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Quanto custa a um economista não perceber a crise

Os economistas devem ser mais modestos, evitando as certezas que frequentemente exibem e sobretudo a confiança nos mercados, que os deixam ficar sempre muito mal. Muitos se enganaram redondamente e arriscam-se a voltar a cair no mesmo erro. Por Francisco Louçã.
Irving Fisher

O filme “The Big Short”, em português “A Queda da Wall Street”, de Adam Mckay (2015), conta a história de vários homens que adivinharam o fim da bolha financeira do início do século e apostaram sobre a sua derrocada, tendo lucrado quando todos os outros faziam contas às perdas. Alguns desses personagens dirigiam fundos financeiros de maior ou menor dimensão, outros estavam a entrar no negócio – e todos se referem a casos reais. Eles anteciparam o que ninguém nem via nem pressentia, porque o efeito de manada arrastava todos os agentes financeiros numa vertigem de optimismo e de confiança que parecia imparável. Todos se imitavam e todos transbordavam de entusiasmo, excepto os cépticos ou pessimistas que descobriram a fraude que estava em marcha.

Os economistas devem portanto ser mais modestos do que foram até essa crise, evitando as certezas que frequentemente exibem e sobretudo a confiança nos mercados, que os deixam ficar sempre muito mal. Muitos dos mais engenhosos, dos melhores matemáticos, e certamente os entusiastas dos mercados financeiros, todos apostaram num crescimento imparável das valorizações bolsistas e dos preços dos activos financeiros. Nenhum problema, nenhum iceberg em nenhum Titanic poderia interromper esta senda gloriosa. Enganaram-se redondamente e arriscam-se a voltar a cair no mesmo erro nos dias que correm.

Irving Fisher não compreendeu que os mercados financeiros são pelo menos como o relógio parado: haverá sempre uma hora certa para a crise e terá que se passar por ela. Estamos agora mais próximos dessa hora e os economistas deslumbrados com a engenharia financeira podiam perceber que lhes vai bater à porta; é portanto melhor irem vendendo as acções e desconfiarem um pouco mais dos mercados sacrossantos para não caírem nas aflições de Fisher.

Lembro-lhes por isso um exemplo passado, o do economista norte-americano Irving Fisher (1867-1947). Fisher estudou economia matemática na Alemanha, voltou aos Estados Unidos e foi o primeiro e principal impulsionador da economia neoclássica no seu país. A sua doutrina económica viria a tornar-se dominante na academia e foi o primeiro presidente da Sociedade Econométrica, o núcleo de investigação que se tornou o padrão de excelência para a sua disciplina. Foi um homem de vida cheia, era conceituado e foi estudado.

Uma das suas virtudes era a imensa curiosidade técnica e a perspicácia inovadora: inventou uma cadeira articulada e, mais importante, um sistema de ficheiro com cartões indexados, que foi vendido por mais de meio milhão de dólares a uma empresa que viria a ser a Remington Rand. Economista famoso, professor admirado, empresário e inventor afortunado, herdeiro rico, Fisher não podia pedir mais às suas aventuras.

Mas foi mesmo como economista que perdeu a sua auréola. Prevendo nas vésperas do crash bolsista de 1929 que a Bolsa e os mercados financeiros caminhariam para um equilíbrio pacato, Fisher foi investindo a sua herança e os seus proveitos em acções, convidando os seus colegas a fazerem-no e, ao chegar ao dia do colapso, perdeu tudo. Dez milhões, parece ter sido o volume das suas perdas com a crise de 1929. A sua irmã, que nada percebia de finanças (mas tinha biblioteca), geriu melhor a sua parte da herança e foi ela quem teve que acudir ao famoso economista que se tinha enganado acerca da economia e desbaratado o seu pecúlio.

A Universidade de Yale, onde trabalhava, também veio em seu auxílio e comprou a sua casa, para evitar que fosse expulso por falta de pagamento. Fisher continuou a não pagar a renda aos novos senhorios e propôs depois a anulação da dívida, o que foi aceite (a curiosidade é que os economistas que são discípulos de Fisher ou ignoram ou recusam este artifício negocial que salvou o seu inspirador). Ficou, no fim da vida, como uma curiosidade de um passado glorioso e de um erro colossal.

Fisher não compreendeu que os mercados financeiros são pelo menos como o relógio parado: haverá sempre uma hora certa para a crise e terá que se passar por ela. Estamos agora mais próximos dessa hora e os economistas deslumbrados com a engenharia financeira podiam perceber que lhes vai bater à porta; é portanto melhor irem vendendo as acções e desconfiarem um pouco mais dos mercados sacrossantos para não caírem nas aflições de Fisher.

Artigo publicado originalmente no blog Tudo Menos Economia a 12 de fevereiro de 2016.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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