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PSP abre processo a agente que denunciou infiltração da extrema-direita na polícia

A direção nacional da PSP não gostou de ver Manuel Morais criticar o aproveitamento político por parte de André Ventura na manifestação de polícias no mês passado.
Movimento Zero levou André Ventura ao palco na manifestação de polícias de 21 de novembro. Foto José Sena Goulão/Lusa

Segundo a TSF, a direção nacional da PSP abriu um processo disciplinar ao agente Manuel Morais por causa das declarações publicas em que repudiou o aproveitamento político do líder do Chega na manifestação de polícias de 21 de novembro, subindo ao palco para discursar sem ter sido convidado pelos sindicatos promotores do protesto.

“Senti nojo. Houve um assalto de Ventura à manifestação, o que não é admiração para ninguém atento”, afirmou o agente Manuel Morais ao Expresso alguns dias após o último protesto de polícias em São Bento. “Se este é o caminho, preocupa-me muito”, afirmou o agente do Corpo de Intervenção que foi vice-presidente da ASPP (Associação Sindical dos Profissionais da Polícia) durante três décadas, até ser afastado pela direção sindical após ter denunciado a infiltração de elementos da extrema-direita nas forças de segurança portuguesas.

Manuel Morais fez estas declarações “na condição de cidadão atento e preocupado” com a manipulação do descontentamento policial por parte da extrema-direita. Muitos agentes  “nem sabem no que se estão a meter” e estão a ser “atraídos pela promessa de mais poder”, admitiu ao Expresso. Mas há outros que defendem abertamente as ideias de “castigar mais quem comete um crime, culpar imigrantes”, e estes estão “mais discretos”, alerta. “Antes ia-se ao perfil de Facebook deles e viam-se logo símbolos, frases nacionalistas. Agora têm cuidado. Há muitos apelos [por parte do movimento Zero] à discrição. Mas a ideologia continua lá”, aponta o ex-dirigente sindical.

Manuel Morais tornou-se conhecido da opinião pública através da sua tese de mestrado em Antropologia acerca da ação policial em bairros como a Arrentela, Quinta da Princesa ou Jamaica, na margem Sul do Tejo, falando abertamente do preconceito xenófobo e racista por parte de alguns agentes.

Numa entrevista em maio de 2018 ao Diário de Notícias, Morais defendeu que “qualquer indício de racismo ou xenofobia deveria ter efeito de exclusão imediata do candidato”, ao contrário do que acontece atualmente, com “elementos das várias forças de segurança que exteriorizam as suas ideias racistas e xenófobas, usam tatuagens e simbologias ‘neonazis’, pertencem a grupos assumidamente racistas”.  

Na sequência destas declarações, feitas no contexto do julgamento dos polícias acusados de tortura e racismo contra seis jovens da Cova da Moura, a ASPP cedeu às pressões internas que obrigaram Manuel Morais a sair da direção do sindicato. Agora, é a própria hierarquia policial a agir contra o agente que tem dado o exemplo na denúncia da infiltração da extrema-direita nas forças de segurança em Portugal.

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