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A revolução encalhada numa @

"Estou sempre a ouvir: "isso não é importante", ou "não tenho tempo", "isso é difícil", "não é prático". Quando os ouço na esquerda fico, literalmente, de boca aberta. Então pessoas que querem um outro mundo possível encalham numa simples @, num o/a/x?" Artigo de Judite Canha Fernandes.
As sociedades têm evoluído em termos de consciência e combate às discriminações, mesmo que na realidade concreta ainda tenhamos muito por conquistar, mas quando se fala sobre a possibilidade de alterar as estruturas patriarcais da língua meio país se levanta de indignação. Foto de Ana Feijão.

Era este o título de um artigo que escrevi em 2011 sobre linguagem inclusiva. Não o vou retomar, mas a sua ideia central parece-me bom mote para iniciar este artigo. Dizia assim: “Estou sempre a ouvir (ao se discutir linguagem inclusiva): "isso não é importante" [este argumento é pura desonestidade intelectual, é como dizer que não é importante o modo como comunicamos], ou "não tenho tempo", "isso é difícil", "não é prático". É sobre estes últimos argumentos que reside a minha maior perplexidade. Ouvindo-os da esquerda à direita, quando os ouço na esquerda fico, literalmente, de boca aberta. Então pessoas que querem um outro mundo possível encalham numa simples @, num o/a/x? Queremos uma revolução fácil, prática, que não nos tome tempo? Queremos uma revolução que transforme a face do mundo de forma mais inclusiva, igualitária e emancipadora, e custa-nos tentar mudar, ligeiramente, uma frase? Carai!!!...”

As línguas são organismos vivos. Se o não fossem continuaríamos a escrever pharmacia, em última análise falaríamos grego, árabe ou latim (esta última sim, uma língua morta). Se pensarmos como introduzimos recentemente palavras como software ou pen drive em virtude do contexto de digitalização em que vivemos, ou na vulgarização de palavras como empreendedorismo (ai!) mercê do crescente neoliberalismo, isso torna-se relativamente óbvio. As línguas transformam-se com as sociedades e os percursos da História. Elaboram-se convenções e normas para que nos possamos entender mas essas convenções e normas vão evoluindo e tudo isto acontece paulatina e calmamente[1], sem provocar grandes discussões. Ora, as sociedades têm evoluído em termos de consciência e combate às discriminações mesmo que na realidade concreta ainda tenhamos muito por conquistar (ou desse processo se fazer de avanços e recuos, backlashes e contradições), mas quando se fala sobre a possibilidade de alterar as estruturas patriarcais da língua meio país se levanta de indignação, de súbito se descobrindo grande defendente da imutabilidade da gramática e da pureza da língua. Porquê? Primeiro, as línguas não são puras. Segundo: Porque é que o género gramatical feminino deve ser subordinado ao masculino? Porquê? Leiam bem subordinado, por favor. Porque é que invisibilizamos metade da população quando falamos ou escrevemos? Não existe outra resposta a isto: Porque vivemos numa sociedade machista e a língua sofre dos seus reflexos. Não tem de o fazer. Pode ir à frente de nós e contribuir para avançarmos. Na verdade, mesmo com todos os velhos do restelo[2] que o procuram impedir, já o faz. Lembre-se como a palavra género, enquanto conceito que expressa a construção social elaborada sobre os sexos, surgiu muito antes da maioria das pessoas ter noção do que isso sequer significava. Hoje é um conceito de uso cada vez mais generalizado.

Se não tivermos um pensamento do tipo isto é assim porque sempre foi assim e sempre assim será, não nos revermos em reflexões salazaristas como “o português é uma língua enjeitada” (ou morta) nem comungarmos de posições crescentemente autoritárias e bafientas como a da Real Academia Espanhola (RAE) e nos importar eliminar as desigualdades em todas as áreas da vida, as questões interessantes são outras: Como é que o podemos fazer? Como descobrir esta língua ainda por inventar e experimentar esta voz que ainda não tivemos?

Há uns dias fiz um post (ora, mais um estrangeirismo dicionarizado, ups!) nas redes sociais onde reescrevia uma crónica do Ricardo Araújo Pereira onde este, mais uma vez, procurava demonstrar que escrever sem excluir algum género é impossível. Fi-lo em dez minutos. Não o transcrevo, o texto é longo, mas transcrevo outra coisa que ele publicou no momento em que se discutia o cartão de cidadania. Escreveu assim o RAP: “portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com o problema dos desempregados e desempregadas”. Porque não lhe ocorre algo tão simples quanto isto? “portugueses e portuguesas, reunimo-nos aqui porque o problema do desemprego causa-nos preocupação”. Voilá. Não é de facto assim tão difícil nomear homens e mulheres, cis e trans, sem tornar os textos intragáveis. Ridicularizar quem o tenta fazer é tão só mais um contributo para uma forma de censura naturalizada. A primeira e grande condição para alterar este estado de coisas é querer fazê-lo, a segunda é não ter medo de experimentar nem de alargar fronteiras à imaginação. Podemos fazê-lo pela prática, forma extraordinária de produzir conhecimento, usar documentos de consulta, como o Guia para um linguagem promotora da igualdade, ou os estudos disponíveis.

O que aconteceria se deixasse de haver subordinação de género na língua e o género masculino como neutro universal? O país ruiria? Não me parece. Simplesmente, em termos formais, poderíamos descobrir normas mais flexíveis de concordância, adaptar o genérico às situações específicas, escolher qual a metade da população que faz sentido ser visível em cada contexto, quando necessário. Em síntese, poderíamos progredir no sentido de um uso “sexuado” da língua ditado pela liberdade e pela realidade e não por normas obsoletas e opressivas[3].

Há algo importante, neste intervalo entre 2011 e 2018, que se somou no meu pensamento sobre tudo isto. Se continuo a pensar que as questões relativas à subordinação do género gramatical feminino ao masculino ou o masculino genérico são questões estruturantes da expressão da desigualdade na língua, advogo que a crítica e transformação que temos a fazer ao léxico é intersecional. A língua portuguesa, tal como está, expressa machismo, classismo, racismo, idadismo, homofobia, incapacidade de se relacionar com a diversidade funcional. Pensemos em como se insulta, nas conotações de tantas palavras, ou como se usam, enquanto adjetivos, palavras como pobre, negro, infantil, velho ou deficiente. Como dizemos casal e esperamos que toda a gente adivinhe se o casal é hetero ou homossexual. A língua reflete também um pensamento binário que interessa desconstruir. Outro caminho ainda.

Lembre-se ainda como Saramago subverteu a norma, inovou a forma como se usa o ponto final ou a vírgula e, ora vejam lá, é o “nosso” Nobel. Dizia a Graça Castanho, linguista portuguesa e uma das minhas maravilhosas professoras de português, o seguinte: “E quanto ao resto da discussão, o uso fará a norma, como em todas as mudanças pelas quais a língua tem passado. Com o uso, o que nos parece estranho entranha-se e logo logo acostumamo-nos. Tão simples quanto isto.”

Exemplifico. Há uns anos, falava com a minha filha sobre a importância de uma linguagem inclusiva, disse-me ela:

-Opá mãe! Lá vens tu com as tuas coisas feministas!

Voltemos ao presente. Há um mês fomos ver juntas uma peça de teatro. Quando saímos, falávamos do que acabáramos de ver, nenhuma de nós tinha gostado muito (a mim irritava-me particularmente a visão política subjacente ao texto e à encenação), disse-me ela assim:

- Opá! Às tantas já não suportava “o Homem isto” e o “Homem aquilo”... perdi a paciência e deixei de ouvir. Uma vez vá que não vá, mais de três já não consigo…

Pois é. Tudo muda.

A mim parece-me até que daqui a cem anos o que será ridículo será a forma como utilizamos hoje a língua. Imagino facilmente uma conversa assim:

- Sabes que no século XXI as mulheres, cis e trans, tinham um “cartão de cidadão”?

- Não estou a perceber… não tinham um cartão de cidadã? Nem um cartão de cidadania que incluísse pessoas não binárias?

- Não.

- A sério?!?? Não acredito!!!! Incrível!

- Acredita. É verdade. Era o castigo invisível da língua.

(Lembrei-me agora: O castigo invisível da língua também dava um bom título.)

judite canha fernandes

Escritora, dramaturga e performer.


Notas

  1. ^ Não falo, claro, de reestruturações globais da língua como a revisão do acordo ortográfico. Estas, como era de esperar, provocaram intenso debate. 
  2. ^ O uso da expressão “velho do restelo” é aqui usada fora do seu contexto histórico, como símbolo de quem, em nome do bom senso, recusa aventuras incertas e defende que é preferível a tranquilidade duma vida acomodada à promessa de aventuras que se podem traduzir em desgraças. É também uma pequena provocação sobre esta coisa da língua raramente ser neutra. Se atentarmos à origem da expressão, pode pensar-se como se “os velhos do restelo”, independentemente da raiz das suas intenções políticas, tivessem ganho a discussão não haveria “descobrimentos” portugueses e o mundo, pode afirmar-se sem exagero, seria hoje outro. 
  3. ^ A Ana Cristina Santos escreveu, também neste mês, um artigo muito interessante sobre este mesmo tema. Está disponível aqui.

Termos relacionados Março Feminista, Sociedade
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