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A revolução e contra-revolução sudanesa

O país viveu um golpe militar. Mas os comités de resistência de bairro estão a opor-se e são agora a voz do povo, organizando protestos, fornecendo serviços e bens essenciais às populações, elegendo governos locais. Um exercício democrático que abre caminho para imaginar formas diferentes de governação. Por ​​Muzan Alneel.
Manifestação de apoio ao povo do Sudão em Londres. Foto de Steve Eason/Flickr.
Manifestação de apoio ao povo do Sudão em Londres. Foto de Steve Eason/Flickr.

Desde a assinatura do acordo de partilha de poder, em 2019, entre o exército sudanês e a coligação civil pró-democracia, as Forças para a Declaração da Liberdade e Mudança, que tinha perdurado um nível consistente de tensão entre as reivindicações da resistência, por um lado, e as políticas e decisões do governo de “partilha de poder”, por outro. A resistência – organizada em comités de resistência de bairro inicialmente encarregues de operações no terreno como a organização de protestos, a construção de barricadas e a distribuição de panfletos – evoluiu, ao longo dos últimos dois anos, até se tornar na voz política das ruas.

De facto, o trabalho dos comités de resistência levou a vários conflitos e protestos contra as políticas governamentais, desde o atraso nas investigações e julgamentos do massacre de junho de 2019, até às políticas económicas liberalizantes. Estes protestos começavam sempre com um apoio bem-educado, tranquilizador, ao Governo, seguido de uma menção às exigências dos manifestantes – uma estratégia implementada devido à mensagem do Governo e do bloco dominante que repetidamente afirmava que qualquer oposição ao governo levaria ao regresso do poder aos militares.

Nas semanas que antecederam o golpe, as tensões entre os militares e a coligação civil no Governo aumentaram. Os líderes militares fizeram discursos sobre o falhanço do governo civil, citando os impactos negativos das medidas de liberalização económica, que conduziram a um aumento de 150% no custo de vida só no último ano (vale a pena notar que o dirigente golpista, o general Abdel Fattah al-Burhan, iria, na sua primeira conferência de imprensa no dia a seguir ao golpe, apoiar essas mesmas políticas).

Quando estas tensões se manifestaram, os comités de resistência, os sindicatos e outros grupos começaram a preparar-se para o golpe, com alguns sindicatos a lançar pré-avisos de greve proativos para o caso do golpe se concretizar. Os comités de resistência apelaram e organizaram com sucesso uma Marcha dos Milhões em 21 de outubro, unindo-se sob o lema “abaixo a parceria de sangue”. Já era claro para eles, nesse momento, que o poder não podia ser partilhado e que uma parceria com os militares era uma parceria com criminosos que, assim sendo, comprometia a justiça.

Na manhã do dia 25 de outubro, Cartum, a capital sudanesa, acordou com sinais claros de golpe: o bloqueio de estações de rádio, a ausência de Internet, mais veículos armados nas ruas do que o habitual e rumores de que o primeiro-ministro e o seu governo tinham sido detidos. Nesse mesmo dia, o povo ocupou as ruas e construiu barricadas logo às seis da manhã, os pré-avisos de greve foram ativados e o país foi encerrado. No final do dia, quatro mártires tinham tombado às mãos do golpe militar. Este golpe endureceu as posições populares e dos comités de resistência contra os militares, potenciando o apelo à retirada completa dos militares da política. Este apelo, que era amplamente visto como radical e idealista até alguns dias antes do golpe, é agora a posição maioritária do povo sudanês.

Os comités de resistência lideram atualmente o movimento no terreno. Organizam os protestos, possibilitam a desobediência civil nos bairros, fornecendo serviços e bens essenciais às populações, e, em algumas áreas, até trabalham na eleição e nomeação de governos locais. Os comités estão também a colaborar para estabelecer reivindicações conjuntas. Este exercício abriu caminho a discussões revolucionárias que imaginam formas diferentes de governação e de construir uma constituição, ao mesmo tempo que permitem análises mais críticas desses cenários, exigências e imaginações. Os comités estão tão envolvidos em trabalho intelectual quanto nos protestos e na construção de barricadas.

Contudo, pode-se ver notícias sobre o Sudão nos meios de comunicação social regionais e internacionais sem ouvir falar acerca destes comités de resistência. Os meios de comunicação social não têm vontade nem são capazes de compreender e refletir sobre o seu papel real. Mas os comités e a sua organização foram o que impediu o golpe de ter sucesso e são a ferramenta principal que nós como povo sudanês gostaríamos de partilhar com os revolucionários de todo o mundo.

Os comités de resistência do Sudão estão unidos contra o golpe com uma posição – conhecida como “os três nãos” – contra os militares: “não a negociações, não a uma parceria, não a uma legitimação”. Os principais obstáculos à concretização destes slogans são os mediadores internacionais e outros que trabalham para restaurar a situação de partilha de poder de antes do golpe. As principais partes envolvidas na promoção de esforços de mediação incluem os Representante Especial do Secretário-Geral da ONU para o Sudão, bem como o Enviado Especial dos EUA para o Corno de África, que disse que a exigência de retirar os militares da política era irrealista. O enviado norte-americano também descreveu a reação militar violenta como tendo “exercido contenção”, apesar da morte de dezenas de manifestantes. Muitos homens de negócios sudaneses e atores regionais também têm estado envolvidos na promoção de uma mediação e de um novo compromisso.

Mas estes esforços têm sido publicamente rejeitados pelos comités de resistência, e em resultado disso, têm existido tentativas de controlar ou cooptar o seu trabalho revolucionário. Isto incluiu um convite recente do primeiro-ministro detido (agora já libertado) aos comités de resistência para o visitar para uma “atualização do status quo”. Os comités rejeitaram publicamente o convite, oferecendo-se, em alternativa, para organizar encontros públicos em que o primeiro-ministro poderia dirigir-se ao povo nas ruas. Para além disso, anunciaram que não estavam interessados em tais negociações e esforços de mediação. Esta rejeição da política das salas fechadas é uma novidade no Sudão – como estão a ser muitas das ações dos comités de resistência.

Nestas circunstâncias, deve ser sublinhado que o melhor apoio que a revolução sudanesa pode obter dos seus aliados internacionais é que rejeitem e combatam os esforços dos seus governos de forçar um governo de assassinos no Sudão por uma segunda vez. Perguntem onde e quando dinheiro o vosso Governo está a gastar no Sudão e rejeitem quaisquer esforços para um “compromisso” e outras formas de legitimar o governo militar.


Muzan Alneel é co-fundadora do ITSinaD-Sudão, Think Tank de Inovação, Ciência e Tecnologia para um Desenvolvimento Centrado no Povo e investigadora do Tahrir Institute for Middle East Policy.

Texto publicado no Africa is a Country. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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