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Ricardo Viel: de Azinhaga a Estocolmo e a alegria colectiva de um Nobel

Esta obra de Ricardo Viel é, pelo alcance da sua dimensão humana, uma peça importante na compreensão não apenas de quem era Saramago, mas do fenómeno Saramago, de um homem que, tendo chegado aos píncaros do mundo, não tirou os pés do lugar de onde partiu. Por Ana Bárbara Pedrosa.

“Um país levantado em alegria” é o título do livro escrito por Ricardo Viel (jornalista brasileiro que actualmente reside em Portugal e trabalha como diretor de comunicação da Fundação Saramago) e publicado pela Porto Editora em Outubro. É um título que vai beber a uma citação de Eduardo Prado Coelho, que se referia à atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago em Outubro de 1998: “É possível, como se viu nesta semana, que um país se levante em alegria porque alguém ganhou um prémio de literatura”.

Estas 174 páginas são, por isso, sobre o corolário com o Nobel a um escritor que nascera numa família de camponeses analfabetos e fora serralheiro, e não escapa à narrativa sequer o espanto do próprio Saramago: “Ai se a minha avó Josefa me visse nesta figura” (p. 65). Contada como se “tratasse de um thriller pelo suspense que supõe”, como escreve Sergio Ramírez numa nota prévia (p. 10), a atribuição do Nobel a Saramago pôs em polvorosa não apenas Portugal, mas também o Brasil (expectável, pela proximidade) e outros países da América Latina.

Viel põe a carga na “conquista coletiva” (p. 15) que foi este Nobel, nas pessoas que, em vez de parabenizar Saramago, lhe agradeciam. “Foi o Nobel da língua portuguesa, o Nobel de milhões de leitores de Saramago espalhados pelos cinco continentes. E também o Nobel daqueles que, não tendo lido um só livro do autor, se reconheciam nas suas origens e forma de ver o mundo.” (p. 16), afirma.

 

“Queria estar com a minha mulher”

 

Amadeu Batel foi o primeiro português a descobrir quem era o Nobel de 1998. No dia 2 de Outubro, já lhe fora confiado o segredo. Guardou-o durante uns dias, acabou por revelá-lo a Pilar del Río na véspera da atribuição pública do Nobel. “Sei que isso não significa nada para os outros, mas para mim sim. Fui o primeiro português a saber que o Saramago era Prémio Nobel. Fiquei estarrecido quando recebi a notícia. A seguir à Revolução do 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida” (p. 19), viria a revelar.

De particular interesse será a descrição do momento em que Saramago soube do Nobel, tão mundano, e a “solidão agressiva” (p. 13) pela qual foi acometido. Num aeroporto de Frankfurt, sozinho, sem ter com quem partilhar a conquista, e para mais a ter de se preparar para se enredar no ritmo louco, na esquizofrenia mundial de ter recebido o mais elevado galardão em literatura.

Chamado por uma funcionária da Iberia pelo sistema de som da sala de embarque, ouve da boca de alguém cujo nome nunca soube e que não mais voltou a ver: “Há uma pessoa que quer falar consigo por telefone, é que o senhor ganhou o Prémio Nobel” (p. 26). Depois, o redemoinho expectável: jornalistas, confusão, uma conferência de imprensa improvisada no stand português da feira do livro de Frankfurt. “Saramago subiu à cadeira e pediu calma”, informa Viel, depois de citar um jornalista que descreveu “o caos”: “empurrões, socos e meias rasgadas” (p. 35). O “homem mais procurado do mundo das Letras” lá fez o seu discurso, embora no final tenha dito: “Queria estar com a minha mulher, sinceramente acho que deveria ter ido para Madrid.” (p. 36).

 

“Ai se a minha avó Josefa me visse nesta figura”

 

A descrição de Viel não esconde o tipo de pessoa que era Saramago, a sua verticalidade de gestos, as suas convicções profundas, as suas raízes, a forma como as reavivava. “Pertencemos àquilo que nos fez, à cultura que temos.” (p. 49), disse Saramago ao ser recebido, a 13 de Outubro, no aeroporto pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da Câmara de Lisboa, depois de ter sido buscado a Lanzarote pelo Ministro da Cultura.

Foi essa cultura que Saramago levou à capital sueca. “Ai se a minha avó Josefa me visse nesta figura” (p. 65), terá dito no átrio do Grand Hôtel de Estocolmo. A minutos de receber o diploma do Nobel, de fraque, laço branco e insígnia da Ordem de Santi'Iago de Espada, quem poderia ver ali o rapaz que nascera numa família de camponeses analfabetos, abandonara os estudos na adolescência e só comprara um livro quando já era maior de idade? “Factos que tornariam improvável que alcançasse o olimpo da literatura” (p. 65), atira Viel.

Esta obra de Ricardo Viel é, pelo alcance da sua dimensão humana, uma peça importante na compreensão não apenas de quem era Saramago, mas do fenómeno Saramago, de um homem que, tendo chegado aos píncaros do mundo, não tirou os pés do lugar de onde partiu. No seu discurso de apresentação da obra, no dia 12 de Outubro de 2018, na Biblioteca Nacional de Portugal, o jornalista brasileiro afirmou apostar nos livros “como instrumento contra a barbárie”. E que outra melhor forma de entender Saramago?

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