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Presidenciais no Equador: Candidato indígena exige recontagem dos votos

Só duas semanas após a primeira volta ganha pelo candidato de esquerda Andrés Arauz, o Conselho Nacional Eleitoral anunciou que o segundo candidato é o representante da direita, Guillermo Lasso. Fica de fora Yaku Pérez, do movimento indígena Pachakutik, que se dirige para a capital em marcha de protesto.
Yaku Pérez, do movimento político indígena Pachakutik na marcha de protesto - foto do twitter do movimento
Yaku Pérez, do movimento político indígena Pachakutik na marcha de protesto - foto do twitter do movimento

A primeira volta das presidenciais no Equador decorreu a 7 de fevereiro e ficou então claro que Andrés Arauz da UNES, antigo ministro na presidência de Rafael Correa, foi o candidato mais votado com 32,71%.

Verificou-se também que a votação nos quatro primeiros candidatos concentravam 87,52% dos votos: Arauz com 32,71%; Guillermo Lasso da CREO – PSC, candidato da direita com 19,74%; Yaku Pérez de movimento político indígena Pachakutik (19,38%) e Xavier Hervas da Izquierda Domocratica (ID), considerada social-liberal, com 15,69%. Dos quatro, apenas um, Lasso, é de direita e os outros três restantes são de esquerda.

Movimento Pachatukik afirma haver fraude eleitoral e exige recontagem dos votos

O movimento político indígena denunciou, logo após a primeira volta, fraudes eleitorais e exigiu a recontagem dos votos. Durante quase duas semanas, o movimento reuniu com a candidatura de Lasso e procuraram encontrar um acordo para recontar os votos, o que acabou por ser recusado pela candidatura de direita.

A 20 de fevereiro, o cordenador nacional do Movimento Pachakutik, Marlon Santi, entregou ao CNE 2.500 atas com inconsistências nos números e faltas de assinaturas, demonstrando segundo o movimento a fraude eleitoral e fundamentando a exigência de recontagem.

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) também foi prolongando as discussões e tentativas de acordo, mas recusou a recontagem. E, na madrugada de 21 de fevereiro, proclamou os resultados da primeira volta e a realização da segunda volta, a 11 de abril, entre Andrés Arauz e Guillermo Lasso.

Marcha nacional para exigir a recontagem

No dia 17 de fevereiro, o movimento Pachakutik convocou uma marcha dirigida à capital Quito, para protestar contra a fraude e exigir ao CNE a recontagem dos votos. O cordenador do movimento anunciou que a marcha incluiria várias províncias até ao CNE e calculou que demoraria seis ou sete dias. Marlon Santi afirmou ainda que a marcha seria pacífica e que o objetivo é que “haja transparência do CNE, que se abra (uma nova contagem) voto a voto, porque nos sentimos pela fraude contra o nosso candidato”.

Na marcha, o candidato indígena Yaku Pérez escreveu no twitter que “o CNE pode declarar resultados eleitorais fraudulentos mas os verdadeiros resultados estão no coração dos equatorianos que apoiaram um novo projeto político que reflete os sonhos de um Equador digno e honesto”.

 

Disputa acirrada na segunda volta

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais no Equador destacam-se pelo reforço da esquerda, representada nos candidatos mais votados, em que só Lasso é da direita. De salientar a profunda derrota da candidatura do movimento de Lenin Moreno (Alianza Pais), que aplicou o plano de reajustamento do FMI e expulsou Julian Assange da embaixada do Equador no Reino Unido, entregando-o aos britânicos. A candidata presidencial que representava o atual presidente, Ximena Peña, teve 1,59% dos votos, o Alianza Pais não elegeu qualquer deputado.

O novo parlamento reflete igualmente o peso da esquerda, em que correístas (movimento do antigo presidente Rafael Correa e do candidato presidencial Andrés Arauz) e movimento indígena têm 76 deputados num parlamento de 137 membros: Centro Democratico elegeu 49 deputados e Pachakutik 27.

No entanto, a divisão à esquerda é grande, nomeadamente entre correístas e movimento indígena.

O analista político Decio Machado destaca que “as oposições antiextrativismo versus desenvolvimentismo e nova política versus política tradicional abriram espaço num cenário que inicialmente aparecia dominado pelo enfrentamento entre partidários e detratores de Correa”.

O movimento político indígena afirma-se com um peso político e um poderoso movimento de massas, que assenta num passado de luta, mas se reforçou fortemente no combate ao governo de Lenin Moreno, sobretudo nos massivos protestos de outubro passado.

“Adeus Lenin”?

Francisco Colaço

O analista político refere que Iaku Pérez e o movimento Pachakutik obtiveram um grande êxito “nos territórios da serra e amazónicos”, mas também conseguiram atrair jovens urbanos “numa particular sintonia através da sua mensagem ambientalista ‘em defesa de Pachamama'”.

Decio Machado alerta também para o risco de os conflitos entre correístas e movimento indígena se agravarem e poderem permitir assim a vitória do candidato da direita Guillermo Lasso. “A criminalização do protesto social durante a década do governo de Rafael Correa (2007-2017) e a abertura de processos políticos contra boa parte da direção indígena” parecem tornar impossível o entendimento entre as duas “fações políticas”. Machado acrescenta ainda que “parte do correísmo parece priorizar o conflito com o movimento indígena”, e conclui: “Esta disputa acirrada entre as duas principais opções da esquerda pode abrir caminho a uma direita neoliberal que, no domingo [7 de fevereiro], mal somou 20% do apoio popular”.

O analista avisa ainda que se for confirmada a passagem de Lasso, à segunda volta, como de facto acontece, “é possível que Pérez lhe declare o seu apoio na segunda volta em troca de alguns lugares ministeriais de segunda linha”. “Não seria a primeira vez que o Pachakutik comete este erro político”, refere e acrescenta que “parece difícil” que a Conaie – Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, “a verdadeira estrutura organizativa do poder indígena”, apoiasse semelhante posição.

Artigo atualizado em 24 de fevereiro de 2021 às 0h58.

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