Privados abusam de cesarianas

16 de abril 2022 - 14:04

Mais de dois terços do partos realizados nas instituições privadas de saúde são por cesariana o que vai contra as recomendações internacionais. E o número continua a crescer. O presidente do colégio de Obstetrícia da Ordem dos Médicos diz que uma das principais razões são as vantagens financeiras das cesarianas para os privados.

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Maternidade Alfredo da Costa. Foto de Mário Cruz/Lusa.
Maternidade Alfredo da Costa. Foto de Mário Cruz/Lusa.

De acordo com as Estatísticas da Saúde 2020, divulgadas no Dia Mundial da Saúde pelo Instituto Nacional de Estatística, 67% dos partos realizados em serviços privados de saúde foram feitos por cesariana.

Esta é uma percentagem que contrasta fortemente com a do Serviço Nacional de Saúde (30%), fazendo com que a taxa nacional tenha sido de 36,3%. O número de cesarianas continua a aumentar. Entre 2017 e 2020, o aumento foi de 8% no Serviço Nacional de Saúde e de 23% nos privados.

O elevado número de cesarianas vai contra as recomendações internacionais que dizem que o recurso este tipo de procedimento clínico sem razões clínicas está associado a um maior risco de complicações e mesmo de morte tanto para o bebé quanto para a mãe.

Os dados indicam que é nas regiões norte e centro do país que esta prática mais acontece: 85% dos partos realizados nestas zonas, em 2020, em unidades de saúde privadas foram por cesariana. Na Área Metropolitana de Lisboa foram 56%.

Estes números foram salientados este sábado pelo Jornal de Notícias que falou com Diogo Ayres de Campos, diretor do Serviço de Obstetrícia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte sobre as razões desta assimetria regional. Parte da explicação estará na dimensão dos hospitais e no tamanho das equipas: “no Norte, há muitos hospitais privados pequenos, com um número não muito elevado de partos, enquanto em Lisboa há vários hospitais privados grandes e com elevado número de partos”. Para além disto, os grandes hospitais fazem auditorias internas, os pequenos não. E acrescenta ainda que “em Lisboa há mais tradição de partos vaginais, mesmo no privado”.

O especialista, que em 2013 dirigiu a Comissão Nacional para a Redução da Taxa de Cesarianas, diz que para além de monitorizar são precisas medidas.

Já para João Bernardes, presidente do colégio de Ginecologia/Obstetrícia da Ordem dos Médicos, o principal problema são as vantagens financeiras das cesarianas que são mais caras. Pelo contrário, nos hospitais públicos há incentivos para que se controlem as taxas de cesarianas. Outras razoes apontadas para o aumento das cesarianas são um maior acesso à medicina privada, questões de organização das equipas, falta de médicos, aumento das gravidezes tardias e de gémeos e a possibilidade de escolha da hora do parto.