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Quando se quer transformar o essencial em invisível…

A decência e a honestidade intelectual nunca deveriam caminhar desirmanadas da orientação dada às organizações políticas ditas democráticas, independentemente das circunstâncias observadas. Texto de Rui Ricardo
Bairro da Jamaica, Seixal, 23 de janeiro de 2019 – Foto de Mário Cruz/Lusa
Bairro da Jamaica, Seixal, 23 de janeiro de 2019 – Foto de Mário Cruz/Lusa

Os acontecimentos registados no Bairro da Jamaica, no concelho do Seixal, tiveram o condão de despertar a consciência de uns e reavivar a memória de outros no que concerne à existência de problemas tão diversos quanto complexos e que desenvolvem entre si uma irrefutável relação de perniciosa complementaridade.

A violenta carga policial sobre alguns moradores do bairro, que ocorreu na manhã de 20 de Janeiro e foi largamente noticiada pelos órgãos de comunicação social, despoletou um intenso debate público em torno de problemas tão graves e carentes de solução como o são, indiscutivelmente, o racismo institucional, a segregação racial, a pobreza predominante no seio de determinadas comunidades étnicas e raciais, as condições de vida deploráveis nos bairros periféricos das grandes cidades, a exclusão social.

Para surpresa inicial e subsequente inquietação das elites económicas, que se esforçam para esvaziar a luta de classes do seu sentido e troçam do empenho dos que oprimem desde a época da incursão pela África negra, estes temas estavam a reunir a atenção que há muito reivindicavam e mereciam.

Foi neste contexto e ainda num ponto inicial da discussão entretanto tornada ampla que se arrastou para o centro da arena política aquilo que pode ser considerado, no limite, um deslize linguístico de um dirigente de uma organização que luta contra o racismo e que se vê diariamente a braços com situações extremas de discriminação baseada na cor da pele. A expressão utilizada por Mamadou Ba para se referir às forças de segurança transformou-se no pretexto perfeito para aqueles que aguardavam de forma ávida a oportunidade de desconversar sobre o que começava então a ser conversado e ganhava, enfim, justificada visibilidade no espaço mediático. Daí até à tentativa de colocar o partido do qual Mamadou é assessor no papel de agente instigador de massas contra a autoridade policial foi um ápice. A narrativa, que tinha tanto de pérfida como de expectável, contava-se agora no ritmo e cadência desejados.

Tornou-se então notório que era de toda a conveniência para algumas forças do nosso espectro partidário travestir um desabafo publicado numa rede social por um assessor parlamentar bloquista e fazer disso um caso político. Como se já não fosse suficiente mais uma demonstração de oportunismo protuberante da direita, que, para além de servir os interesses das supra-citadas elites, faz desse poderoso instrumento o topo, o entremeio e o fundo da sua agenda política, à esquerda não ficou bem um mal disfarçado regozijo ao vislumbrar na situação entretanto criada um hipotético desastre alheio.

Dir-me-ão que são as regras do jogo político cumpridas com zelo ou até levadas para lá do seu limite tolerável num ano repleto de decisões eleitorais de extrema importância. Contudo, a decência e a honestidade intelectual nunca deveriam caminhar desirmanadas da orientação dada às organizações políticas ditas democráticas, independentemente das circunstâncias observadas.

Ao invés, parece que o fabrico e a confecção de casos e casinhos, já com a sua capitalização em urna a incorporar o plano estratégico de curto-prazo, se tornou especialidade no cardápio apresentado pelas demais forças partidárias representadas na Assembleia da República. A estas juntaram-se também os colectivos políticos recém-fundados, que não podiam perder a ocasião de saltar para a ribalta a partir dos compartimentos esconsos em que são colocados frequentemente pelas consultas de intenção de voto.

Esta é a conclusão que mais facilmente elaboramos ao abrirmos os jornais e sites noticiosos nos últimos dias e ao assistirmos ao debate quinzenal com a presença do primeiro-ministro, momentos vários em que ficou bem vincado e sem margem para grandes dúvidas que não haverá hesitação na hora de disparar acusações mais ou menos veladas sempre que o Bloco de Esquerda surgir na carreira de tiro.

É pois com a consciência de estar perante um plano concertado que tem como objectivos finais o abalo da sua estrutura organizacional, a consequente instabilidade interna e, por fim, a perda do seu tão disputado quinhão de eleitorado que o Bloco inicia um ano com três sufrágios de características bem distintas. Será, portanto, de vital importância para o futuro do movimento não emprestar o seu contributo para manobras dilatórias cujo único e exclusivo propósito é o de desviar a atenção do que é realmente importante.

E como realmente importante, tenhamos como exemplo a luta emancipatória das minorias raciais e étnicas, num país que não se considera racista e, simultaneamente, não se envergonha de relegar sempre as mesmas pessoas para os Jamaicas espalhados pelo seu território.

Texto de Rui Ricardo para o esquerda.net

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