado Novo. Lisboa: Círculo de Leitores; Pimentel, Irene. 2008. A situação das mulheres no século XX em Portugal. Disponível em: http://irenepimentel.blogspot.pt/2010/04/situacao-das-mulheres-no-seculo-xx-em.html; http://irenepimentel.blogspot.pt/2010/04/situacao-das-mulheres-no-seculo-xx-em_18.html

Neves, citada acima

9 Silva, Maria Regina Tavares da. 1983. Feminismo em Portugal na voz de mulheres escritoras do início do século XX. Análise Social, XIX(77-78-79):875-907. Disponível em: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223465449P2eYY6he7Ah47BN7.pdf

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
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