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Relatório denuncia influência dos donos de gasodutos na política energética da UE

Quatro empresas europeias dominam o negócio dos gasodutos e exercem a sua influência nos corredores de Bruxelas para tornar a Europa refém dos combustíveis fósseis, denuncia o Observatório Corporate Europe.
Mapa dos gasodutos na Europa.
Mapa dos gasodutos na Europa. Imagem do Corporate Europe Observatory

“Quem detém todos os gasodutos?” é o título do relatório que expõe o poder e influência de quatro empresas cujos nomes não dirão muito à maioria dos europeus: a espanhola Enagás, a belga Fluxys, a francesa GRTgaz e a italiana Snam. Juntas, detém gasodutos com uma extensão que daria duas voltas e meia ao planeta, lucros superiores e dois mil milhões de euros, 75% dos quais distribuídos em dividendos aos acionistas — em primeiro lugar aos respetivos Estados, que ou detêm fatias importantes do capital ou participações reduzidas com direito de veto, mas também a fundos de investimento como o Blackrock, o Goldman Sachs ou o Lazard. No caso da Fluxys, os dividendos distribuídos ultrapassaram mesmo os lucros obtidos (160%).

O relatório do Corporate Europe destaca a influência política deste grupo de empresas junto dos decisores europeus, equiparável à de outras com nomes mais sonantes, como a Shell, Total ou BP. Os 900 mil euros gastos em lóbi em Bruxelas no ano passado valeram o acesso a 50 reuniões com altos responsáveis da Comissão para discutir os seus projetos de gasodutos. Se lhe juntarmos outros lóbistas ligados ao negócio do gás, a despesa com essa influência ascendeu aos 3 milhões de euros, uma conta muito barata comparada com os lucros obtidos no mesmo ano, mas que ajuda a explicar a razão que faz a UE continuar a construir novos gasodutos e terminais ao arrepio das metas definidas para evitar a catástrofe climática.

Um desses grupos de lóbi foi criado pela própria União Europeia — a Rede Europeia de Operadores de Sistemas de Transmissão de Gás (ENTSO-G). Um grupo composto por empresas do setor, a quem a UE encomenda estudos e projeções sobre a procura de gás no futuro. Números que são sempre convenientemente sobrestimados, aponta o Observatório. Projetos como o MidCat, o gasoduto Transadriático ou os terminais da Fluxys custaram 1.300 milhões de euros em dinheiros públicos e há uma nova lista com mais de cem de projetos na forja para serem apresentados este ano, apesar de o discurso europeu apontar para o abandono progressivo dos combustíveis fósseis.

Os líderes destas empresas são mais um exemplo das portas giratórias entre política e negócios. À frente da Enagás encontramos um ex-eurodeputado do PP e filho de um antigo ministro do Interior, Marcelino Oreja Arburúa, como CEO. O presidente é Antonio Carratalá, antigo ministro do PSOE. Na Fluxys, o presidente é Daniël Termont, ex-dirigente dos socialistas flamengos que liderou a autarquia de Ghent até este ano. E na GRTgaz, o CEO é um antigo diretor da agência francesa de regulação de energia.

Para além do impacto da construção dos gasodutos, a extração de gás é prejudicial ao clima, já que o chamado “gás natural” é composto por metano, que é 100 vezes mais potente do que o CO2 num período de dez anos, aponta o Observatório. As quantidades de gás libertado para a atmosfera durante a extração, sobretudo quando usada a técnica do fracking, tornam o gás tão mau ou pior que o carvão no que toca ao impacto climático.

Pressionadas pelos fundos financeiros para apresentarem dividendos cada vez maiores, estas empresas não têm nenhum interesse em cumprir as metas da transição energética necessária. Por isso, em vez de prepararem a queda na produção, o desmantelamento da infraestrutura e a transição dos seus trabalhadores para outra atividade, estas empresas “arranjam novas desculpas para manterem a sua infraestrutura em atividade”, acusa o Observatório, descrevendo “falsas soluções” tecnológicas como o chamado “gás renovável” ou a “captura e armazenamento de carbono”. Afirmam que assim vão cumprir as metas de descarbonização em 2050, mas enquanto se espera pela concretização desses milagres tecnológicos continuam a receber fundos públicos para manterem e alargarem a produção. Ao mesmo tempo, há empresas que chegam mesmo a processar estados, reclamando indemnizações pelos lucros futuros perdidos por causa da legislação que protege o ambiente. É o caso da holandesa Uniper (antiga E.ON) ou da alemã UWE, que processaram o estado alemão por ter decidido acabar com as centrais nucleares.

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