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Rostos de “pessoas à procura de uma vida digna” através da lente de Sarka Pereira

Na semana passada, a sede da Solidariedade Imigrante acolheu uma exposição de fotografias de Sarka Pereira, produzidas no âmbito do projeto “Espaço Emprego” desta associação. Texto e fotos de Mariana Carneiro.
Sarka Zelenkova Pereira e Timóteo Macedo, da Solidariedade Imigrante - Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes.

Na semana passada, a dia 3 de junho, a Solidariedade Imigrante - Associação para a defesa dos direitos dos imigrantes (SOLIM), em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo e MDM - Movimento Democrático das Mulheres, realizou uma conferência dedicada ao fenómeno das Migrações, na Fundação José Saramago.

O encontro contou com intervenção de Sarka Zelenkova Pereira, mediadora sociocultural, da SOLIM, Timóteo Macedo, ativista e presidente desta associação, Amelia Martínez Lobo, ativista feminista e project manager da Fundación Rosa Luxemburgo Madrid, Sandra Benfica, dirigente do MDM – Movimento Democrático das Mulheres, Ana Leão Varela, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, Zilola Nasimova, mediadora sociocultural no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Oeiras, e Anabela Rodrigues, ativista, dirigente e mediadora sociocultural do GTO LX – Grupo de Teatro do Oprimido de Lisboa e da SOLIM.

Nesta conferência foi abordada a questão do ataque à circulação das pessoas e da visão economicista e mercantilista face a quem migra. Falou-se sobre os instrumentos e mecanismos mobilizados para a construção da “Europa Fortaleza”, não só no que respeita à elevação de muros e à construção de vedações, mas também no que concerne à implementação de políticas verdadeiramente criminosas, alicerçadas em acordos como o de Schengen ou o Tratado de Amesterdão. Neste encontro foi defendida uma mudança de paradigma em relação às fronteiras – as físicas e as mentais – para que não continuemos a deixar que quem procura uma vida melhor seja condenado à morte na travessia do deserto ou do Mediterrâneo. Também foram abordadas as alterações implementadas nos últimos anos à lei da imigração. Ainda que insuficientes, estes avanços têm de ser defendidos, na medida em que foram eles que permitiram a introdução de um processo de regularização permanente de quem vive e quer continuar a viver e a trabalhar no nosso país.

A esta iniciativa seguiu-se uma exposição com o mesmo tema e nome, “Pessoas à Procura de uma Vida Digna”, da autoria da Sarka Zelenkova Pereira. A exposição foi acolhida no espaço da SOLIM, situada na Rua dos Bacalhoeiros 4, Lisboa.

Tanto a conferência como a exposição tiveram como objetivo a sensibilização dos países de acolhimento para a compreensão do fenómeno das migrações em perspetiva do direito de migrar.

No texto que acompanha a exposição, Sarka Zelenkova Pereira explica que as fotografias em exposição foram produzidas no âmbito do projeto “Espaço Emprego” da Associação Solidariedade Imigrante, que “resultou das dificuldades económicas provocadas pela Pandemia/Covid, que agravou significativamente a situação dos trabalhadores imigrantes”.

Durante o projeto, Sarka foi tirando fotografias das pessoas para os seus curriculum vitae e apercebeu-se “da força extraordinária e única da expressão das pessoas captadas nas fotografias”.

“Pessoas com uma enorme energia, pessoas concretas que nos deixam levar pelos sonhos que esses mesmos rostos deixam transparecer, para além da tremenda vontade de vencer. Cada rosto representa uma história única. O que os une é simples: procura de trabalho digno que lhes permita ter uma vida normal sem o permanente stress da sobrevivência. Apenas querem continuar a sonhar que é possível vencer”, retrata a mediadora sociocultural.

Sabemos que a pandemia veio agravar a situação dos imigrantes. Para sabermos mais sobre as suas vidas, os seus sonhos, as dificuldades que enfrentam, nada melhor do que olhá-las nos olhos. E as fotos de Sarka permitem-nos fazê-lo. Esperemos agora que este importante projeto tenha acolhimento noutros espaços em Lisboa e fora da capital, e que contribua para que sejamos mais capazes de olhar para o outro, de ver o outro, e de deixar de temê-lo.


O Esquerda.net transcreve, na íntegra, o texto que acompanha a exposição de Sarka Zelenkova Pereira:

PESSOAS À PROCURA DE UMA VIDA DIGNA

“Para tentar compreender a experiência do outro, primeiro é necessário desmontar o mundo tal como o vemos da nossa posição nele, e reconstruí-lo do modo em que é visto a partir da posição do outro. Por exemplo, para compreender uma determinada escolha feita pelo outro, precisamos de enfrentar, na imaginação, a falta de escolhas com que ele possa estar confrontado e que lhe possam ser negadas. Os bem-nutridos são incapazes de compreender as escolhas dos malnutridos.”

1. Pessoas à procura de uma vida melhor

Os trabalhadores migrantes são imortais: imortais porque continuamente são substituíveis. Não nasceram; não foram criados; não envelhecem; não se cansam; não morrem. Têm uma só função – trabalhar.”
Os movimentos migratórios são e sempre foram uma realidade permanente da humanidade e realizam-se por motivos diversos: fuga à guerra, à fome, à perseguição política e religiosa, às alterações climáticas, ou pela simples procura de melhor qualidade de vida e de acesso a direitos fundamentais como o trabalho, a educação ou a saúde.

A grande maioria dos migrantes que chegam a Portugal, de diversas origens do globo, procuram trabalho e meios de subsistência. Procuram usufruir de condições de desenvolvimento económico, social, cultural e político que lhes permita viver em liberdade. Este Direito ao Desenvolvimento encontra-se consagrado na resolução 41/128 da Assembleia Geral das Nações Unidades, de 4 de dezembro de 1986.

O trabalho é um fator central da pessoa que migra. É o que permite a regularização e o acesso as condições de vida básicas, ao direito a viver em família e à cidadania plena. Através do trabalho, podem lutar em igualdade com tantos outros cidadãos, pela sua dignidade e liberdade.

Os imigrantes são pessoas em busca de sobrevivência e procura de uma vida melhor, são life-seekers.
É tempo de pensarmos o direito à mobilidade como um direito humano universal. Um Direito Humano que queremos deixar aos nossos filhos.

2. Imigração: do sonho ao pesadelo

“A melhoria das condições de trabalho e de vida, à segurança social, à democracia parlamentar, às vantagens da tecnologia moderna são evocadas como confirmações de que as crueldades do passado não foram mais que acidentes de percurso. Esta ideia é geralmente considerada credível nos centros metropolitanos. As formas mais cruas de exploração são aí invisíveis porque ocorrem geralmente nos antípodas do Terceiro Mundo. Estes antípodas são tanto culturais quanto geográficos. Um bidonville nos arredores de Paris pertence-lhes. Os imigrantes que dormem enterrados em caves pertencem-lhes. Encontram-se aí, mas não são vistos.”

Para que os sonhos não se venham a tornar pesadelos, o esforço dos imigrantes tem que ser redobrado ao dos nacionais, têm que se adaptar às regras de um novo país, enfrentam dificuldades de toda a ordem, nomeadamente com a língua que ainda não dominam.
Vêm para a Europa à procura de uma vida digna, não vêm roubar postos de trabalho. Os imigrantes concentram-se nos trabalhos mais duros, mais desagradáveis e mais mal pagos que muitos nacionais não querem realizar.

A maioria das pessoas migra sozinha, sem família, vai resistindo, sem o apoio dos mais próximos nem do país que os acolhe. Ficam abandonados com dificuldades e exclusões permanentes, não lhes restando outra alternativa senão esperar que a situação lhes permita regularizarem-se, para assim poderem trazer os seus familiares e conseguir estabilizar a sua situação.
Mas não é de todo fácil. A maioria enfrenta trabalho inseguro, temporário e precário, sem saber se continuam no próximo mês, muitas vezes até no próximo dia. Muitas vezes com ordenados em atraso ou sem nunca chegar a receber.

É face a estas adversidades que a Associação Solidariedade Imigrante, uma das maiores associações de imigrantes da Europa, faz a diferença na vida concreta de milhares de pessoas. Prestando informação, ajudando a resolver os problemas do dia a dia, dotando-as de ferramentas para fazerem valer os seus direitos e resistirem às dificuldades permanentes e a situações de exploração laboral e exclusão social, incutindo a mensagem que tem mobilizado milhares de imigrantes, de que nada cai do céu e de que tudo se conquista se ousarmos lutar sempre, de que precisamos de estar disponíveis para fazermos parte dos fatores de mudança e transformação do atual estado de coisas.

3. Países de origem

“Os trabalhadores migrantes vêm de economias subdesenvolvidas. O termo «subdesenvolvido» causou embaraço diplomático. Foi substituído pela expressão «em vias de desenvolvimento». É diferente de «desenvolvido». ... Uma economia é subdesenvolvida por causa de que é feito à sua volta, nela e a ela. Há organizações que subdesenvolvem.”

A maior parte dos imigrantes vem de países ricos em recursos naturais, na terra e no mar. Dessa riqueza pouca fica nestes mesmos países. Interesses económicos e geopolíticos dos países do Norte influenciam diretamente o estado de desenvolvimento no hemisfério Sul. A exploração contribui para situações de instabilidade política e guerras permanentes.

Todos os países industriais da Europa, empregam e dependem do trabalho dos imigrantes. A Europa acaba por lucrar duas vezes, na exploração dos recursos naturais dos países do Sul e na exploração dos recursos humanos que de aí veio.

Nos últimos anos, a Europa ficou surpreendida com a onda de imigração que não sabe controlar, como até agora, no sentido do seu interesse económico. A Europa gostaria de contribuir para que o continente africano seja desenvolvido através de programas de apoio. O impacto destes projectos nos países de origem gera polémica. Para a mudança significativa é preciso redefinir as relações entre o Norte e Sul no seu essencial. Enquanto não mudam, as pessoas vão continuar a migrar. E os que têm a sorte de chegar, e estão aqui a viver e a trabalhar, devem ter direitos iguais a todos os outros.

“A migração envolve a transferência de um recurso económico precioso – o trabalho humano – dos países pobres para os ricos. Os trabalhadores que migram podem ter sido desempregados no seu país de origem, o que não altera o facto de essa comunidade ter investido somas consideráveis na sua educação. Às vezes, os economistas falam da «emigração enquanto exportação de capital», em tudo semelhante à exportação de outros fatores da produção.”

4. Fotografias que falam por si

Estas fotografias foram produzidas no âmbito do projeto “Espaço Emprego” da Associação Solidariedade Imigrante. Este projeto resultou das dificuldades económicas provocadas pela Pandemia/Covid, que agravou significativamente a situação dos trabalhadores imigrantes. A Associação dá apoio aos imigrantes na procura de emprego em todas as suas componentes, incluindo o acompanhamento no seu percurso e contacto com as empresas. Investe na capacitação das pessoas que nos procuram, no que concerne aos seus direitos laborais e na adaptação a esta nova época de transformação digital, que constitui um obstáculo para muitas pessoas, dificultando a procura de emprego.

Durante o projeto, a autora foi tirando fotografias das pessoas para o Curriculum Vitae de cada uma e apercebeu-se da força extraordinária e única da expressão das pessoas captadas nas fotografias. Pessoas com uma enorme energia, pessoas concretas que nos deixam levar pelos sonhos que esses mesmos rostos deixam transparecer, para além da tremenda vontade de vencer.
Cada rosto representa uma história única. O que os une é simples: procura de trabalho digno que lhes permita ter uma vida normal sem o permanente stress da sobrevivência. Apenas querem continuar a sonhar que é possível vencer.

Citações do livro: Um Sétimo Homem - John Berger e Jean Mohr, 1975, Antígona
Revisão do texto: Filipa Pereira e Timóteo Macedo
Pela elaboração final da exposição agradeço a arquiteta Lenka Holcnerova e cartoonista Yves Darbos. Autora: Sarka Zelenkova Pereira

 

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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