Presidente “está a pedir um relatório médico para um ato que é meramente civil”

10 de maio 2018 - 14:58

Em reação ao pedido de Marcelo Rebelo de Sousa para que haja um relatório médico para a mudança de sexo no registo civil de menores de 18 anos, a deputada bloquista Sandra Cunha diz que o Bloco está “empenhado em encontrar a melhor solução”.

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Sandra Cunha reagiu ao veto de Marcelo Rebelo de Sousa. Foto Paulete Matos.

Esta quarta-feira, o Presidente da República decidiu devolver à Assembleia a lei que permite a mudança de sexo no registo civil a cidadãos entre os 16 e os 18 anos de idade. E fê-lo com um pedido ao parlamento para que “pondere a inclusão de relatório médico prévio à decisão” nesses casos.

“O veto do Presidente da República não é um veto à lei de autodeterminação de género”, começou por sublinhar a deputada bloquista Sandra Cunha. “O Presidente da República está a pedir um relatório médico para um ato que é meramente civil. Não existem para outros atos civis exigências de relatórios médicos”, lembrou a deputada.

Para Sandra Cunha, trata-se de “um ato que não envolve cirurgias ou tratamentos irreversíveis. Quando esses tratamentos ou cirurgias se impuserem, como qualquer outro tratamento ou cirurgia em qualquer país, não é feito sem ser por médicos”. Nesse sentido, pedir um relatório médico “para um ato meramente civil não faz sentido”, prosseguiu.

A deputada do Bloco lembrou ainda que o pedido de alteração do registo civil do nome e da menção do sexo é feito para os menores de 18 anos com autorização dos pais ou representantes legais. E concluiu que “o Bloco está disponível para no parlamento se encontrar a melhor solução para que esta lei vingue em toda a sua plenitude”.

Noutras reações ao veto de Marcelo — que faz questão de sublinhar que não fez pesar a sua opinião pessoal sobre o assunto – a Associação de Pais pela Liberdade de Orientação Sexual (AMPLOS) congratulou-se pelo facto de o Presidente não questionar a autodeterminaçã a partir dos 18 anos, saudando Marcelo por “entender que as pessoas ‘trans’ não precisam de um diagnóstico médico para serem reconhecidas”.

Ana Cristina Santos
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“O PR fala num relatório médico, mas sem idade mínima. É reconhecer que existem crianças que podem ter a possibilidade de alterar os seus documentos de identificação com relatório médico, mas não fala em diagnóstico. É um relatório médico, provavelmente até de um médico assistente, que acompanha a pessoa desde criança. Claro que nós gostaríamos que não houvesse nenhuma tutela médica a validar pessoas, mas pensamos que isto é um avanço importante”, disse Margarida Faria, presidente da Amplos, citada pela Lusa.

A falta de uma referência à idade mínima no veto de Marcelo abre ainda a esperança, acrescentou Margarida Faria, de que uma nova versão retire essa referência presente na proposta aprovada pelos deputados. “O PS foi cauteloso pondo uma idade mínima de 16 anos e o que diz o PR é que não há razão de haver uma idade mínima. Vamos ver como é redigido. Estou com esperança. A autodeterminação está assegurada a partir dos 18. Isso é importantíssimo e é um importante que não dependa de um diagnóstico”, defendeu a dirigente da Amplos.

Mais crítico da posição do presidente, o grupo de ativistas LGBTQ “Resistência Queer” convocou uma concentração para o próximo sábado às 16h em frente ao Palácio de Belém. “A palavra de um médico que nos diagnostica num par de consultas tem mais valor que a certeza profunda que as pessoas trans carregam consigo quando vão mudar de Cartão do Cidadão, fruto de anos de autoconhecimento, sobre a sua identidade e seu género?”, questiona este grupo de ativistas.

“A necessidade de ter um relatório médico para que a nossa identidade seja reconhecida não só faz as pessoas trans passar por um processo médico burocrático, cansativo e muitas vezes moroso, como patologiza a transexualidade”, argumentam os ativistas da Resistência Queer, acrescentando que o relatório pedido por Marcelo “traduz-se na ideia que as pessoas trans não têm legitimidade para afirmarem quem são, sendo necessário que umx médicx faça um diagnóstico, como se fossemos doentes, para verificar se somos o que afirmamos dizer com o saber que temos de nos próprios, que somos trans”.