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PP espanhol condenado por corrupção no "caso Gürtel"

A sentença do caso Gürtel resultou em condenações pesadas para o tesoureiro, vários dirigentes e autarcas e, pela primeira vez, o próprio Partido Popular foi condenado por corrupção.
Mariano Rajoy e a sua vice Soraya Saénz de Santamaria, esta quarta-feira na votação do Orçemento do Estado espanhol.

Foi conhecida esta quinta-feira a sentença do “caso Gürtel”, um esquema de adjudicações de contratos públicos com a contrapartida de comissões para autarcas, membros dos governos regionais e para o próprio Partido Popular, que terá lesado os cofres públicos em mais de 40 milhões de euros entre 2000 e 2008.

29 dos 37 acusados acabaram condenados a um total de 351 anos de prisão, dos quais se destacam o ex-tesoureiro do PP, Luís Bárcenas (33 anos de prisão e 44 milhões de multa), o empresário corruptor Francisco Correa, cujo apelido traduzido para alemão — Gürtel — deu o nome à operação policial (51 anos de prisão), o ex-secretário de Organização do PP galego, Pablo Crespo (27 anos e meio de prisão), os ex-autarcas de Majadahonda, Guilermo Ortega (31 anos de prisão) e de Pozuelo, Jesús Sepúlveda (marido da ex-ministra da Saúde Ana Mato, condenado a 14 anos de prisão), ou o ex-membro do governo regional de Madrid, Alberto López Viejo (31 anos).

Pela primeira vez em democracia, um partido espanhol foi condenado por lucrar com um esquema montado por uma rede de corrupção, tendo agora que pagar 245 mil euros de multas. Também a ex-ministra Ana Mato, que recebeu das empresas de Correa presentes, viagens e até o pagamento de festas de aniversários e de cerimónias da primeira comunhão dos filhos, terá de pagar cerca de 28 mil euros em multas.

A investigação ao “caso Gürtel” permitiu destapar outros casos de corrupção no PP que deram origem a investigações autónomas. Foi o caso da “caixa B” do partido, com o tesoureiro Bárcenas no centro das operações, cujas contas na Suíça chegaram a somar 48 milhões de euros em 2007. Especula-se na imprensa espanhola sobre a possibilidade de a pena de 15 anos de prisão decretada pelo tribunal para a sua mulher, Rosaria Iglesias, poder ser determinante para a colaboração de Bárcenas com a justiça no caso das contas paralelas do PP, onde um dos beneficiários dos envelopes com dinheiro pagos pelo tesoureiro, apontado nos seus cadernos como “M. Rajoy”, nunca foi identificado pela justiça espanhola.

Mariano Rajoy, primeiro-ministro e líder do PP que chegou a depor como testemunha no julgamento do “caso Gürtel”, alegando que o partido nunca tinha recebido donativos em dinheiro de empresários, reagiu esta quinta-feira às pesadas condenações. Para Rajoy, os crimes condenados correspondem a “casos isolados” no seu partido, que ocorreram “há muito tempo”. Em comunicado, o PP anunciou que vai recorrer da decisão, sublinhando que nenhum elemento da atual direção foi acusado neste processo.

Podemos desafia PSOE a apresentar moção de censura

Nas primeiras reações à sentença do “caso Gürtel”, o líder do Podemos desafiou os socialistas a apresentarem uma moção de censura ao governo liderado por Rajoy. “Não se percebe que estejam dispostos a apresentar uma moção de censura [ao governo regional] em Madrid, e não o fizessem no Congresso. É a responsabilidade do partido que tem mais deputados do que nós, e contariam com o nosso apoio”, afirmou Pablo Iglesias, concluindo que “a democracia não pode suportar delinquentes ao comando do governo”.

Outra reação no campo político foi a do líder dos Ciudadanos, que integra a maioria que ainda esta quarta-feira aprovou no Congresso o orçamento do governo do PP “Espanha merece um governo forte e limpo, pelo que iremos avaliar a situação”, diz Albert Rivera, falando num “antes e um depois” que esta sentença marca na história da democracia espanhola.

Também Baltasar Garzón, o primeiro juiz de instrução deste processo, e que por causa dele acabou expulso da judicatura sob acusação de ter ordenado escutas ilegais, reagiu à sentença, afirmando que ela “e um triunfo da sociedade espanhola e sobretudo da justiça, tão criticada mas que sempre cumpre o seu trabalho”. “No plano pessoal, apesar do custo altíssimo que teve, estou muito satisfeito pelo trabalho que fiz e enche-me de orgulho vê-lo reconhecido na sentença”.

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