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Reino Unido: uma crise parlamentar sem solução parlamentar

O atoleiro do mainstream, patente nas peripécias parlamentares em torno do Brexit na semana passada, não consegue ocultar que a política é mais que o que se passa em Westminster. Por Lindsey German/Counterfire.
Manifestação contra os conservadores por ocasião do congresso do partido em Manchester, 29 de setembro de 2019. Foto: People's Assembly Against Austerity/Facebook.
Manifestação contra os conservadores por ocasião do congresso do partido em Manchester, 29 de setembro de 2019. Foto: People's Assembly Against Austerity/Facebook.

Olhando para o ruído e fúria sem qualquer significado no parlamento, salta à vista que os deputados não têm solução para a crise que enfrentamos. A semana passada demonstrou as possibilidades e perigos da atual situação política na Grã-Bretanha. Esta semana pode ser a hora da verdade para decidir se a esquerda avança ou se o comportamento lastimável dos Conservadores continua a ser recompensado com a permanência no poder. As possibilidades tornaram-se mais claras no congresso do Labour, onde os delegados traçaram o caminho rumo a uma sociedade melhor, aprovando moções que defendem uma revolução industrial verde, a construção de habitação pública, desafiar o poder das grandes farmacêuticas, ou rejeitar a discriminação racial e as restrições à imigração.

Jeremy Corbyn conseguiu superar os problemas do caso do deputy leader [NT: Tom Watson, principal adversário interno de Corbyn, foi alvo na véspera do congresso de uma manobra interna para o destituir que falhou, oferecendo-lhe motivos de vitimização e embaraçando Corbyn] e das demissões na sua equipa, que o prejudicaram no início do congresso, e emergir com espaço para um programa forte de esquerda, ao mesmo tempo que derrotou confortavelmente a ratoeira de transformar o Labour num partido totalmente alinhado com o Remain. O desafio que lançou a Boris Johnson no rescaldo da derrota judicial deste foi um poderoso apelo à luta.

A decisão do Supremo Tribunal contra a suspensão do Parlamento foi um golpe para os Conservadores, que estes decidiram ignorar — e poderão voltar a fazê-lo em futuras ações judiciais. Será necessário um desafio político para os derrubar, mas não há força suficiente no Parlamento para isso. Tão pouco devemos ter ilusões quanto ao papel dos juízes, que utilizarão sem dúvida os seus poderes contra um governo de esquerda para impedir nacionalizações, a abolição de escolas privadas, ou quaisquer outras medidas que desafiem o poder do capital.

Os perigos vêm dos setores que não tencionam deixar Corbyn chegar ao poder, e que lutarão por todos os meios para o deter. No cima desta lista encontramos o próprio Johnson e o seu cúmplice de malfeitorias Dominic Cummings [NT: conselheiro de Boris Johnson visto como o seu principal estratega político]. A reação de Johnson à decisão do Supremo Tribunal de considerar ilegal a suspensão do parlamento foi por um lado assombrosa, mas ao mesmo tempo completamente calculada: foi à vez abusivo e provocador, acusando o parlamento e os tribunais de frustrarem a vontade popular.

Johnson ignora convenientemente o facto de que, como é evidente, os primeiros culpados pelos atrasos no Brexit são os próprios Conservadores, que tinham maioria em 2016. A sua linguagem tem sido deliberadamente agressiva e crispada, pois tanto ele como Cummings calculam que esse registo vai cair bem entre os votantes no Leave, captar os votos do Brexit Party, e recuperar uma maioria nas próximas eleições, colando os trabalhistas à imagem de um partido do establishment alinhado com o Remain.

Ao seguir esta via, à imagem de Donald Trump, Johnson está disposto a usar a linguagem mais inflamada possível, que só pode ajudar a direita, incluindo a extrema-direita, e aumentar as enormes divisões e tensões existentes em torno do Brexit.

Mas a verdadeira questão é: como derrotar Boris Johnson? Todos os sinais vindos do parlamento nos últimos dias mostram que os deputados no seu todo não fazem ideia de como o conseguir.

Por mais reprovável que seja o comportamento e linguagem de Johnson, a resposta não passa por concentrar a mira nas suas artimanhas anti-parlamentares. Compreender isto é particularmente importante num momento em que os deputados e o parlamento são tão impopulares, e vistos por amplos setores da população como tendo falhado em resolver o Brexit.

Incrivelmente, muitos deputados e deputadas na semana passada decidiram centrar o debate em si mesmos. É verdade que o discurso político se tornou muito mais desagradável nos últimos anos, por vezes perigoso, e que alguns parlamentares têm sido alvo de ameaças e violência, especialmente mulheres. Todos temos na memória a deputada trabalhista Jo Cox, morta durante a campanha do referendo de 2016 por um nazi.

Mas devemos igualmente ser céticos quanto a fazer da linguagem abusiva o tema central. Muitos sofrem ameaças bem piores que as que enfrentam os deputados, incluindo ameaças racistas e fascistas, e não têm o privilégio nem a proteção que a posição de deputado oferece. Além disso, é difícil de ignorar que grande parte dos abusos dirigidos contra Jeremy Corbyn, ou os ataques inacreditáveis contra Diane Abbott [NT: ministra-sombra da administração interna, aliada de Corbyn, histórica militante do movimento anti-racista], vieram das suas próprias fileiras parlamentares. Afinal de contas, foi Jess Phillips quem disse que "esfaquearia Corbyn pela frente" e que abusou de Abbott numa reunião do grupo parlamentar trabalhista; e foi Margaret Hodge [NT: ambas deputadas trabalhistas] quem chamou Corbyn de "maldito anti-semita" e racista.

O perigo é que apostar neste tipo de argumentos joga apenas a favor de Johnson. Joga também a favor dos elementos de outros partidos que não têm qualquer interesse em ajudar à constituição de um governo trabalhista, e pelo contrário têm todo interesse em impedi-lo. É hoje bastante claro que as únicas forças que não querem uma moção de censura contra Johnson, além do seu próprio partido, são os LibDems e o saco de gatos do Change UK e dos ex-deputados conservadores e trabalhistas agora sem bancada, que odeiam o Labour muito mais que os Conservadores.

Danos

Nunca devemos esquecer que uma das principais razões por que a política britânica está num tal impasse é que os partidos além do Labour, e boa parte do próprio Labour, temem acima de tudo a hipótese de um governo de Corbyn, e tudo farão para o impedir.

O Partido Nacional Escocês pediu, corretamente, uma moção de censura esta semana para que um governo interino liderado por Corbyn proceda a eleições em novembro. O partido argumenta que nenhuma outra via impedirá Johnson de desafiar as restrições legais e enveredar por um Brexit sem acordo. Jo Swinson, a líder dos LibDems, recusou a proposta, mas é altura de desmascarar o seu bluff. Se os LibDems se recusarem a derrubar Johnson, perderão apoio nas urnas e merecidamente.

Sei que muitos trabalhistas temem uma eleição por causa das sondagens adversas. Na minha opinião, é impossível prever o resultado de uma eleição. O sistema first past the post [NT: sistema de círculos uninominais onde o vencedor em cada círculo é o partido com mais votos, independentemente da percentagem que tiver ou da diferença para outros partidos] é muito difícil de ler quando há quatro partidos com um número significativo de votos. Johnson pode conseguir reunir um voto pró-Leave suficiente para lhe permitir voltar ao poder. Mas isso depende muito do que suceda numa eleição, e do ponto a que os eleitores levem em conta outras questões além do Brexit na hora de votar.

O Labour de Jeremy Corbyn tem de sair para a rua e lutar pelas suas políticas, a mais recente das quais é a promessa imensamente popular de acabar com o Crédito Universal [NT: medida de David Cameron que unificou subsídios de desemprego, habitação e outras prestações sociais num só pagamento, e se tornou num símbolo das políticas de austeridade]. Temo que a promessa de um segundo referendo prejudique os trabalhistas, mas o discurso de construir pontes entre os dois lados do Brexit é sem dúvida a abordagem certa. O perigo é que Corbyn e o Labour sejam vistos como querendo primeiro que tudo facilitar o Remain, e em segundo lugar arrastar o processo através de outro voto no Remain ou Leave. Claramente, a vontade de muitos eleitores — qualquer que seja a sua preferência — é despachar o assunto e passar para outras questões.

Abordagens

O Labour não se pode deixar aprisionar na perceção de que quer arrastar o processo do Brexit para facilitar o Remain. Tendo dito isto, ninguém sabe ao certo de que forma as questões de classe começarão a emergir no atual impasse. Os Conservadores estão a dar o seu melhor para esvaziar um ataque trabalhista contra a austeridade, com promessas repetidas de investimento no sistema de saúde e nas escolas. Mas uma campanha forte pela esquerda pode contrabalançar esta manobra e colocar outros assuntos na agenda.

A via eleitoral é o caminho que o Labour deve seguir. Há um perigo de que as pressões para um governo de unidade nacional o descarrilem e mantenham o debate confinado às paredes de Westminster e Whitehall [NT: parlamento e governo]. Os derrotados nessa situação serão a esquerda e Corbyn, cuja única salvação reside na mobilização extra-parlamentar.

A manifestação em Manchester este fim de semana frente ao congresso do partido Conservador, convocada pela Assembleia Popular contra a Austeridade, foi uma mobilização encorajadora contra tudo o que Boris Johnson representa. Houve muitas faixas sindicais, contingentes do Partido Trabalhista, estudantes, gente de todas as idades e origens. O ambiente político no terreno é completamente diferente do que se vê refletido na imprensa mainstream. As pessoas mostram-se dispostas a lutar e conscientes da seriedade da luta que vem a caminho com as eleições.

Foi inspirador ouvir as vozes de grevistas do Noroeste do país, ou o representante da CWU falar sobre o voto de greve do seu sindicato [NT: Communication Workers Union, sindicato das telecomunicações; no Reino Unido, a convocação de greve está sujeita a um voto dos trabalhadores]. Tenho esperança de que esta dinâmica política apele aos eleitores. Consiga-o ou não, os trabalhadores e trabalhadoras não estão dispostos a sofrer os ataques conservadores sem dar resposta.

Lindsey German, como coordenadora nacional da Stop the War Coalition, ajudou a organizar a maior manifestação, e um dos maiores movimentos de massa, na história do Reino Unido. Entre os seu livros conta-se "Material Girls: Women, Men and Work", "Sex, Class and Socialism", "A People’s History of London" (com John Rees) e "How a Century of War Changed the Lives of Women".

Artigo original publicado em Counterfire. Tradução para esquerda.net de José Borges Reis.

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