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(R)evolução

O único caminho possível é a espécie humana entender a sua condição e procurar viver coletivamente de forma mais igualitária, mais livre, mais justa e que ao mesmo tempo respeite e aproveite o planeta em que está. Artigo de Francisco Cordeiro
O único caminho possível é a espécie humana entender a sua condição e procurar viver coletivamente de forma mais igualitária – Foto de niOS/flickr
O único caminho possível é a espécie humana entender a sua condição e procurar viver coletivamente de forma mais igualitária – Foto de niOS/flickr

Vivemos no século XXI, mas parece que a humanidade nada aprendeu durante imensos séculos daquilo a que gostamos de chamar "civilização".

Temos práticas na nossa sociedade que merecem ser questionadas.

As nações competem constantemente para se tornarem as maiores potências económicas, militares ou tecnológicas e assim poder "controlar" o resto do mundo.

As pessoas estão ao serviço da economia, sendo obrigadas a orientar a maior parte da sua energia com empresas que por vezes não produzem nada de útil. Por exemplo, uma das indústrias mais poderosas do mundo enriquece a produzir e a vender armas.

Para além desta utilidade questionável de certas atividades económicas, grande parte da riqueza criada pela maioria dos trabalhadores acaba na posse de uma minoria de empresários ou investidores. Segundo um estudo do economista Thomas Piketty, 1% da população mais rica "capturou" 27% da riqueza mundial criada entre 1980 e 2016.1

Sabemos também que, um pouco por todo o mundo, muitas pessoas trabalham em condições desumanas. Até a mão de obra infantil continua a ser uma realidade.

A civilização atual está portanto assente na exploração do homem sobre o homem. Mas aquilo a que chamamos "progresso" ou "crescimento económico" está também muitas vezes assente na exploração do homem sobre a natureza.2

Os recursos do nosso planeta são usados e abusados como se fossem nossa propriedade, como acontece por exemplo com a extração de petróleo ou com as práticas de agricultura intensiva. Os animais são tratados como se fossem meros produtos que existem para nosso consumo. Notícias recentes tornam este cenário mais negro, como por exemplo as ameaças de destruição de parte da Selva da Amazónia ou o regresso por parte do Japão à caça de baleias para fins comerciais.

Na minha visão precisamos urgentemente de procurar alternativas a esta "civilização". Alguns argumentos a favor do capitalismo defendem que o homem é agressivo e egoísta por natureza. No entanto, tudo leva a crer que estes são comportamentos incutidos pela economia de produção e consumo. Segundo Marylène Patou-Mathis, que dirige as investigações no departamento de pré-história do museu nacional de história natural de Paris, "Variados estudos em neurociências afirmam que o comportamento violento não é determinado genéticamente. (...) Numerosos trabalhos, tanto em sociologia como em neurociências ou em pré-história, comprovam que o ser humano será naturalmente empático. A empatia, assim como o altruismo, têm sido os catalizadores da humanização."3

O único caminho possível é a espécie humana entender a sua condição e procurar viver coletivamente de forma mais igualitária, mais livre, mais justa e que ao mesmo tempo respeite e aproveite o planeta em que está.

Está na altura de evoluir. Começamos já em 2019?

30 de dezembro de 2018

Artigo de Francisco Cordeiro


Notas:

1 Thomas Piketty em World Inequality Report 2018. Consultar em: https://wir2018.wid.world

2 Sobre a exploração do homem sobre o homem e sobre a natureza leia-se de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer o livro "Dialetik der Aufklärung" de onde foi extraída a citação: "Os homens sempre tiveram que escolher entre submeter-se à natureza ou submeter a natureza ao eu. Com a difusão da economia mercantil burguesa, o horizonte sombrio do mito é aclarado pelo sol da razão calculadora, sob cujos raios gelados amadurece a sementeira da nova barbárie."

3 Marylène Patou-Mathis em "Non, les hommes n’ont pas toujours fait la guerre". Consultar em: https://www.monde-diplomatique.fr/2015/07/PATOU_MATHIS/53204

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