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Presidente chileno investigado após revelações dos Pandora Papers

Os negócios mineiros de Sebastián Piñera estão sob investigação do Ministério Público. Oposição exige a demissão do Presidente em fim de mandato. Piñera aumenta a repressão e declara o estado de sítio contra a comunidade mapuche.
Sebastián Piñera tem tido sempre um forte apoio das forças armadas chilenas – foto de resumenlatinoamericano.org
Sebastián Piñera tem tido sempre um forte apoio das forças armadas chilenas – foto de resumenlatinoamericano.org

O Ministério Público do Chile abriu uma investigação a Sebastián Piñera devido a um escândalo denunciado pelos Pandora Papers. Os deputados da oposição apresentaram o caso no Congresso do Chile e Piñera foi acusado de usar o “cargo para negócios pessoais”.

Segundo o consórcio internacional de jornalistas de investigação (ICIJ), Sebastián Piñera e a sua família (Piñera Morel) eram os maiores acionistas do projeto mineiro Dominga, associados com Carlos Alberto Délano (amigo de infância do atual presidente e que entretanto foi condenado por evasão fiscal). Sebastián Piñera e o seu amigo tinham mais de 56% da propriedade em 2010, quando Délano comprou as restantes ações por 152 milhões de dólares, numa transação realizada na maior parte (138 milhões de dólares) nas ilhas Virgens Britânicas (um conhecido paraíso fiscal) e apenas 14 milhões no Chile.

O grande escândalo é que o pagamento da Mineira Dominga seria feito em três partes, em que a última das quais só se realizaria se a área do projeto (duas minas, a céu aberto, de ferro e de cobre) não fosse decretada área de proteção ambiental.

É uma área de grande diversidade biológica localizada em Coquimbo, próximo da localidade de La Higuera, e que, há anos, as organizações ambientalistas exigem que seja declarada área protegida.

Sebastán Piñera diz que já foi investigado pela Justiça neste negócio sem que tenha sido acusado de qualquer ilegalidade, acrescentando que desde que assumiu a primeira presidência, há 12 anos, não participou na administração de nenhuma empresa. A investigação já concluiu, entretanto, que as condições em que o projeto mineiro foi vendido colocou Piñera, eventualmente, perante um conflito de interesses.

De acordo com la diaria, em 2017, durante o governo de Michelle Bachelet, foi feito um estudo de viabilidade, que foi chumbado. A empresa responsável, Andres Iron, recorreu da decisão e, em agosto, o projeto foi aprovado. Segundo a agência Efe, a comissão que aprovou o projeto era constituída por 12 funcionários, 11 dos quais designados pelo governo de Piñera.

O projeto mineiro propõe-se extrair, durante cerca de 22 anos, ferro e cobre de uma das maiores reservas do Chile, com um investimento de 2.500 milhões de dólares.

Matías Asún, diretor nacional do Greenpeace Chile, declarou a El Mostrador: “É um projeto nefasto também em termos ambientais, que se vai situar numa área que deveria estar protegida a nível planetário, que foi identificada pelo mundo científico como um dos mais importantes lugares de biodiversidade do planeta, que abriga boa parte da população de pinguins de Humboldt ".

Gabriel Boric, candidato de Apruebo Dignidad às eleições presidenciais do Chile de 21 de novembro de 2021, escreveu no Twitter: “Não podemos deixar que haja continuidade do governo de Sebastián Piñera”.

Eleições presidenciais de 2021

A primeira volta das eleições presidenciais do Chile realiza-se a 21 de novembro de 2021 e a segunda volta será a 19 de dezembro.

Na primeira volta, há sete candidatos e atualmente o mais bem cotado nas sondagens é Gabriel Boric, que se candidata por Apruebo Dignidad, uma coligação que junta as coligações Frente Ampla e a Chile Digno.

Em segundo lugar nas sondagens está a ser indicado o candidato de extrema-direita José Antonio Kast, que no entanto não é o candidato apoiado por Piñera. Esse é Sebastián Sichel, o terceiro com mais apoio, segundo as sondagens.

Sebastián Piñera tem vindo a radicalizar a situação e a aumentar os ataques ao ativo movimento popular chileno, contando sempre com o tradicional apoio do exército e da cúpula militar do Chile.

Estado de sítio contra a comunidade mapuche

Esta terça-feira, 12 de outubro, Sebastián Piñera decretou o estado de sítio nas províncias de Arauco, Biobío, Malleco e Cautín, contra a comunidade mapuche, por 15 dias, prorrogáveis por outros 15 dias.

Em declaração política, a Comunidad mapuche autónoma do Territorio de Temucuicui declara: “Hoje será um dia histórico das ações racistas e terroristas do Estado chileno e do governo do criminoso Sebastián Piñera”.

Considerando que o estado de sítio é uma declaração contra o povo mapuche, a comunidade sublinha que se trata do dia em que “se dá continuidade e renovação ao genocídio e à destruição do meio ambiente que a cultura racista denominou de ‘descobrimento da América’”. E, denuncia que o objetivo de Piñera é a utilização das Forças Armadas para “aumentar, endurecer a militarização, a repressão e a contenção do movimento de resistência mapuche”.

A comunidade mapuche afirma que continuará a denunciar e resistir e apela a que os territórios e a resistência “permaneçam de pé e nunca de joelhos”. A comunidade refere que o seu povo “tem lutado desde a chegada dos ladrões espanhóis e agora não será exceção” e afirma que manterá o “controle territorial” e as “recuperações de antigo território”.

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