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Presidente da ERC mandou tirar nome de Mário Mesquita da capa de livro

A obra sobre desinformação no contexto europeu e nacional só chegou às livrarias após a morte do antigo jornalista, professor e vice-presidente da ERC. Mas com uma diferença em relação à versão inicial: o nome de Mário Mesquita foi retirado da capa.
À esquerda, a capa original do livro ainda publicada em sites de livrarias. À direita, a capa da versão à venda sem o nome de Mário Mesquita.

O livro faz parte de uma coleção de trabalhos sobre regulação dos media, editado pela Almedina em colaboração com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Foi lançado em outubro com o título "A Desinformação - Contexto europeu e nacional" e a supervisão coube a Mário Mesquita. A capa do livro que é publicitada nos sites das principais livrarias - incluindo o site brasileiro da Almedina - tem o nome do antigo jornalista, professor e vice-presidente da ERC. Mas na versão final que está a venda, o nome de Mário Mesquita desapareceu da capa.

Esse desaparecimento foi revelado esta segunda-feira pelo Diário de Notícias, que cita testemunhos como o da filha de Mário Mesquita acerca do envolvimento do académico enquanto "mentor do projeto", tendo acompanhado o livro até à fase final de pré-publicação. "Sabia, pelo meu pai, que o livro estava feito e tinha sido entregue para revisão de gralhas, formatações", diz Ana Mesquita ao DN.

"A coleção é uma criação do Mário. E quando ele morreu aquela obra estava bastante adiantada sob a sua supervisão", disse ao mesmo jornal outra pessoa próxima do processo, sob anonimato. Mas quando chegou às livrarias este mês, já sem o nome de Mário Mesquita na capa, inclui na ficha técnica enquanto supervisores da obra os nomes de Mário Mesquita e João Pedro Figueiredo, membro do Conselho Regulador da ERC que terá acompanhado a fase final do processo, a partir do momento em que a doença de Mesquita o afastou desse trabalho.

Segundo o DN, João Pedro Figueiredo terá recusado que o seu nome substituísse o de Mesquita na capa, o que lhe foi proposto pelo presidente da ERC, Sebastião Póvoas. O diretor editorial da Almedina confirma que "houve uma versão em que o nome [de Mesquita] estava na capa e, a certa altura, foi retirado, por opção da ERC, que é quem coordena essa coleção."

Por seu lado, a ERC respondeu ao jornal a explicar que na fase de pré-lançamento "uma das muitas situações que foi repensada foi a referência na capa aos responsáveis pela supervisão deste trabalho em perfeita igualdade, tendo-se optado por fazer essa menção apenas no interior da publicação, na respetiva ficha técnica." A decisão, apurou o jornal, foi do presidente da ERC, que tem o pelouro das publicações editadas por esta entidade.

A "inimizade grave" por Mário Mesquita era conhecida e assumida por Sebastião Póvoas, que a chegou a usar como argumento para pedir escusa de se pronunciar num incidente de suspeição levantado pela Cofina em relação ao antigo jornalista. Para as fontes com conhecimento interno da ERC ouvidas pelo DN, a retirada do nome de Mesquita da capa por parte de Sebastião Póvoas deve-se justamente a essa inimizade. Já Ana Mesquita prefere acreditar que "só pode ser um equívoco", pois "uma pessoa quando morre não perde a autoria dos seus trabalhos. A instituição, a Entidade Reguladora para a Comunicação, deve reger-se por princípios éticos. Por isso deve ter havido um equívoco que irá ser esclarecido."

Amigos, colegas e alunos de Mesquita indignam-se com esta "humilhação post-mortem"

A notícia provocou "indignação e perplexidade" entre muitos dos que foram ao longo das últimas décadas amigos, colegas e alunos de Mário Mesquita. E está a circular para subscrição uma nota de repúdio sobre a retirada do seu nome da capa do livro, classificando-a como "um ato vil e mesquinho, que atenta contra o inexcedível legado de Mário Mesquita e contra a dignidade do seu caráter".

"Lembramos também que esta obra, publicada recentemente pela Almedina no âmbito da coleção Regulação dos Media (coordenada, aliás, pelo próprio Mário Mesquita), retoma e amplia um relatório publicado em 2019 com o mesmo título, enquanto contributo da ERC para o debate sobre desinformação na Assembleia da República, supervisionado por Mário Mesquita, como indica a ficha técnica", acrescenta a nota em que os seus amigos, colegas, alunos e admiradores manifestam "o seu repúdio por aquilo que consideram ser um ato de humilhação post-mortem".

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