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PSP confirmou suspensão de polícia que chamou “aberração” às ideias de Ventura

Manuel Morais, conhecido pelo seu ativismo anti-racista e pelos direitos humanos, afirma que este é o "dia mais triste" da sua carreira policial. O seu advogado já avançou que irá recorrer ao ministro da Administração Interna.
Foto retirada da página de facebook de Manuel Morais (recortada).

O Público lembra que, no despacho de punição conduzido pelo núcleo de deontologia da Unidade Especial de Polícia, e que foi agora ratificado pelo diretor-nacional da PSP, Magina da Silva, a instituição acusa o agente de violar “deveres funcionais”.

Em declarações ao jornal diário, o advogado de Manuel Morais avançou que irá recorrer ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, antes de recorrer ao Tribunal Administrativo, no sentido de revogar a decisão.

Em junho de 2020, Manuel Morais afirmava numa publicação de facebook: "Decapitem estes racistas nauseabundos que não merecem a água que bebem" e apelava ao combate contra o racismo e “aberrações” como André Ventura.

O agente do Corpo de Intervenção da PSP e ex-dirigente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia explicou que, "em momento algum, quis ofender ou decapitar alguém no verdadeiro sentido da palavra, nomeadamente na pessoa do Sr. deputado” e que apenas “quis transmitir que é necessário decapitar ideias racistas que prejudicam a sociedade em geral". Manuel Morais lembrou ainda o contexto da publicação: na altura, havia notícias de estátuas às quais tinham sido cortadas as cabeças e ele queria dizer "que seria melhor acabar com o racismo, ou seja, decapitar o racismo".

Nas suas declarações assinalou que tentou entrar em contacto com André Ventura "para esclarecer que não lhe desejava mal e pedir desculpas caso a sua publicação o tivesse ofendido, no entanto, tal não lhe foi possível". A palavra “aberração” não se referia à pessoa, “mas sim a muitas ideias que o mesmo já expressou publicamente”. O ex-sindicalista disse ainda em sua defesa que apagou a publicação assim que teve consciência que o que escrevera criou “mal-entendidos”.

Os esclarecimentos não surtiram efeito, e, no final de janeiro deste ano, foi tornado público que o agente da PSP foi alvo de dez dias de suspensão.

Em maio de 2018, Morais defendeu que “qualquer indício de racismo ou xenofobia deveria ter efeito de exclusão imediata do candidato” a agente das forças de segurança, ao contrário do que acontece atualmente, com “elementos das várias forças de segurança que exteriorizam as suas ideias racistas e xenófobas, usam tatuagens e simbologias ‘neonazis’, pertencem a grupos assumidamente racistas”.

Um ano depois, quando ocupava a vice-presidência da Região Sul da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, o agente da PSP denunciou num programa televisivo a existência de racismo na instituição. As suas declarações valeram-lhe uma campanha de intimidação, chegando a ser alvo de ameaças de morte. Foi assim obrigado a demitir-se da direção da estrutura sindical.

Já no final do mesmo ano, repudiou o aproveitamento político do líder do Chega na manifestação de polícias de 21 de novembro, que subiu ao palco para discursar sem ter sido convidado pelos sindicatos promotores do protesto.

“Hoje é o dia mais triste da minha carreira policial”

Manuel Morais reagiu à decisão na sua página de Facebook. “Hoje é o dia mais triste da minha carreira policial, considerando que dediquei a esta polícia os últimos 30 anos. Sinto na altura de entregar a arma, pelos 10 dias da minha pena, que a minha dedicação à causa pública foi interpretada pela PSP, a minha organização, como tendo pouco valor e até como sendo dispensável”, escreve.

O agente da PSP lembra que, “durante estes últimos 30 anos”, foi “por várias vezes injustiçado” pela forma como sempre encarou a atividade sindical. “Mas, com sinceridade nunca me senti, como me sinto neste momento. Estou a ser tratado como alguém que incumpriu com aquilo a que está obrigado, quando eu sei que estou a defender a integridade das forças de segurança”, continua.

Manuel Morais lembra o que um amigo lhe disse: "neste momento deves lembrar-te dos teus louvores de serviço".

“Não é disso que me lembro, não são esses louvores que tenho presentes. Continuo a respeitar a hierarquia da instituição e continuo a acreditar que no final deste processo será feita justiça. Esta parte não é fácil. Continuo sobretudo a acreditar que o que tenho feito e, que me levou a esta situação, está correto. Esta parte é fácil”, lê-se na publicação.

O agente da PSP remata: “Escrevo com o coração e tenho a felicidade de ele me dizer o mesmo que a minha cabeça”.

Hoje é o dia mais triste da minha carreira policial, considerando que dediquei a esta polícia os últimos 30 anos. Sinto...

Publicado por Manuel Morais em Sexta-feira, 5 de março de 2021

Última atualização às 0h36 de 6.03.2021 com a reação de Manuel Morais.

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