Lisboa

Resistir é vencer, e a Zona Franca Nos Anjos quer sobreviver à especulação

11 de outubro 2024 - 10:14

Como muitas associações, a Zona Franca dos Anjos vê-se confrontada com o aumento das rendas no centro de Lisboa. Coletividade quer lutar contra o esvaziamento da cidade.

porDaniel Moura Borges

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Zona Franca dos Anjos
Fotografia de Patrícia Azevedo.

É um momento “difícil e triste”. Por volta das sete e meia da noite, cerca de trinta pessoas estão reunidas na Rua de Moçambique, número 42. São sócios, vizinhos, amigos e membros de coletividades solidárias com o que se está a passar na Zona Franca Nos Anjos: o despejo bateu à porta e está na hora de mais uma coletividade fechar.

É o desígnio de mais um espaço cultural que luta para não fechar naquela área. Há 12 anos, quando a Zona Franca surgiu, havia um ecossistema de associações e centros culturais que dinamizavam o centro de Lisboa. Agora, já foram os Amigos do Minho, o Sport Club Intendente, o Lusitano Clube, e muitos mais. E o mercado continua a empurrar para fora da cidade muitos outros: a Sociedade Musical Ordem e Progresso, Os Combatentes, o Arroz Estúdios, a Sirigaita e agora a Zona Franca Nos Anjos.

Numa cidade construída sobre o xadrez dos interesses imobiliários, cada vez há menos espaços para a comunidade. A Zona Franca, por exemplo, opera uma cantina social que serve de ponto de encontro social e cultural para os moradores do Bairro das Ex-Colónias. Mas cada vez mais os vizinhos são forçados a ir embora pelas subidas incomportáveis dos preços das rendas. O bairro fica mais vazio e esse vazio também se nota na Zona Franca Nos Anjos.

O despejo chegará em dezembro, quando o contrato terminar e não for renovado. A nova senhoria, que herdou o prédio, insiste que não há condições para continuar mesmo depois da coletividade ter proposto um aumento considerável da renda. “Para a minha mãe não era um negócio, mas para mim é”, foi a resposta que obtiveram.

Não resistir só...

Não podendo fechar os olhos ao movimento gentrificador que expulsa das cidades as pessoas e as comunidades, os sócios da Zona Franca decidiram não ir embora sem dar luta. “Queremos fazer barulho”, diz Patrícia Azevedo ao cada vez maior número de pessoas que vão chegando para a assembleia. A sócia e membro da coletividade não desanima, apesar de a situação ser cada vez mais complicada.

Com menos pessoas no bairro, que deram lugar a alojamento local e cafés de brunch, preencher turnos da cantina social e garantir a abertura da Zona Franca regularmente tem-se tornado um desafio. Mas juntar forças é uma das tarefas que se coloca neste momento. “Sozinhas isto vai fechar”, diz à assembleia. “Precisamos de perceber quem está connosco, quem vai para a guerra”.

Em frente, há um caminho para ser trilhado em conjunto. É preciso, por um lado, perceber como se resiste à pressão imobiliária da cidade, e se é possível mobilizar o bairro para que a Zona Franca Nos Anjos se mantenha no mesmo espaço. É preciso “juntar os coletivos para fazer a luta”, e nesse aspeto, a Zona Franca está já acompanhada. A Sirigaita, um pouco mais abaixo, na Rua Nos Anjos, está também em processo de despejo e tem ajudado a coletividade residente na Rua de Moçambique a preparar-se para o que aí vem.

Zona Franca dos Anjos no Tour das Coletividades
Fotografia de Patrícia Azevedo

Por outro lado, Patrícia explica que estão abertos à ideia de arranjar outro espaço, para que mesmo saindo daquela rua, a associação possa continuar a trabalhar e a dinamizar novos e velhos públicos na cidade de Lisboa. Mas com os atuais preços de arrendamento, não há muitas alternativas disponíveis.

“É preciso ver com a Junta de Freguesia e com a Câmara Municipal”, sugere alguém na assembleia, e as pessoas à sua volta desconcertam-se um pouco. A verdade é que ninguém vê a Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia de Arroios como solução para os problemas do mercado imobiliário, e mesmo quando estas arranjam espaços acessíveis para ceder a associações não os cedem a coletividades como a Zona Franca, que está intimamente ligada ao movimento pelo direito à habitação na cidade.

Apesar disso, Patrícia assume que a coletividade está disposta a procurar todas as vias para encontrar uma solução.

...e não só resistir

Sobreviver à especulação não significa só estar pronto para lutar pelas coletividades, arranjar soluções, alternativas ou caminhos de negociação. É preciso encontrar pessoas que “tenham vontade de trazer mais vida” para a Zona Franca Nos Anjos. Trabalhar, organizar, construir comunidade e cultura. Criar uma rede de solidariedade entre os moradores e as associações.

Foi isso que fez, por exemplo, o Largo Residências. A cooperativa que foi também expulsa do Largo do Intendente pela pressão do mercado, arranjou forma de se reinventar num novo centro cultural no Quartel Largo do Cabeço de Bola, e desde junho de 2024, nos jardins do antigo hospital Miguel Bombarda.

Contra a resignação de sobreviver, ânsia de viver e continuar a construir a cidade em conjunto. É também por isso que a Zona Franca Nos Anjos se reúne naquele preciso momento ali, em assembleia, para não só encontrar soluções de emergência, mas para fazer planos para o futuro.

Nesse sentido, a assembleia traz algum fôlego. Várias pessoas, desconhecidas ou velhas amigas, vão manifestando a sua vontade de ajudar. Ocupar turnos, propor programação, divulgar o espaço. E assim se percebe que a associação não está sozinha. É uma fagulha de esperança que pode começar algo maior.

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.