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Precariedade e abusos na construção da alta velocidade na Galiza

Horários excessivos, falta de material de proteção e condições de segurança e higiene, insultos e racismo marcam as obras para a nova ferrovia do AVE entre Ourense e Lubián, denuncia a central sindical galega CIG. Acidentes de trabalho já causaram seis mortes e três dezenas de feridos.
Construção do túnel "O corno" para o AVE. Foto CIG.
Construção do túnel "O corno" para o AVE. Foto CIG.

“Ficas todo o dia a trabalhar como um escravo com os encarregados a berrar e a insultar a todo o momento”. É o que diz um operário, apresentado como Xurxo pela central sindical galega CIG, sobre o que se passa nas obras para a construção de uma nova linha de alta velocidade entre Ourense e Lubián. E é apenas um de muitos testemunhos que mostram um retrato que a Federação de Construção e Madeira classifica como de “exploração e escravidão”.

Este sindicato apresentou queixa na Inspeção de Trabalho galega, nomeadamente quanto ao trabalho extraordinário abusivo que alcançou as 70 mil horas por ano. Cada trabalhador estará assim a trabalhar em média 4,56 horas extra ilegais por dia. Em alguns casos chega-se às 21 horas diárias de trabalho. Acusa-se ainda a Junta da Galiza de estar “unicamente preocupada com os anúncios eleitoralistas dos prazos de conclusão das obras”, deixando FCC, Ferrovial e as empresas sub-contratadas fazer o que querem.

Os horários de trabalho excessivos não são a única queixa destes trabalhadores. Denunciam que não têm acesso a espaços de descanso, não têm água potável nem casas de banhos ou refeitórios. “Antes de jantar apenas dispõem de água proveniente de um ponto de acesso de águas fecais para se lavar”, avança a CIG.

As condições de segurança também são precárias. Faltam equipamentos de proteção individual, “a iluminação quase nula”, há um “ruído ensurdecedor e não se usa proteção auditiva”, os comboios que passam a toda a velocidade ao lado dos trabalhadores sem desacelerar. O resultado tem sido trágico. Houve, “um mínimo de 21 acidentes”, dos quais resultaram seis operários mortos e três dezenas de feridos. Tudo isto, diz a CIG, “numa das maiores obras públicas da Galiza e mesmo do Estado Espanhol, pagas com o dinheiro de todos”.

Nos estaleiros, a precariedade extrema é a regra com os encarregados a ditar a lei e a decidir quem trabalha. Os testemunhos recolhidos pelo sindicato falam em racismo, com os encarregados a nomear operários estrangeiros de forma desrespeitosa como “mouro 1” e “mouro 2”. O caso mais grave entre os trabalhadores estrangeiros é o dos filipinos, adianta o CIG. São obrigados a ter uma “disponibilidade permanente para a empresa, de 24 horas por dia, por 1300 euros ao mês, tudo incluído”.

Os chefes também são também criticados por discriminar arbitrariamente no registo das horas de trabalho, tendo assim poder de decidir quem ganha mais ou menos. São ainda quem “decide quem trabalha, como e quando”. Por isso, há trabalhadores que chegam a levar cocaína para suborná-los de forma a trabalhar, por exemplo aos fins de semana quando o trabalho mais compensa, diz um dos testemunhos recolhidos.

Segundo o jornal Nòs Diário, o Bloco Nacionalista Galego reagiu a estas denúncias exigindo que o governo espanhol atue. O deputado Néstor Rego considera “inadmissível” que numa obra pública estes trabalhadores sejam “explorados vulnerabilizando a legalidade”.

Relatos de precariedade laboral

Os relatos reunidos pela CIG utilizam pseudónimos para proteger os trabalhadores. “Pedro”, por exemplo, descreve que não se trabalhava “nunca menos de dez horas” sem direito ao pagamento de horas extraordinárias. Essas, claro, eram faturadas pelas empresas sub-contratadas. O vestuário de inverno não chegou: “trabalhámos vários dias mortos de frio”, denuncia. Acrescenta ainda que se trabalha “sem arneses de segurança, cordas de apoio, nem redes, literalmente suspensos no vazio”.

“Xaime”, que fazia transportes para a obra, ilustra a falta de condições com uma simples frase: “quando ali chegavas muitos operários aproximavam-se para pergunta se tinha água potável, era terceiro-mundista.”

“Manolo”, trabalhador sul-americanos que também é condutor mas que fez outros serviços nas obras, reitera muitas das queixas e soma outras: muitos condutores andavam pela obra “como se fosse uma auto-estrada”, “bebiam e drogavam-se em frente de nós”.

“Xulio” sublinha a falta de água potável: “pedimo-la repetidamente, mas não fizeram caso de nós” e “mandavam-nos beber do mesmo depósito em que nos lavávamos”; “uma vez levantei a tampa do depósito e havia excrementos humanos dentro”.

Sobre a precariedade avança: “para receber dependias sempre do que decidia apontar o encarregado no seu registo de horas; se te davas mal com ele, esquece. Ainda hoje não assinei nenhum papel”.

“Xurxo”, para além dos gritos e dos insultos constantes dos encarregados, declara que, trabalhava desde as oito da manhã até às nove ou às dez da noite: “durante todo esse tempo estávamos sem comer ou comíamos dentro do túnel, quase sem parar uma sandes que davam por lá”. Nas poucas vezes em que permitam que fossem comer ao hotel em que estavam alojados descontavam uma hora de trabalho.

"Ahmed", operário de origem magrenina, chegou a assinar um contrato e foi trabalhar durante uns dias. Depois, deixaram de o chamar. “Quando perguntei porque não me chamavam para trabalhar disseram-me que uns tipo que me conheciam tinham dito à empresa que eu estava inscrito na CIG”.

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