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A riqueza dum país

Hoje em dia deixou-se de investir nas pessoas. Esquece-se que a principal riqueza de uma nação é a individualidade de cada um dos seus cidadãos e que investir neles não é um desperdício de recursos, mas sim uma aposta com lucros generosos. Por Tiago Pinheiro.

Henry Ford não foi pioneiro na tecnologia automóvel. Numa altura de fervilhante ebulição tecnológica, deslindou não o melhor veículo, mas o mais rentável. Fê-lo com argúcia técnica, mas sobretudo com uma mestria humana simples: para Ford o melhor carro seria aquele que as pessoas pudessem comprar.

O conceito é simples e transversal. Providenciando aos seus funcionários salários justos e contratualização estável criou um núcleo de famílias potenciais compradores que sustentariam o seu negócio de veículos baratos. No entanto o conceito foi-se perdendo nos meandros no capitalismo cego, que escraviza com a precariedade.

Hoje em dia deixou-se de investir nas pessoas. Esquece-se que a principal riqueza de uma nação é a individualidade de cada um dos seus cidadãos e que investir neles não é um desperdício de recursos, mas sim uma aposta com lucros generosos.

Circula a ideia peregrina de um hospital deste país de enviar a título informativo o discriminativo do preçário dos cuidados prestados. Avultado sem dúvida, mas este investimento permite recuperar um trabalhador válido, permite investir numa criança de futuro risonho, permite manter com qualidade de vida um cidadão mais idoso. A acompanhar seria interessante vir o discriminativo daquilo que é o investimento do cidadão, que porventura não encontrará igual nos milhares de euros com que subsidia o serviço de saúde, na esperança de um dia receber somente uma parcela do que investiu.

Assume-se a ideia arrepiante que a competitividade advém da facilidade do despedimento; porventura aposta-se na produtividade sustentada no medo. Perdem-se cidadãos com capacidade para adquirir as suas casas, para construir as suas poupanças, para estruturar as suas famílias. Constrói-se o novo cidadão, receoso, demasiado dependente do precário vínculo que tem para no máximo meia dúzia de meses, demasiado dependente de caprichos da banca que assumem nomes tão distintos como Spread, Euribor ou Rating, demasiado frágil para adquirir o seu veículo, que nem ele próprio é já barato. Henry Ford sorriria, percebendo que hoje, não venderia 1 único carro.

Foi a industrialização a dado momento que nos deu a noção de um emprego mais fixo. Nos longínquos anos 30/40 o emprego conseguia-se apenas por um dia. Hoje retoma-se a perspectiva. Ofuscados pela falsa ideia da competitividade, sabemos hoje que 10 anos de árduo trabalho, de especialização e de investimento pessoal equivalem a uma indemnização de cerca de 3 meses. Ludibriados pela austeridade prepotente, sabemos hoje que para se aventurar na compra de uma casa, na construção de uma família, um casal jovem afoga-se em créditos de margens principescas para os seus locadores e humilhante para os seus locatários.

Foi igualmente a industrialização que conduziu à ambição; rapidamente se esgota a satisfação de vender pequenos carros, com algum lucro. Longe vão os tempos em que as empresas tinham colónias de férias para os filhos dos colaboradores, festas de Natal, cuidados de saúde, afinal podendo ganhar mais, porque ganhar apenas uma parte?

Mas o fim do investimento nas pessoas trouxe a falência da economia. Alguém dotado de um sem número de mestrados e doutoramentos esqueceu-se que empregados pobres, são também o equivalente enquanto consumidores. Esqueceu-se sobretudo que o mercado bolsista nunca será igual ao potencial humano. Mais do que cotações a alma humana é o motor propulsor de tudo aquilo em que acredita. E disso nem sombra no Nasdaq, PSI20 ou onde quer que impere o interesse corporativo e o desprezo pela pessoa.

As escolhas no desinvestimento humano, são a fonte maior do esbanjar de recursos que atonitamente assistimos. Preferem os governantes tratar a doença severa do que prevenir que ela se instale. Recusamos transportes para Hospitais em situações relativamente urgentes, para depois esbanjarmos em situações que se tornam críticas. Recusamos comparticipar medicamentos numa percentagem mais justa, para depois custear o tratamento das consequências da não adesão à terapêutica pela precariedade social. Recusamos investir numa pessoa porque negligenciamos aquilo que pode produzir, e não há ninguém que não possa dar o seu contributo da forma que melhor puder.

Recusamos o estado de todos, para poupar para a abundância do estado de alguns. Hoje não há Henry Fords; não há quem veja que a riqueza está na qualidade de vida dos seus trabalhadores, dos seus cidadãos. Olha-se apenas a números, olha-se apenas a fins e degrada-se a riqueza deste e de outros países: as pessoas.

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