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Relato de uma visita à Alhandra operária e antifascista

No passado dia 5 de Novembro realizou-se uma visita a Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, e aos locais evocativos da sua história operária e antifascista. Memórias que visitas como esta pretendem reactivar e mobilizar para as lutas do presente. Por Carolina Mourão.
Foto de Carolina Mourão.

À chegada, vimo-nos imersos na paisagem industrial que ainda caracteriza a vila. Próximos da Estação da CP e à sombra dos silos e chaminés da CIMPOR (antiga Cimento Tejo), Gil Gonçalves começa por apresentar um breve enquadramento das transformações radicais que a industrialização deste território despoletou. Afinal, uma vila iminentemente dedicada à agricultura e à faina fluvial transforma-se, a partir do final do século XIX, numa comunidade de operários e operárias, sobretudo da indústria têxtil e dos cimentos. A proximidade a importantes artérias de comunicação (Rio Tejo, caminhos-de-ferro e, posteriormente, EN10 e Auto-estrada do Norte) foi determinante para a fixação e desenvolvimento dessas indústrias, que trouxeram consigo novos anseios e reivindicações.

O primeiro local que visitámos foi o Bairro da CIMPOR, construído entre 1936 e 1937, num período em que a gestão da cimenteira por parte de Henrique Sommer e, posteriormente, António Champalimaud, precipitou um conjunto de obras tendentes à melhoria das condições de vida dos operários, mas também à sua fixação e controlo. Exemplo paradigmático do paternalismo patronal estado-novista, o bairro reproduz em ambiente industrial o ideal de vida sadia propalado pelo regime, recriando uma aldeia típica portuguesa através de moradias desenhadas segundo o cânone da chamada “arquitectura popular”, dispostas em torno de pequenas praças com fontanários. A sua disposição mimetizava as hierarquias laborais, separando encarregados de operários e contrastando com as vivendas destinadas aos directores e engenheiros.

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Neste momento contamos também com os testemunhos de Gabriel Peniche e João Padinha, antigos operários da Cimento Tejo, sendo este último ainda residente no bairro. Partilham connosco memórias da vida e do trabalho na fábrica ao longo de boa parte do século XX, descrevendo a natureza do trabalho da cimenteira e a dureza das condições laborais dos seus operários. É também através deles que percebemos que o bairro oferecia aos seus habitantes cuidados de saúde, recreio e formação. Na Casa do Pessoal eram ministradas aulas de ginástica aos filhos e filhas dos operários, organizavam-se festas, sessões de cinema e conferências, promovendo-se ainda a leitura através da biblioteca.

João Padinha brindou-nos ainda com uma visita ao seu “Museu”, onde estão reunidos vários trabalhos em madeira da sua autoria, nomeadamente uma colecção notável de miniaturas de embarcações varinas e avieiras características do Rio Tejo.

De seguida, cruzando a linha do comboio, chegamos à Praça 8 de Maio de 1944, evocativa da greve e da Marcha da Fome que teve lugar nessa data e que marcou de forma indelével a história da resistência antifascista no Baixo Ribatejo. No local onde se situava a antiga portaria da Cimento Tejo, operários e operárias da cimenteira, da Fábrica da Juta e da Penteação de Lãs reuniram-se, abandonando o trabalho e formando uma manifestação que se destinava à sede do concelho sob a palavra de ordem “Queremos Pão! Temos Fome!”. Caminhava-se para o fim da Segunda Guerra Mundial e a falta de géneros essenciais, a subida dos preços e a redução dos salários empurrava boa parte da população da região para uma situação de miséria. O racionamento do pão, decretado em Abril, deu o mote.

A essa conjuntura somava-se um sentimento de injustiça exacerbado pelo envio de “sobras” para apoiar o esforço de guerra das forças do Eixo. Acreditava-se que a derrota internacional dos fascismos ditaria também a queda do regime de Salazar, abrindo-se novos horizontes e esperanças. Contudo, a repressão não se fez esperar. Cercados pelas forças da GNR, muitos dos manifestantes acabaram encarcerados na Praça de Touros de Vila Franca, onde permaneceram durante 24 horas. Aqueles identificados pela PVDE como os principais agitadores seguiram para o Campo Pequeno, onde estavam também grevistas de outros pontos da região que aderiram ao apelo, tendo muitos seguido para Caxias, onde permaneceram largos meses, sujeitos a sevícias de toda a sorte.

É Antónia Balsinha, autora de várias obras sobre a história de Alhandra e dos alhandrenses, que nos guia, a par e passo, pelos vários momentos dessa impressiva e audaz jornada de luta, destacando o papel muitas vezes menorizado das mulheres operárias na organização e condução dos acontecimentos. Destacando-se o perfil de Georgette Ferreira, que viria a tornar-se dirigente no PCP nos anos subsequentes (juntamente com suas irmãs Sofia e Mercedes), foram várias as mulheres que empunharam as bandeiras negras da fome e que pagaram o preço com a prisão ou com o despedimento compulsivo. Outras, não tendo participado na greve, solidarizaram-se com os detidos, exigindo a sua libertação ou fornecendo-lhes mantimentos. Todas elas foram recordadas, por nome, numa homenagem comovente.

Gil lembra ainda que a greve se dá num contexto de reorganização do PCP que reforçou de sobremaneira a organização regional do Baixo Ribatejo. A isso não será alheio o facto de muitos dos reorganizadores se reunirem na região (vejam-se os célebres “Passeios no Tejo”) ou aí militarem, como Alves Redol, Carlos Pato, Dias Lourenço, Alfredo Diniz (Alex) ou Soeiro Pereira Gomes - todos eles envolvidos na campanha de agitação que culminou na greve, que apenas contou com uma adesão significativa no eixo industrial de Vila Franca de Xira, estendendo-se até à Azambuja.

Trata-se, além disso, de um episódio que ocupa um lugar simbólico destacado no imaginário comunista por ter sido uma das raras ocasiões em que operários e assalariados rurais se uniram em torno de uma causa comum. É significativo que a obra de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal), Até Amanhã Camaradas, se inspire nestes episódios.

A visita prossegue, passando pelo edifício que albergou o Teatro Thália (1865), inaugurado por iniciativa do dramaturgo Salvador Marques, um dos primeiros dinamizadores da cultura na vila.

Chegamos depois àquela que foi a última residência do escritor neo-realista Soeiro Pereira Gomes em Alhandra, tendo este dado o “salto” para a clandestinidade no seguimento do seu papel destacado na organização da greve. A história da rusga da polícia política à casa, bem como do acossamento de que Manuela Câncio Reis, sua mulher, foi objecto é relatado de forma pungente no livro Eles Vieram de Madrugada…, da autoria da própria.

O grupo chega depois à “sala de visitas” da vila, a Praça 7 de Março, assim baptizada em honra do Dr. Sousa Martins, célebre médico responsável pelo desenvolvimento de tratamentos inovadores para a tuberculose e que se tornou num “santo laico” em virtude da sua generosidade para com os mais destituídos, aos quais oferecia consultas e medicamentos. Uma devoção popular que chega até hoje e que é visível tanto nas romarias ao seu jazigo em Alhandra como nos ex-votos depositados aos pés da sua estátua no Campo Mártires da Pátria, em Lisboa.

A praça alberga ainda o mercado, o antigo Centro Republicano (que nos lembra que a tradição contestatária destas gentes remonta à monarquia) e o Clube Recreativo Alhandrense, onde a burguesia da vila organizava os seus convívios.

Percorrendo a Avenida Sousa Martins, chegamos à casa na qual este nasceu e que hoje alberga o Museu de Alhandra, onde alguns aproveitaram para adquirir a obra de Antónia Balsinha, Mulheres na Resistência em Alhandra – anos 40 do século XX. Do outro lado da rua subsistem as fachadas de antigas fábricas de descasque de arroz e, ao fundo, Alhandra abre-se ao rio, destacando-se o Cais que foi durante décadas foi um fervilhante entreposto comercial.

É neste cenário ribeirinho que Gil aproveita para aludir a outro episódio marcante para a formação política dos alhandrenses – o ciclone de 15 de Fevereiro de 1941. Surpreendidos pela tempestade, muitos trabalhadores da lezíria e dos mouchões, impossibilitados de fugir, perderam a vida. A falta de socorro levou Pereira Gomes e o fragateiro Pedro Cavaco a rumarem a Lisboa para conseguirem auxílio de embarcações para o resgate. O seu abnegado auxílio às vítimas do desastre muito sensibilizou os alhandrenses, ficando também evidentes os riscos daquele trabalho e a inépcia da resposta à tragédia por parte das autoridades do regime.

Seguindo pelo passeio ribeirinho, chegamos até à Praça Soeiro Pereira Gomes. Nela encontramos a Sociedade Euterpe Alhandrense (1862), a mais antiga colectividade do concelho. Tendo sido fundada por sectores monárquicos, acabaria por ser disputada por grupos republicanos e depois pela oposição ao regime. Ao fundo, deparamo-nos com o devoluto Teatro Salvador Marques (1905), dinamizado por Francisco Filipe dos Reis - republicano, sogro de Pereira Gomes e pai de Manuela Câncio Reis. Foi aqui que se estrearam algumas das revistas que trariam a Manuela fama nacional, algumas delas escritas a meias com Pereira Gomes.

Mas é sobre esse homem que, vindo de Gestaçô e tendo passado apenas alguns anos em Alhandra, tanto marcou as suas gentes e tanto se deixou marcar por elas. Gil recorda o trabalho desenvolvido por Pereira Gomes no seio das colectividades locais no sentido de fazer a cultura abandonar os lugares de cânone, trazendo-a para o seio de uma população que a ela não tinha acesso. Foi por sua iniciativa que se instalaram bibliotecas na Euterpe e no Alhandra Sporting Clube, que se realizaram conferências com a presença de intelectuais ilustres e que se organizaram cursos de alfabetização. Destaca-se ainda o papel dinamizador de Pereira Gomes na criação de uma piscina para o ASC, iniciativa apoiada com entusiasmo pelos alhandrenses.

Foi essa presença poliédrica na sociedade alhandrense que justificou que se lhe consagrasse este jardim, bem como o monumento dedicado, tal como a sua emblemática obra Esteiros, “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”. A sua obra, exemplar na corrente neo-realista por se focar na realidade industrial ao invés da rural, é um relato pungente da história da vila nas décadas de 1930 e 1940.

Bem representativo do carinho que os alhandrenses lhe dedicam foi o testemunho de Maria da Piedade Vale, antiga operária na Penteação de Lãs, acerca da passagem do cortejo fúnebre pela vila em 1949, cinco anos depois da sua passagem à clandestinidade. Lembra-se do mar de gente que lhe prestou essa muda homenagem e que lhe apresentou a história desse homem “importante e bom”. De resto, a memória dessa última homenagem dos alhandrenses está inscrita na parede da Euterpe, que eterniza o texto que circulou à época de mão em mão, da autoria de Severiano Falcão.

Seguindo pela margem do rio, deparamo-nos com um mural honrando a memória de Baptista Pereira, eternizado por Pereira Gomes como o Gineto de Esteiros. Veio a ser um dos primeiros beneficiários da piscina do ASC, tornando-se num dos melhores nadadores de todos os tempos e, de forma emblemática, recordista da travessia da Mancha. A par dos feitos desportivos, assumiu também posturas políticas audazes. Numa prova em Tenerife, em 1949, cerra o punho perante uma imagem de Franco enquanto os seus congéneres fazem a saudação nazi. O gesto valeu-lhe a irradiação do desporto, apenas revertida por pressão popular e das instituições que representava. Militante comunista, dedicou-se ainda à distribuição do jornal Avante!

Não muito distante vemos a casa que Pereira Gomes habitou enquanto escreveu os Esteiros. A vista privilegiada desse primeiro andar sobre os telhais permitiu-lhe uma análise profunda desse duro trabalho onde todos os Verões tantas crianças perderam a sua infância. O lugar que estes ocupavam e onde viveram também comunidade avieiras é hoje o Bairro dos Pescadores. Ainda assim, a memória desses tempos não tão distantes é reactivada pela presença do “engenho”. É Gabriel Peniche quem nos guia pelas várias etapas do processo fabrico de telhas e tijolos que aqui teve lugar, até se ter tornado obsoleto pela chegada da telha francesa e de meios mais modernos de produção.

A caminho do restaurante, na sede do Alhandra Sporting Clube, passamos ainda pelas placas que indicam o nível das cheias que tiveram lugar na madrugada de 25 de Novembro de 1967. Perante a incapacidade de resposta das autoridades do regime, mais preocupadas em esconder a real dimensão da tragédia do que em socorrer as vítimas, foram os estudantes universitários que formaram as brigadas de limpeza de ruas e casas, bem como de apoio médico às populações atingidas. Para muitos deles, foi o primeiro contacto com a miséria em que vivia boa parte do país, algo que acabou por alargar e radicalizar as reivindicações do movimento estudantil nos anos seguintes.

Findo o almoço, e depois de Gabriel Peniche ainda nos ter brindado com a interpretação de dois fados, um deles com versos escritos por Pereira Gomes, regressámos ao autocarro em direcção ao Museu do Neo-Realismo. Percorrendo parte do itinerário da Marcha da Fome, passámos pela Praça de Touros onde os grevistas foram detidos.

À chegada, encaminhámo-nos para o auditório onde assistimos ao filme Ecos da Vermelha, realizado por Bruno Teixeira. O filme aborda, de forma microscópica, as diferentes facetas da resistência antifascista na freguesia de Vila Franca de Xira, desde os grupos comunistas aos católicos progressistas. Destaca-se a importância das colectividades, organismos de juventude e mesmo de casas particulares no longo processo de disputa da hegemonia cultural do regime, que acabou mesmo por atribuir à vila o epiteto de “A Vermelha”.

O debate contou com a presença do realizador e de Eduarda Nobre, Carlos Cruz, Zeca Capucha e Xico Braga. Em discussão animada, percebemos o quão vívidas e disputadas são as memórias daqueles que foram parte activa nestas lutas. Memórias que visitas como esta pretendem reactivar e mobilizar para as lutas do presente.


Artigo publicado em Abril é Agora.

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