Está aqui

Protestos alastram no Irão, Raisi responde com ameaças de repressão

ONG contam mais de 50 mortos nos protestos desta semana em todas as províncias. Esta segunda-feira ao fim da tarde, a onda de solidariedade com as mulheres iranianas volta a passar por Lisboa.
Protesto em Teerão esta semana. Foto EPA/STR

A repressão aos protestos que se seguiram à morte da jovem Mahsa Amini, após ser detida pela polícia religiosa por uso inadequado do hijab (véu islâmico), já terão feito mais de 50 mortes em todo o país, nas contas da ONG Iran Human Rights, sediada em Oslo e citada pelo Guardian..

Os protestos alastraram a pelo menos 80 cidades em todas as províncias do país e representam já o maior desafio ao regime na última década. No sábado, o Presidente do país, Ebrahim Raisi, prometeu mão dura contra "quem se opuser à tranquilidade e segurança do país".

Para a jornalista iraniana Sima Sabet, "a grande diferença entre estes protestos e os do movimento verde de 2009 é que agora as pessoas estão a ripostar, não têm medo do regime brutal". Por seu lado, Firuzeh Mahmoudi, da ONG United for Iran, afirma que se os protestos de 2009 juntaram milhões de pessoas nas ruas nalgumas cidades no seu momento alto, agora acontecem "não apenas nas grandes cidades, mas em cidades pequenas onde nunca os vimos". Por outro lado, o tipo de mensagem e audácia das manifestantes também é uma novidade. "É uma coisa sem precedentes para nós. Nunca vimos mulheres tirarem o seu hijab em massa como agora. Incendiarem as esquadras de polícia, correrem atrás dos seus carros, queimarem retratos do [supremo líder Aiatola Ali] Khamenei", prosseguiu.

Jornalistas e internet são alvos do regime

A Amnistia Internacional diz ter recolhido testemunhos que apontam para a prática reiterada de uso de munições reais contra manifestantes por parte da polícia, que só na quarta-feira terá morto a tiro 19 pessoas, incluindo três crianças. Só na província de Guilan, no noroeste do país, terão sido detidas 739 pessoas, anunciou o chefe de polícia, citado pela BBC. O Comité para a Proteção de Jornalistas diz que 11 jornalistas de meios independentes foram detidos desde segunda-feira.

O controlo da informação é também uma prioridade para o regime iraniano, a começar pela limitação do acesso à internet. Este sábado o embaixador britânico foi chamado ao gabinete do chefe da diplomacia iraniana para ouvir queixas sobre "a atmosfera hostil" criada pelos órgãos de comunicação em língua persa com base em Londres e que são transmitidos via satélite no Irão, como a Iran International TV, Manoto TV and BBC Persian. O governo acusa-os de "incitamento à violência e ao alastrar dos motins" pela sua cobertura dos protestos. Também o embaixador norueguês foi chamado ao Ministério, desta vez por causa das declarações da presidente do Parlamento, a norueguesa-iraniana Masud Gharahkhani, em solidariedade com as mulheres que protestam nas ruas do Irão.

Solidariedade com mulheres iranianas passa por Lisboa esta segunda-feira

Ao longo do fim de semana, as embaixadas iranianas em vários países europeus foram palco de protestos contra a repressão às mulheres naquele país. Em Paris, os manifestantes estavam indignados com o aperto de mão entre Macron e Raisi esta semana à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque e exigiram a paragem das negociações do acordo nuclear. Em Estocolmo e Atenas, várias mulheres cortaram o cabelo em público em solidariedade com Amini.

Em Lisboa houve uma concentração na sexta-feira ao fim da tarde na Praça do Comércio, organizada por membros da comunidade iraniana. Esta segunda-feira, vários coletivos feministas convocam uma concentração na Praça Luís de Camões às 18h45. "Estamos solidárias com as mulheres do Irão, que exigem o seu direito a serem pessoas autónomas e a vestirem-se como entender. E estamos solidárias com as mulheres e as pessoas de todo o mundo que veem a sua integridade física, a sua identidade e os seus direitos sociais, económicos, culturais, sexuais e reprodutivos afetados por moralidades reacionárias", afirma a convocatória do evento.

Termos relacionados Internacional
(...)