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A reafirmação do repúdio das dívidas é bem sucedida

A partir de 1926, apesar do repúdio das dívidas, os bancos privados europeus e os governos começaram a conceder empréstimos à URSS. Por Eric Toussaint
El Lissitsky, “Beat the Whites with the Red Wedge”, 1919
El Lissitsky, “Beat the Whites with the Red Wedge”, 1919

Antes do início da Conferência de Génova, a Rússia soviética conseguiu assinar tratados bilaterais com a Polónia, as repúblicas bálticas, a Turquia, a Pérsia … Além disso conseguiu estabelecer um acordo comercial com a Grã-Bretanha. Esse acordo, assinado em 1922, validava as leis soviéticas de nacionalização aos olhos dos tribunais britânicos, impedindo que as empresas que transacionavam com a Rússia fossem molestadas.1

Durante a Conferência de Génova, a Rússia também foi bem sucedida na assinatura de um tratado com a Alemanha, graças ao qual ambas as partes renunciaram a ser ressarcidas.

Seria de esperar que o malogro da Conferência de Génova e da de Haia levassem a um endurecimento da posição das potências capitalistas em relação a Moscovo. Na realidade sucedeu o contrário. Não restam dúvidas de que o Governo soviético calculou bem. Os vários países capitalistas, cada qual por si, estimou que mais valia estabelecer acordos com Moscovo, já que o mercado russo oferecia um grande potencial, assim como os recursos naturais do país. Cada capital, sob pressão das empresas privadas locais, quis assinar acordos com Moscovo, a fim de impedir que as outras potências tirassem partido do mercado russo.

Em 1923-1924, apesar do malogro da Conferência de Génova, o Governo dos Sovietes foi reconhecido de jure pela Inglaterra, Itália, países escandinavos, França, Grécia, China e mais uns quantos países. Em 1925 juntou-se-lhes o Japão.

Paris reduziu fortemente as suas exigências. Em França, um decreto datado de 29 de julho de 1920 já tinha criado uma comissão especial para liquidar os negócios russos, tendo por missão “liquidar e recuperar todos os fundos do antigo Estado russo, qualquer que seja a sua origem”. Seis dias antes do reconhecimento do Governo dos Sovietes, a 24 de outubro de 1924, o Governo francês dissolveu essa comissão. Uma verdadeira vitória para Moscovo.

Alguns meses antes, o Governo trabalhista britânico tinha assinado um acordo com a URSS, segundo o qual os Britânicos aceitavam as reclamações soviéticas relativas aos danos causados pela intervenção britânica na guerra civil entre 1918 e 1920.2 No entanto Lloyd George tinha declarado em Génova que isso era impensável. O Governo britânico prometia ainda conceder, sob determinadas condições, garantias para a emissão de um empréstimo aos soviéticos no mercado financeiro de Londres.

Dois anos passados sobre o falhanço da Conferência de Génova, e ao mesmo tempo que a URSS mantinha o repúdio das dívidas, o Governo britânico prestava-se a dar a sua garantia para um empréstimo aos soviéticos! Daí que o dirigente soviético Kamenev tenha escrito no Pravda de 24/09/1924: “O tratado com a Inglaterra constitui uma base efetiva para o reconhecimento expresso da nossa nacionalização da terra e das empresas, para o repúdio das dívidas e todas as outras consequências da nossa revolução.”3

Por fim, quando os conservadores britânicos regressaram ao poder, daí a uns meses, recusaram ratificar esse tratado, mas apesar disso uma empresa britânica importante empenhou-se em investir nas minas de ouro, renunciando oficialmente a qualquer pedido de indemnização pela nacionalização que tinha sofrido em 1918.

A partir de 1926, apesar do repúdio das dívidas, os bancos privados europeus e os governos começaram a conceder empréstimos à URSS

A 26 de junho de 1926 a URSS assinou um acordo de crédito com os bancos alemães. Em março de 1927 foi a vez do banco Midland de Londres conceder um crédito de 10 milhões de libras.

Em outubro de 1927 o município de Viena concedeu um crédito de 100 milhões de xelins. Em 1929 a Noruega cedeu um crédito de 20 milhões de coroas.

Os dirigentes republicanos dos EUA espumavam. O secretário de Estado Kellogg denunciou a atitude conciliadora dos europeus, no seu discurso de 14 de abril de 1928, perante a Comissão Nacional Republicana: “Nenhum Estado foi capaz de obter o pagamento das dívidas contraídas pela Rússia sob os governos precedentes, ou de ressarcir os seus cidadãos pelas propriedades confiscadas. Tudo leva a crer que o reconhecimento dos Sovietes e a abertura de negociações irão encorajar os atuais senhores da Rússia a prosseguir a política de repúdio e confisco …”4

Por fim, os EUA, em novembro de 1933, sob a presidência de F. Roosevelt, reconheceram de jure a URSS. A 13 de fevereiro de 1934, o Governo dos EUA criou o Export and Import Bank, a fim de financiar o comércio com a União Soviética. Alguns meses mais tarde, a França, para não se ver excluída do mercado soviético, propôs por sua própria iniciativa a concessão de crédito à URSS, para que esta pudesse comprar produtos franceses.

Alexander Sack, opositor ao repúdio das dívidas e ferozmente anti-soviético, fecha o seu estudo sobre as reclamações diplomáticas contra os soviéticos com frases que indicam claramente que é possível repudiar dívidas sem ser votado ao isolamento e ao fracasso, antes pelo contrário:

“Por ocasião do vigésimo aniversário do regime soviético, as reclamações estrangeiras que lhe eram dirigidas mostram-se tristemente petrificadas, senão abandonadas. A União Soviética gaba-se de ser atualmente um dos países mais industrializados; apresenta uma balança comercial positiva; ocupa o segundo lugar na lista mundial de produtores de ouro. O seu Governo é hoje em dia universalmente reconhecido e são-lhe concedidos créditos comerciais, se assim o desejar. Apesar disso, a União não reconheceu nem pagou nenhuma das dívidas resultantes dos seus decretos de repúdio, de confisco e de nacionalização.”5

Tradução de Rui Viana Pereira

Artigo de Éric Toussaint, publicado em cadtm.org. Faz parte da série: Centenário da Revolução russa e do repúdio das dívidas:

Parte 1 : Rússia: O repúdio das dívidas no cerne das revoluções de 1905 e 1917
Parte 2 : Centenário da Revolução russa e do repúdio das dívidas (link is external)
Parte 3 : A revolução russa, o repúdio das dívidas, a guerra e a paz
Parte 4 : A revolução russa, o direito dos povos à autodeterminação e o repúdio das dívidas
Parte 5 : A imprensa francesa a soldo do czar
Parte 6 : Os títulos de dívida russos após o repúdio
Parte 7 : O jogo diplomático à volta do repúdio das dívidas russas
Parte 8 : Em 1922, nova tentativa de submissão dos sovietes às potências credoras
Parte 9: O contra-ataque soviético: o Tratado de Rapallo de 1922
Parte 10. Em Génova (1922), as contra-propostas soviéticas face às imposições das potências credoras
Parte 11. Dívida: Lloyd George versus soviéticos
Parte 12. A reafirmação do repúdio das dívidas é bem sucedida
Conclusão e Epílogo


1 O artigo 9º do acordo anglo-russo reza assim: “O Governo britânico declara que não intentará nenhuma ação com o fim de arrestar ou tomar posse de todo e qualquer ouro, fundos, títulos ou mercadorias e qualquer outro artigo que não seja identificável como propriedade do Governo britânico, que seja exportado da Rússia em pagamento das importações ou como garantia de tais pagamentos, ou qualquer outra propriedade mobiliária ou imobiliária que tenha sido adquirida pelo Governo soviético russo em território do Reino Unido.” Citado por Sack, p. 301. Ver também a este propósito Carr, T. 3, p. 360.

2 Sack, p. 306-307.

3 Sack, nota 209, p. 307.

4 Sack, p. 315.

5 Sack, p. 321-322.

Termos relacionados Cem anos da Revolução Russa, Cultura
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