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Repressão dos protestos no Peru matou pelo menos 17 pessoas

Protestos no sul do país, de maioria aimara, reclamam a demissão da presidente Dina Boluarte e a convocação de eleições antecipadas. Esta segunda-feira, a polícia voltou responder com balas.
Bloqueio de estrada no sul do Peru esta semana. Foto Aldair Mejia/EPA

A destituição do presidente Pedro Castillo e a nomeação de Dina Boluarte para o seu lugar abriram uma fratura na sociedade peruana que não pára de crescer. No sul do país, o povo aimara não reconhece legitimidade à presidente indicada pelos parlamentares e reclama novas eleições numa greve ilimitada que teve início a 4 de janeiro. Nos últimos dias houve tentativas de ocupação do aeroporto, reprimidas com mnições reais pela polícia. Esta segunda-feira morreram pelo menos 17 pessoas durante os protestos na localidade de Juliaca, perto da fronteira com a Bolívia.

A Provedoria do Povo apelou às forças de segurança a fazerem "um uso legal, necessário e proporcional da força" e à Procuradoria para que investigue a repressão ocorrida na segunda-feira, que se junta à das últimas semanas e que já soma 45 mortes num mês. A repressão alastra a outras cidades onde também se realizam protestos na sequência das notícias sobre os massacres policiais.

Quem não parece incomodada com a situação é a presidente. "Protestos de quê, não se percebe o que estão a pedir (...) o que vocês querem é um pretexto para continuarem a gerar o caos", disse Dina Boluarte ao receber a notícia da primeira morte nos protestos de segunda-feira, quando estava reunida com o primeiro-ministro e a maioria dos governadores regionais. A reunião acabou suspensa quando chegaram notícias do avolumar de vítimas mortais em Juliaca.

A reação oficial coube ao primeiro-ministro Alberto Otaróla, que responsabilizou os manifestantes peo "ataque organizado, sistemático, de vandalismo e de organizações violentas contra o Estado de direito e as instituições". Otaróla, que era ministro da Defesa no mês passado quando morreram 28 pessoas nos protestos, chamou aos nove mil manifestantes "hordas de delinquentes" financiados por "dinheiros estrangeiros e obscuros do narcotráfico".

A referência ao "dinheiro estrangeiro" surge na sequência da proibição decretada na véspera da entrada no país do ex-presidente boliviano Evo Morales, defendida há muito pela maioria parlamentar da direita peruana. Morales era presença habitual na região de Puno, onde procura impulsionar o seu projeto Runasur, uma plataforma internacional de movimentos sociais e indígenas. "O único separatismo no Peru é causado pelo racismo, a exclsão e a discriminação dos grupos do poder em Lima contra o seu próprio povo", respondeu Morales, voltando a apelar a que "parem os massacres" no país.

Esta terça-feira, o governo de Otaróla preparava-se para se submeter a uma moção de confiança no Congresso dos Deputados. O porta-voz do Peru Livre, partido que apoiou Castillo na candidatura presidencial e que depois rompeu com o ex-presidente, defendeu a renúncia de Boluarte e o adiamento da votação, alegando que o Governo não se pode apresentar "sobre a presença de cadáveres". A direita acusou o Peru Livre de estar por detrás dos protestos para obrigar à formação de uma asssembleia constituinte. A proposta de suspender a sessão acabou rejeitada por 79 dos 118 deputados presentes.

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