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“Precisamos de uma Europa de cooperação que ponha a finança na ordem”

Para Marisa, “não precisamos de uma Europa das imposições para quem trabalha” mas de uma Europa onde “não falte um cêntimo” na habitação, na saúde, na educação, nos serviços públicos e no combate às alterações climáticas. Catarina Martins quer "virar o jogo" das rendas da energia e “transformar o relatório em lei”.
Marisa Matias em Leiria. Foto de Paula Nunes.

Depois de um dia que começou no concelho do Fundão, onde visitou as Minas da Panasqueira, e que seguiu depois até Peniche, onde visitou o Museu da Resistência e Liberdade, Marisa Matias chegou a Leiria a falar de “dois sítios simbólicos e importantes para não nos esquecermos do que são as marcas do fascismo”.

A visita às Minas da Panasqueira trouxe a memória daquilo que “foi uma máquina de produção do trabalho, sem nenhum direito e exploração total dos trabalhadores”, cuja população foi mais tarde deixada ao abandono. Para Marisa é “a memória que alimenta a democracia e que nos permite ter um projeto de futuro, sobretudo nestes tempos sombrios que vivemos”, disse, referindo-se aos fascismos que se vão construindo por toda a Europa.

Na opinião da candidata europeia do Bloco, os fascismos nascem sobretudo em situações de crise, na pobreza, na desigualdade “ sempre, sempre arranjando bodes expiatórios”, sublinhando que a União Europeia, “perante tudo o que foi a falta de resposta que nos trouxe a esta situação” encontrou nos refugiados o seu bode expiatório.

À crise humanitária que enfrentamos, a União Europeia retorquiu com uma “resposta de desumanidade” em que “não se tratam estas pessoas como pessoas” e se ignoram “direitos tão básicos como perceber que é normal que critérios como a reunificação familiar sejam essenciais para se poder receber as pessoas”, considerou Marisa Matias, que acusou a União Europeia e o bloco central de interesses de colocar o “negócio à frente da vida das pessoas”.

A falta de uma moratória para os territórios ocupados por grupos terroristas e a recorrente recusa em aprovar uma proposta sua para que não se vendam armas para os territórios em conflito foram alguns dos exemplos identificados por Marisa Matias para dar prova disso mesmo e não hesitou ao considerar que tem sido o “bloco central de interesses que tem alimentado o crescimento da extrema direita e dos fascismos na Europa”.

“Nós não temos essa falta de memória que esteve na origem da crise. E por isso nós recuperamos também a memória do que tem sido a integração europeia desigual nos últimos anos. É a memória do sistema financeiro feito abutre por vontades políticas que não responderam minimamente às necessidades das pessoas”, frisou.

Para Marisa Matias é necessário “romper com este modelo de União Europeia” e pôr fim à política que favorece a banca, os offshores e a injustiça fiscal. “Para que a extrema direita se combata, é [preciso] combater as causas. Se a extrema direita se alimenta do desespero, nós temos que ter respostas para o desespero das pessoas, temos de ter respostas económicas e sociais que respondam às suas necessidades”, defendeu.

A intervenção de Marisa Matias em Leiria foi ainda marcada por duras críticas a Durão Barroso, que dá agora “ aulas de como é que se deve combater o populismo” mas que “andou dez anos a prometer que regulava o sistema financeiro e disso não vimos rigorosamente nada”. Entende que “o populismo alimenta-se e cresce precisamente com políticas iguais às de Durão Barroso”, o ex-Presidente da Comissão Europeia que depois dos “dez anos em que se recusou a regular o sistema financeiro” se juntou “ao pior banco do mundo”, a Goldman Sachs. Entre as propostas pelas quais têm lutado, identificou a taxação sobre o capital, a regulação do sistema financeiro e de justiça fiscal, um Banco Central Europeu que responda pelo emprego e não pela finança, e uma “Europa de cooperação para que se ponha a finança na ordem e se tenha recursos para responder pela vida das pessoas, para que não falte um cêntimo onde ele deve estar, ou seja, na habitação, na saúde, na educação, nos serviços públicos e no combate àquela que é a maior urgência que enfrentamos, que é a crise das alterações climáticas”, concluiu.

Catarina Martins pede viragem do jogo na energia para aprovar lei

A intervenção de Catarina Martins, centrou-se na energia e no relatório proposto pelo deputado Jorge Costa, aprovado esta quarta-feira na Assembleia da República, que ainda assim viu o PS juntar-se à direita “para que não houvesse conclusões claras sobre o negócio das barragens”.

No entanto, para a coordenadora do Bloco, este relatório deixou claro as “centenas de milhões de euros que não devíamos pagar às energéticas” e pediu uma viragem do jogo para “transformar o relatório em lei”. “Não basta votar a favor do relatório da comissão de inquérito" e exige mais: “é preciso que as recomendações que acabam com as rendas excessivas da EDP sejam implementadas, que o que foi votado como relatório da comissão parlamentar às rendas da energia se transforme em lei, que se faça justiça e que deixemos de pagar com o esforço do trabalho as rendas milionárias dos acionistas da EDP”.

Para Catarina Martins, a elevada fatura da luz em Portugal, apesar de Portugal ter dos salários mais baixos da Europa, faz-se “à custa dos consumidores” e de “rendas de privilégio” e pediu “que se faça justiça e que deixemos de pagar com o esforço do nosso trabalho os salários milionários dos acionistas da EDP”, a quem pediu “vergonha”.

Fernando Rosas: “Foi por iniciativa do Bloco de Esquerda que se começou a responder aos problemas do país”

Já Fernando Rosas, que também participou neste jantar-comício em Leiria, perguntou pela esquerda do Partido Socialista “onde é que se situam as forças dentro do PS que querem mudar verdadeiramente a situação do país e, também, a situação na Europa?". Na opinião do historiador, os socialistas não estão dispostos "a enfrentar nenhuma luta de fundo e de princípio acerca do sentido e do significado das políticas da Europa”.

Para o fundador do Bloco "há questões cruciais que exigem uma tomada de posição", como na saúde e no trabalho. “Ou se está de um lado ou se está do outro", esclareceu, referindo-se à “espécie de sopa entre a esquerda, a direita, o centro, o alto e o baixo” que vem caracterizando o Partido Socialista.

Sobre o posicionamento do Bloco diz não ter dúvidas e sublinhou que “foi por iniciativa do Bloco de Esquerda que se começou a responder aos problemas do país".

 

Notícia atualizada às 14:58.

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