Está aqui

Proposta para encerramento de seis urgências obstétricas gera forte contestação

Vários autarcas repudiaram a medida, que consideram prejudicar as populações. Catarina Martins lamenta que o ministro da Saúde não tenha optado por garantir as equipas necessárias para manter estas unidades abertas e apenas diga que “até ao Natal fica tudo na mesma”.
Foto de Mário Cruz/Lusa (Arquivo).

Tendo em consideração o número de partos e a distância entre hospitais, entre outros critérios, a comissão de especialistas nomeada pelo Governo propôs o encerramento das urgências de ginecologia e obstetrícia de seis hospitais do país: Famalicão e Póvoa de Varzim, no Norte; Guarda e Castelo Branco, no Centro; e Vila Franca de Xira e Barreiro, em Lisboa e Vale do Tejo.

Diogo Ayres de Campos, coordenador do grupo de peritos, explicou que foram identificados “seis hospitais onde tecnicamente foi considerado seguro que o bloco de partos e urgência de ginecologia pudessem ser divergidos para outra instituição que ficasse mais perto com base numa série de critérios, como o número de partos, a distância e os cuidados intensivos neonatais”. O responsável destacou, no entanto, que “a decisão sobre encerramentos cabe aos políticos”.

Segundo dados do Portal da Transparência do Serviço Nacional de Saúde, citados pelo jornal Público, os seis hospitais sinalizados fizeram, em conjunto, no ano passado, 6.207 partos, o equivalente a 7,8% do total de partos do país (78.890). A maternidade do hospital de Castelo Branco fez 317 partos, a da Guarda, 474, e a de Famalicão 979. A do Barreiro fez 1.403, a da Póvoa, 1.470, e a de Vila Franca de Xira, 1.564. Alguns destes hospitais, como o da Guarda, Barreiro e Vila Franca de Xira já tiverem de recorrer a encerramentos temporários das suas urgências obstétricas, por falta de médicos.

Autarcas não aceitam fecho de urgências

O presidente socialista da Câmara de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues, considera que o plano para fechar a urgência de partos da Unidade Local de Saúde de Castelo Branco é “completamente descabido”. O autarca, citado pelo jornal Expresso, afirma-se “indignado” e lembra que este estabelecimento de saúde serve “a segunda maior área territorial do país”.

"Quem fez os estudos desconhece a realidade, não deve saber que este hospital serve a população do terceiro maior concelho do país, Idanha-a-Nova, e concelhos limítrofes a 100 quilómetros de distância como Salvaterra do Extremo, Penamacor e ainda Vila Velha de Ródão, Sertã ou Proença-a-Nova", frisou.

Leopoldo Rodrigues lembrou ainda que foram criadas “medidas de apoio para atrair e fixar população, como o subsídio de 150 euros às famílias sem acesso a creches gratuitas”. “Vamos agora dizer aos jovens residentes que nem uma maternidade temos?”, questionou. Leopoldo Rodrigues garantiu que “não só a população não se conformará”, como ele próprio estará “na primeira linha da luta contra o encerramento” urgência de obstetrícia.

Os presidentes das câmaras do Barreiro, Montijo, Moita e Alcochete também já enviaram um ofício a pedir uma reunião urgente com Manuel Pizarro. Frederico Costa Rosa, presidente da câmara do Barreiro, referiu a urgência daquele hospital tem um serviço “excelente”, que realiza, em média, “2.500 partos/ano”. O autarca do PS defendeu que a proposta de encerramento “só pode partir de quem, fechado em gabinetes, está longe da realidade”.

O presidente da Câmara de Famalicão, Mário Passos, eleito em representação do PSD, já assegurou uma reunião com a tutela na próxima quinta-feira. “Não se pode resolver problemas de outras maternidades fechando as que funcionam bem”, disse.

Os presidentes das câmaras da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde, respetivamente o social-democrata Aires Pereira e o socialista Vítor Costa, também vão solicitar uma reunião junto do Ministério da Saúde.

Em declarações ao Jornal de Notícias, Sérgio Costa, presidente da Câmara da Guarda, informou que formalizou o pedido de uma audiência urgente com o ministro da Saúde. E deixou a garantia que, se a proposta avançar, autarcas, deputados e população "marcharão sobre Lisboa".

Ministro atira decisão para próximo ano

Em entrevista à RTP3, na passada quarta-feira, o ministro da Saúde deixou a certeza de que uma “eventual” decisão sobre o encerramento das urgências obstétricas somente será tomada no início do próximo ano.“Não lhe posso responder se vão ou não encerrar, vamos fazer uma avaliação”, assinalou Manuel Pizarro, avançando que a decisão passará pela direção executiva do SNS.

A coordenadora nacional do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, lamentou que o ministro da Saúde não tenha optado por garantir as equipas necessárias para manter estas unidades abertas e apenas diga que nada mudará até ao início do próximo ano.

“Esperava-se que o Ministro usasse os próximos dois meses para garantir as equipas necessárias para manter as urgências obstétricas abertas. Mas não. Diz apenas até ao Natal fica tudo na mesma e os encerramentos aparecem no sapatinho no dia seguinte”, escreveu a dirigente bloquista na sua conta de Twitter.

Termos relacionados Política
(...)