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Quando a aposentação de uma docente é vivida como um momento libertador

O ambiente cinzento que se vêm impondo nas escolas, proporcionado por políticas e reformas, que continuam a descaraterizar e a desacreditar a Escola Pública, são naturalmente sinais compreensíveis para tanto desalento e desencanto ao fim de uma carreira profissional. Artigo de José Lopes
Escola EB 2,3 António Dias Simões esteve fechada no dia da greve da administração pública, 8 de novembro - Foto de José Lopes

A partir de hoje, estou, oficialmente aposentada! Ufa, pensei que nunca mais chegava!” Com esta declaração partilhada na sua página no facebook, a professora Theresa Jorge da Escola EB 2,3 António Dias Simões (Agrupamento de Escolas de Ovar), desabafou, ao fim de 37 anos de serviço, um inegável alívio por, certamente, se livrar do clima que se vêm instalando nas escolas, transformando os profissionais da educação, neste caso dos docentes, numa espécie de trabalhadores indiferenciados do Estado, que há muito vêm sendo desvalorizados como pedagogos.

Para quem se entregou e dedicou com entusiasmo, e contagiante alegria à comunidade escolar, educativa e local é visível ansiedade de ir embora, manifestada por esta professora com 60 anos de idade. O ambiente cinzento que se vêm impondo nas escolas, proporcionado por políticas e reformas, que continuam a descaraterizar e a desacreditar a Escola Pública, são naturalmente sinais compreensíveis para tanto desalento e desencanto ao fim de uma carreira profissional como é esta de formar o futuro de um país, que são os jovens alunos.

Muitos dos docentes, a exemplo da geração desta agora aposentada, com mais ou menos anos de serviço, que ainda continuam no ativo ou que nos últimos anos vêm batendo a porta a tanta indignidade e ultraje perante a comunidade e a opinião pública, de que vêm sendo alvo, na linha da fragilidade e descaraterização da Escola Pública. Foram determinantes para garantir a gestão e dinâmicas das escolas, quando, pelo seu profissionalismo, pelo seu voluntarismo, pela sua dedicação à causa da Educação e pelo respeito aos alunos e comunidades locais, assumiram e ultrapassaram com muito sacrifício e dedicação em cada ano letivo as consequências dos vazios provocados pelas políticas experimentais dos sucessivos governos e ministros da educação, que culminaram na desvalorização de toda a disponibilidade de mulheres e homens dedicados ao ensino, à democracia e exercício de cidadania na escola.

São docentes com o mesmo espírito de colaboração e disponibilidade ao longo de quase quatro décadas de serviço público, que marcaram e deixam saudades na escola, cada vez mais pobre na promoção do exercício de cidadania e de uma democracia ativa, sem medos, capaz de servir de referência para as novas gerações de alunos e mesmo colegas docentes, cada vez mais sujeitos à precariedade e à ameaça do desemprego que limita a liberdade, até de pensamento. Inquietante cenário, que em alguns casos, mesmo em prejuízo próprio, é motivo mais que justificado para ir embora, e assim dizer basta a tanta humilhação e indignidade com que se tratam profissionais da Educação, cada vez mais sujeitos à pressão de mais cortes orçamentais e seus nefastos efeitos na qualidade da escola, deixando antever mais instabilidade e desresponsabilização do Estado no serviço público que deve ser a Educação.

Neste caso particular, e mesmo num momento em que em poucos meses, entre o fim do ano letivo de 2012/2013 e o novo ano, já foi batido o recorde de aposentações de professores, só na Escola António Dias Simões, que viu partir um significativo lote de professores da “velha guarda” pedagógica, tão afrontada nos últimos anos de serviço. A aposentação desta docente, mesmo com o seu desabafo de desencanto nesta fase final da sua carreira profissional, deixa um estranho vazio nesta escola a que a docente de Inglês ficou ligada há 30 anos, desde a criação da Escola Preparatória de Ovar.

Estamos num tempo em que se desvalorizam as especializações dos profissionais da Educação, em que estes trabalhadores são usados para “tapar buracos” e “pau para toda a colher” nas escolas e agrupamentos, situações tantas vezes indignas a que se sujeitam para ganhar o “pão”. A chegada da aposentação, ironicamente parece ter devolvido a alegria que os últimos anos de políticas contra os professores, tinham roubado, nomeadamente desde a teimosia do contestado modelo de avaliação de desempenho dos docentes. Um momento de afronta a estes profissionais, que de certa forma, foi ponto alto de reflexão, e sobretudo de um sentimento de descrédito e desmotivação que invadiu as escolas perante tanta intolerância, como consequência de medidas de governantes que apostaram na desvalorização, descrédito e humilhação dos professores aos olhos da opinião pública.

Livre de um certo pesadelo em que se sentem a viver muitos dos colegas que por diferentes razões e motivações se obrigam a aguentar mais uns tempos, a atividade de lecionar no atual quadro de degradação da Escola Pública e consequentemente dos seus profissionais, a professora agora aposentada tem ainda mais razões para ser feliz. Não só por ser avó, mas, porque vai poder cantar, não para “seus males espantar”, mas para, agora ainda mais livre, partilhar a sua renovada alegria, felicidade e vontade de viver, no seio de um coletivo musical, como é o “Canto Décimo” e as suas intervenções em memória de José Afonso ou do maestro Lopes Graça. Projeto cultural e musical que a professora Theresa Jorge, integra desde 2004 com o mesmo espírito de dedicação e paixão que ofereceu à Escola Pública durante uma vida de trabalho docente dedicado ao ensino.

Artigo de José Lopes, Ovar

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