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Preços das casas considerados impossíveis até nas imobiliárias

Grande procura e "excesso de otimismo" dos proprietários está a atirar preços das casas em Portugal para níveis impossiveis, afirmou o CEO da imobiliária Century 21 à Dinheiro Vivo. Está em curso uma fuga para as periferias. E não há solução à vista pela dinâmica do mercado.
Edifício no Parque das Nações. Foto do Nuno Morão/Flickr.
Edifício no Parque das Nações. Foto do Nuno Morão/Flickr.

A bolha imobiliária nas cidades portuguesas tem beneficiado grandemente o setor, mas até este se revela consciente da insustentabilidade do fenómeno. Ricardo Sousa, CEO da imobiliária Century 21, analisando em entrevista à Dinheiro Vivo as dinâmicas recentes do mercado e as perspetivas para o futuro próximo, considerou que os preços atuais estão impossíveis para as famílias portuguesas e não há solução à vista.

Para o responsável desta imobiliária, 2018 ficou marcado por duas tendências que vão continuar: "a queda do poder de compra dos portugueses e o acentuar do gap entre oferta e procura". O excesso de procura está a alimentar expetativas irrealistas nos proprietários que, "por desconhecimento ou porque conhecem alguém que vendeu o metro quadrado a cinco ou seis mil euros", pedem preços astronómicos.

Resultado: “É impossível colocar casas no mercado a preços que portugueses possam pagar”. O número de transações está a abrandar porque “as pessoas até querem comprar, mas não podem pagar ou não querem abdicar de fatores como a zona, por isso acabam por sair do mercado". Na estimativa da imobiliária, 20% das pessoas que procuravam casa no ano passado acabaram por desistir, número que deve subir este ano. Os arrendamentos mediados pela imobiliária caíram mais de 60%, ao contrário do seu preço, que disparou mais de 200 euros para um valor médio de 812 euros.

Nada indica que a curto prazo o problema melhore, pois neste ano "muita da construção que vai sair são casas grandes, de luxo, ou casas muito pequenas, para turismo”. Além disso, em 2019 e 2020 será ínfimo o impacto no mercado da construção nova, que poderia concorrer e moderar os preços das casas usadas. Mas também aqui haveria problemas, pois os custos de construção dispararam devido a falta de mão-de-obra e à carga fiscal, na opinião de Sousa, o que faz com que "matematicamente, seja impossível colocar imóveis no mercado dentro dos preços que os portugueses podem pagar”. O mercado está por isso a gerar um vazio para a classe média e média-baixa, onde há uma procura grande que "não está a ser atendida".

Com este panorama, está em curso uma fuga para as periferias, que é agora onde os preços estão a subir mais, estimulados pela chegada de quem já não consegue comprar no centro, e cujo poder de compra superior ao dos residentes instalados coloca por sua vez pressão sobre estes.

Na avaliação do imobiliário, em Lisboa os portugueses estão a mudar-se para a Amadora e a margem Sul. Mas também os estrangeiros começam a fugir dos preços astronómicos da capital em direção a locais como Évora, Santarém ou Peniche. É que mesmo os 300 mil euros que estes clientes são capazes de investir, nas palavras de Sousa, começam a não chegar.

Em conclusão, para o CEO da Century 21 o grande desafio do setor este ano será "contrapor o excesso de otimismo com bom senso". Tendo em conta os resultados conhecidos da auto-regulação do mercado, esta esperança parece fútil. Mais depressa a intervenção de movimentos de cidadãos e a adoção de políticas efetivas de promoção da habitação e proteção dos moradores fará uma diferença real.

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