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Presidente da CAP diz que agricultores são "vítimas" do tráfico de migrantes

Eduardo Oliveira e Sousa diz que é a ignorância dos agricultores quanto às regras que os faz contratar trabalhadores em condições de quase escravatura para muitas explorações agrícolas portuguesas.
Migrante a trabalhar numa exploração agrícola no Alentejo. Foto de Paulete Matos.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP), foi questionado sobre as situações de escravatura e abuso dos direitos humanos que sofrem os trabalhadores migrantes em muitas explorações agrícolas do país. E começou por afastar responsabilidades dos seus associados, ao dizer que "não são as grandes explorações que estão envolvidas neste tráfico".

Pelo contrário, afirma o presidente da CAP, "os agricultores, muitas vezes, são vítimas, não são responsáveis por essas situações e são até surpreendidos muitas vezes por estarem envolvidos sem saberem". E apesar dessas situações ocorrerem em explorações de produtos agrícolas destinados sobretudo ou na sua totalidade à exportação, acrescentou que "aqueles agricultores que têm uma atividade que está relacionada com o mercado internacional, quase que diria que não há nenhum que possa ser encontrado ligado a este tipo de fenómeno". Tratar-se-ia então, defende Oliveira e Sousa, de uma situação que envolveria apenas "agricultores menos escrupulosos".

"A maior parte desses trabalhadores envolvidos neste tráfico de seres humanos são pessoas que vêm trabalhar angariadas pelos tais traficantes que depois os "oferecem" a pessoas que precisam de uma determinada tarefa feita por pouco tempo. E, portanto, como é por pouco tempo, não vão à minúcia de saber quem são as pessoas, que tipo de empresa é", diz o presidente da CAP, desculpabilizando-se com a suposta ignorância de quem recorre a essas empresas para maximizar o seu lucro e que na lei atual não é punido, ao contrário do que foi proposto pelo Bloco de Esquerda para criminalizar toda a cadeia do tráfico, incluindo as empreas agrícolas que recorrem a esta mão de obra.

"São pessoas que não conhecem as regras, porque se conhecessem as regras, os riscos associados são tão grandes, que as pessoas não corriam o risco de fazer contratação com essas empresas", insistiu o líder da CAP, garantindo que a sua associação "não tem nada que ver com isto" e que a situação "é uma ação de polícia, que passa completamente à margem dos interesses dos agricultores", apesar de serem estes os beneficiários últimos do trabalho da mão de obra migrante nestas condições.

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