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Rússia e Turquia dividem controlo da fronteira no Nordeste da Síria

Em Sochi, Putin e Erdogan partilham o controlo da fronteira entre Síria e Turquia, de onde os curdos retiraram. O governo russo vai também vender mísseis ao exército turco. O acordo feito na véspera de uma conferência russa com líderes africanos com a venda de armas também em cima da mesa.
Erdogan e Putin em Sochi fazem acordo sobre o Curdistão Sírio.
Erdogan e Putin em Sochi fazem acordo sobre o Curdistão Sírio. Foto de SERGEI CHIRIKOV / POOL/Lusa

Terceiro ato. Depois da retirada norte-americana e da ofensiva turca contra os curdos no nordeste da Síria, a Rússia e a Turquia fizeram um acordo em que dividem o controlo territorial ao longo da fronteira entre Turquia e Síria.

Depois de seis horas de conversações, a Turquia anunciou o fim da sua ofensiva militar e os russos vão poder avançar para patrulhar as áreas antes sob controlo curdo. Erdogan conseguiu o objetivo de criar uma faixa de território no interior do país vizinho controlado pelas suas tropas e livre do exército curdo e Putin viu aumentada sua influência na região.

O presidente sírio, Bashar al-Assad, vê assim os turcos estabelecerem-se no interior do seu país, violando o princípio da “integridade territorial” que sempre tem defendido, mas consegue um avanço: já a partir desta quarta-feira, coloca guardas na fronteira turco-síria. Mas o papel principal será o das patrulhas comuns entre russos e turcos que dominarão de facto a região.

A seguir à retirada dos militares norte-americanos, Erdogan iniciou a sua invasão que pretendia criar uma “zona de segurança” de 440 quilómetros. Conseguiu 120 mas, sobretudo, afastou os combatentes das Forças Democráticas Sírias e das Unidades de Proteção do Povo da sua fronteira. Por isso, o presidente turco classifica o acordo alcançado como “histórico e decisivo”.

Parte deste acordo faz também o regresso “voluntário” dos refugiados sírios que estão em território turco. Para além de afastar os curdos, fazia também do plano de Erdogan enviar para a faixa ocupada estes refugiados.

Os curdos retiraram já da maior parte destas zonas no âmbito do cessar-fogo que os turcos tinham negociado com o vice-presidente dos EUA, Mike Pence. Contudo, a Rússia fez questão de “avisar” as forças armadas curdas de que deveriam cumprir este acordo. Dmitry Peskov, porta-voz russo, disse que, em caso de incumprimento “as forças curdas restantes cairiam sob o peso do exército turco”.

Irão: da defesa da integridade da Síria ao apoio ao acordo russo

Outra das potências regionais, o Irão, aliado de al-Assad, também parece satisfeito com este acordo. O porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Mousavi, afirmou que “o Irão saúda quaisquer passos que tragam segurança e calma à Síria e que assegurem a integridade do país”.

O Irão tinha-se oferecido para coordenar conversações de paz entre o governo sírio, os curdos e a Turquia mas o seu apelo tinha sido ignorado. Agora, Mousavi insistiu que “o Irão sempre apoiou meios políticos como forma de resolução de conflitos… e Teerão ficará feliz em ajudar as conversações entre Síria e Turquia para alcançarem um entendimento.”

Armas, não apenas território

Ao mesmo tempo que se negociavam o acordo sobre o Curdistão sírio, governo turco e russo também faziam outros negócios. Os russo vão vender mísseis S-400 aos turcos, um contrato visto com muita desconfiança pela NATO, da qual este país faz parte, que já tinha ameaçado com sanções caso este se concretizasse.

Putin no Mar Negro com os olhos postos em África

Em Sochi, nas margens do Mar Negro, não será só Erdogan que se vai encontrar com Putin com negócios em vista. O presidente russo organizou uma cimeira com vários governantes africanos que abrirá esta quarta-feira com discursos de Putin e de Abdel Fattah al-Sissi, atual presidente do Egito e da União Africana.

O chefe de Estado russo quer aumentar a fatia de negócios entre Rússia e África, estimada em 17 mil milhões de dólares em 2017, e que se situa bem abaixo da União Europeia que no mesmo período teve trocas no valor de 275 mil milhões e da China que alcançou os 200 mil milhões.

O armamento é também uma das exportações que o Kremlin quer potenciar, ocupando já um papel importante na República Centro-Africana, para além da presença de mercenários russos no país.

A “segurança” é uma área que Putin quer explorar de forma a abrir mercados para o seu país. Desde 2017, foram assinados acordos de “cooperação militar” com vinte países da África subsariana.

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