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Protestos contra cortes na educação suplantam defensores de Bolsonaro

Manifestações do dia 30 foram superiores às do domingo anterior, convocadas em apoio ao governo do Brasil. Impasse parece impor-se num momento em que a economia dá sinais de recessão. Uma greve geral está convocada para dia 14 de junho. Por Luis Leiria.
Faixa em defesa da educação que havia sido retirada por bolsonaristas foi reposta no dia 3o durante manifestação em defesa da Educação. Foto Brasil de Fato/Giorgia Prates
Faixa em defesa da educação que havia sido retirada por bolsonaristas foi reposta no dia 3o durante manifestação em defesa da Educação. Foto Brasil de Fato/Giorgia Prates

Foi um dos pontos altos da jornada de manifestações em defesa da educação no Brasil. Ao final de uma contagem decrescente, foi descerrado o pano preto que encobria a faixa “Em defesa da Educação”, regressada à fachada do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná em Curitiba. A faixa fora arrancada dias antes por manifestantes pró-Bolsonaro que alegavam tratar-se de um conteúdo ideológico incompatível com o gasto de dinheiro público (ver vídeo).

A reposição da faixa no seu lugar constituiu um símbolo da jornada deste 30 de maio. Mais uma vez, os protestos em defesa da Educação e contra os cortes orçamentais decretados pelo Ministério da Educação marcaram o dia e mobilizaram centenas de milhares de pessoas. Pelas contas do portal G1, da rede Globo, foram 135 manifestações em 25 estados e no Distrito Federal. A União Nacional de Estudantes fala em manifestações em 208 cidades.

Apesar de ninguém arriscar números de participantes, parece claro que, embora não tenham repetido a grandiosidade dos protestos do dia 15, as manifestações desta quinta-feira foram maiores que as mobilizações pró-Bolsonaro de domingo.

Os maiores protestos novamente ocorreram nas principais capitais do país e em especial São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília. Um vídeo aéreo da manifestação de S. Paulo, em particular, é uma prova convincente do poder do protesto em S. Paulo, que percorreu mais de 5 quilómetros na cidade.

Manifestação em S. Paulo dia 30. Foto de @imbassahy
Manifestação em S. Paulo dia 30. Foto de @imbassahy

Uma semana após o dia 15, o Ministério da Educação, que se esforçara sem sucesso por justificar os cortes, repôs parte dos recursos bloqueados – 1.600 milhões de reais, ou 21% do valor que fora “contingenciado”, na linguagem oficial.

Mas esse sinal que poderia significar uma tentativa de apaziguamento, foi substituído, no próprio dia dos protestos, por uma provocação do MEC apelando à população para que denunciasse os professores, funcionários, alunos e até mesmo pais e responsáveis que divulgassem os protestos. Para o MEC, eles “não são autorizados a divulgar e estimular protestos durante o horário escolar”.

Guerra cultural”

“Bolsonaro optou por não indicar um ministro da Educação quando montou seu ministério, mas um general para travar uma ‘guerra cultural’, cujos inimigos são todos aqueles que atuam na produção de conhecimento na sociedade, como intelectuais, académicos, professores, pesquisadores, cientistas”, observa o cientista político e jornalista Leonardo Sakamoto, no seu blog.

Esta obsessão de atacar o conhecimento, este elogio ao obscurantismo e à ignorância que ficou bem claro nas manifestações pró-Bolsonaro, representa, para o professor Ricardo Marcelo Fonseca, reitor da Universidade Federal do Paraná, um grande perigo: “uma sociedade que despreza a inteligência e o conhecimento não tem nenhuma chance de ter um bom futuro. Sobram só barbárie e violência, real ou simbólica. Convido os que se deixaram levar pelo momento e pelo ódio incitado por alguns que parem, ponderem e percebam que não pode haver luz no fim do túnel sem educação e sem universidades”, disse.

Manifestação no Rio de Janeiro dia 30 de maio. Foto de Mídia Ninja
Manifestação no Rio de Janeiro dia 30 de maio. Foto de Mídia Ninja

As provocações do ministro Abraham Weintraub já chamaram a atenção do Ministério Público Federal, que entrou com uma ação civil pública na Justiça Federal contra Weintraub e a União, por danos morais. Os procuradores que assinam a ação ressaltam entre as muitas declarações de Weintraub, uma do dia 30 de abril, quando ele disse que “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho académico, estiverem fazendo balbúrdia terão verbas reduzidas”.

Pacto dos Três Poderes”?

É difícil saber se há um plano neste governo, ou se as suas iniciativas, idas e vindas, afirmações e contradições respondem única e simplesmente a impulsos do momento. Com Bolsonaro, nunca se sabe. Na noite de domingo 27, ele apresentou a ideia de firmar um pacto entre os três poderes da República para a aprovação das (contra)reformas que pretende implantar, como a da Previdência (Segurança) Social: “Temos tudo para ser uma grande nação. Falta nós, aqui em Brasília, conversarmos um pouco mais, discutirmos o que temos que votar em especial, e juntos fazer aquilo que o povo pediu por ocasião das eleições e por ocasião das manifestações do dia de hoje [26]”, disse em entrevista à Rede Record. O pacto estaria a ser negociado com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, bem como com o presidente do Supremo Tribunal Federal.

A proposta ocorreu depois das manifestações de domingo, mas estas não forneceram a Bolsonaro força suficiente para esmagar os outros poderes. Mostraram que ao entrar no sexto mês de mandato o presidente ainda tem apoio de um setor da sociedade, apesar de este apoio se desvanecer com rapidez. Uma sondagem divulgada a 21 de maio mostrou que pela primeira vez a aprovação do governo foi suplantada pela desaprovação: 28,6% avaliam como “ótima” ou “boa” a gestão de Bolsonaro, contra 36,2% que a considera “ruim” ou “péssima”. Os manifestantes pró-Bolsonaro representaram estes 28%. Mas estão longe dos 55% que o elegeram presidente.

As manifestações de domingo foram particularmente violentas contra Rodrigo Maia, que teve até direito a ser hostilizado através da representação por um boneco inflável. “Vamos ver o que posso assinar. Tenho que representar a maioria da Casa”, desconversou Maia.

Até à hora em que este artigo está a ser escrito, a proposta de pacto não tinha obtido quaisquer resultados.

Recessão à vista

Fica a sensação de que o Brasil está mergulhado num grande impasse. Os protestos contra os cortes na Educação foram importantes, mas não o suficiente para alterar a relação de forças e fazer o governo desistir da sua política; as manifestações dos bolsonaristas foram inferiores aos protestos, mas mostraram que ainda há setores importantes dispostos a ir à rua para defender o governo.

Para complicar mais um cenário já de si adverso, a economia brasileira dá sinais de estar a entrar de novo em recessão.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil caiu 0,2% no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2018, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a primeira queda no crescimento desde o quarto trimestre de 2016 (-2,3%) e foi puxada, em grande parte, pelos recuos da indústria (-0,7%) e agropecuária (-0,5%).

Como sair do impasse? As manifestações de 15 e 30 de maio mostraram que estudantes e professores, investigadores e funcionários das escolas e universidades tem a força de fazer recuar o governo. É desta forma que a oposição de esquerda pode voltar a fazer valer a sua voz e a sua força, reconquistando a hegemonia das ruas. O próximo passo é a greve geral marcada pela maioria das centrais sindicais para o dia 14 de junho. Já não falta muito.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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