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Síria: em Aleppo trava-se “a mãe de todas as batalhas”

É assim que o jornal estatal sírio al-Watan se refere aos confrontos travados em Aleppo, a capital comercial da Síria. O regime sírio mobilizou para o confronto artilharia pesada e helicópteros, contudo, segundo noticiam os media internacionais, os rebeldes estão a conseguir segurar as suas posições. Comunidade internacional teme massacre.
Foto EPA/STR TURKEY OUT.

O controlo de Aleppo - maior cidade da Síria, com cerca de 2,5 milhões de habitantes, e sua capital comercial - é considerado vital para as forças do regime sírio. Para os confrontos que se desenrolam nesta cidade, e que tiveram início na madrugada de sábado, o regime mobilizou artilharia pesada e helicópteros.

O principal palco de batalha é Saleheddine, bairro no extremo ocidental de Aleppo, que se tornou num importante reduto dos rebeldes desde que estes tomaram grande parte da cidade, a 20 de julho. Também se registam fortes confrontos no bairro de Sakhour, segundo adianta o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

O conflito em Aleppo causou a morte a 29 pessoas este sábado - dez soldados, oito rebeldes e onze civis -, avança esta ONG, o que eleva o número de mortos registados neste dia na Síria para 90.

Amer, porta-voz de uma rede de ativistas em Aleppo, contatado via Skype pela AFP, adiantou que "há milhares de pessoas nas ruas a fugir do bombardeamento”. “Elas são aterrorizadas por helicópteros que voam baixo", afirmou, acrescentando que "um número muito grande de civis reuniu-se em parques públicos em áreas mais seguras, mas a maioria refugiou-se nas escolas”. “Eles não podem sair da cidade", rematou Amer.

Segundo os correspondentes da AFP, as pessoas têm grandes dificuldades em obter mantimentos, incluindo pão e medicamentos.

Ativistas e residentes citados pelo New York Times, afirmam que a oposição conseguiu, pelo menos, repelir parte dos ataques, matando soldados do regime e destruindo vários tanques. Esta mesma informação também é veiculada pela AFP e Al Jazeera.

A agência noticiosa estatal síria noticiou, por sua vez, que se registaram confrontos entre as forces de segurança e “grupos terroristas armados” em Aleppo e Latakia, que resultaram na morte e prisão de vários membros do grupo. “Os maiores confrontos desde o início da revolução estão a acontecer agora em vários bairros da cidade de Aleppo", noticiou a LCC.

A Cruz Vermelha suspendeu, entretanto, algumas das suas operações em Aleppo por considerar não existirem condições de segurança.

De acordo com o OSDH, o Exército tentou invadir a região de Lajjate, na província de Deraa (sul) e perto de Hama (centro), a localidade de Karnaz foi ocupada pelo Exército, que também bombardeou Homs (centro).

A Al Jazeera dá ainda conta de conflitos em cidades como Damasco e Idlib e adianta que os rebeldes estarão a ganhar posições em localidades como Al-Bab, na província de Aleppo.

No vizinho Líbano, foram registados confrontos durante a noite de sexta para sábado entre moradores de bairros alauítas, partidários do regime sírio, e sunitas, hostis a Bashar al-Assad, em Trípoli, deixando nove feridos.

Reações internacionais

O ex-chefe da missão de observadores das Nações Unidas na Síria, o general norueguês Robert Mood, afirmou, esta sexta feira, que a queda do presidente sírio Bashar al-Assad é apenas uma "questão de tempo", mas que tal acontecimento poderá “não evitar uma sangrenta guerra civil”.

Também na sexta feira, o departamento de estado norte americano acusou o regime de Assad de estar a preparar um massacre de grandes proporções em Aleppo, enquanto a alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, apelou às duas partes para “pouparem os civis”, que serão as vítimas deste “confronto de grande magnitude”.

O porta-voz do ministério das Relações Exteriores francês, Bernard Valero, adiantou, por sua vez, que o presidente da Síria, Bashar al-Assad, "se dispõe a cometer novos massacres contra o seu povo". Já François Hollande frisou que "o regime de Bashar al-Assad sabe que está condenado e, desta forma, vai utilizar a força até ao fim". O presidente francês apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para “agir o mais rapidamente possível”, caso contrário arriscará o “caos e a guerra civil”.

O primeiro ministro inglês, David Cameron, também alertou que existem sérios temores de que o governo de Assad se prepara para conduzir "alguns atos verdadeiramente terríveis ao redor e na cidade de Aleppo".

O enviado da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, afirmou em comunicado que acredita “que a escalada do reforço militar em Aleppo e arredores é mais uma evidência da necessidade de a comunidade internacional se unir para convencer os intervenientes que apenas uma transição política, levando a uma solução política, irá resolver esta crise e trazer a paz ao povo sírio".

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, alertou para uma possível utilização, por parte do governo sírio, de armas químicas.

Numa aparente tentativa de justificar e forçar uma intervenção no país, Erdogan afirmou, durante uma conferência de imprensa em Londres, que também contou com a presença de David Cameron, que “as recentes declarações com relação ao uso de armas de destruição em massa” não permitem que continuemos a ser meros "observadores ou espectadores".

O secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, instou Bashar al-Assad a cancelar a ofensiva sobre Aleppo e exigiu uma declaração clara que garanta que “não serão utilizadas armas químicas em qualquer circunstância”.

O governo russo já veio, entretanto, admitir que os confrontos em Aleppo poderão resultar numa enorme tragédia, contudo, adiantou que seria irrealista esperar que o governo sírio não reagisse enquanto os rebeldes ocupam as cidades de maior dimensão.

"Nós estamos a persuadir o governo de que precisa de dar os primeiros passos, mas quando a oposição armada está a ocupar cidades como Aleppo, onde poderá ter lugar uma nova tragédia, não é realista esperar que o governo aceite” estas movimentações, sublinhou o ministro dos Negócios Estrangeiros russo.

O responsável russo acusou alguns países de estarem a alimentar o conflito, “encorajando, suportando e dirigindo o conflito armado contra o regime” e desmentiu os rumores sobre a possibilidade de a Rússia dar asilo a Bashar al-Assad.

O porta-voz da diplomacia russa, Alexandre Lukachevitch, já veio informar que a Rússia não irá autorizar a vistoria dos navios com pavilhão russo em cumprimento das sanções da União Europeia (EU) contra a Síria. "Não tencionamos participar sob qualquer forma no cumprimento das resoluções da UE aprovadas contra a Síria, nomeadamente não iremos analisar apelos e permitir vistorias de navios que navegam com pavilhão russo, bem como não aceitamos o emprego de medidas restritivas em relação aos sírios", adiantou, esclarecendo que o governo russo considera “a sua realização como ações que violam a soberania dos Estados, o princípio da não ingerência nos assuntos internos, bem como as prerrogativas do Conselho de Segurança da ONU no campo da manutenção da paz e segurança internacional".

O ministro da Energia do Irão veio reforçar o seu apoio ao regime sírio, garantindo que o seu governo "não vai deixar a Síria sozinha numa situação tão difícil".

20.000 mortos

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) anunciou este sábado que já morreram mais de 20.000 pessoas, incluindo 14.000 civis, desde o início da revolta contra o regime de Al-Assad, em março de 2011.

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