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Pós-Trump no Brasil

O Bolsonarismo foi o que mais perdeu nas eleições municipais do Brasil, marcadas pela eleição de pelo menos 237 candidaturas indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Por Abel Rodrigues
Nas eleições municipais brasileiras, foram eleitas pelo menos 237 candidaturas indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Foto Outras Palavras
Nas eleições municipais brasileiras, foram eleitas pelo menos 237 candidaturas indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Foto Outras Palavras

A América reage ao totalitarismo e ao negacionismo de uma extrema-direita que ganhou vez nas últimas eleições. A derrota eleitoral do Presidente em exercício, Donald Trump, marca o fim da aventura dos estadunidenses em uma política totalitária e radical, e já se faz ser refletida no sul do continente.

A primeira volta das eleições municipais no Brasil aconteceu em 15 de Novembro. Para a Esquerda, um alívio foi ver que de facto o Bolsonarismo foi o que mais perdeu nestas eleições, que foram marcadas pela eleição de pelo menos 237 candidaturas indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, 30 cargos legislativos municipais foram ocupados por transsexuais, e, mais especificamente em Belo Horizonte (capital de Minas Gerais), Duda Salabert, professora e mulher transsexual, recebeu o maior número de votos de toda a história da cidade, levando para dentro da Cámara a pauta educacional e ambiental. Esses resultados traduzem a fraqueza do conservadorismo no país, e isso é de se comemorar.

A esquerda foi a vencedora da primeira volta das eleições. Na metrópole da Amazónia, Belém do Pará, o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) trouxe para a segunda volta o candidato socialista Edmilson Rodrigues, que com seu programa de renda emergencial, governará a cidade. Em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, a ex-candidata à Presidência, Manuela D’Ávila, passou para a segunda volta através do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), embora tenha perdido para o MDB (partido do ex-Presidente Michel Temer).

A Megalópole da América

Em São Paulo, maior cidade da América, a esquerda avançou para a segunda volta através da candidatura de Guilherme Boulos, do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Boulos trouxe para a segunda volta das eleições a agenda habitacional, conseguindo então diminuir o estigma social que essa agenda vem sofrendo com anos de descaso político de administrações sociais democratas na cidade. Embora não tenha vencido a eleição, Boulos trouxe ao grande debate político a agenda habitacional tão ignorada no país.

O Brasil, país marcado por uma profunda desigualdade social, possui 6,9 milhões de famílias desabrigadas. Os movimentos sociais pela habitação são muitas vezes rotulados como “radicais” ou “terroristas” por um setor político reacionário. A chegada de Boulos na segunda volta mostra que essa agenda é de interesse cada vez maior para a sociedade como um todo.

Onda anti-bolsonarista

A aventura da extrema-direita no Brasil mostra-se apenas pontual, e com data de validade bem definida. Dos 13 candidatos apoiados pelo Presidente em exercício, nove não tiveram nenhum sucesso nas urnas. A população optou entre a esquerda ou uma direita trajada de “centro”, com discursos que, de um lado ou outro, repudiam o bolsonarismo. Ao contrário do PSD de Rui Rio, o chamado centrão do Brasil entendeu que acordos com a extrema-direita levam à ruína da nação. Não se trata de comemorar o bom desempenho de um centrão neoliberal sem propostas políticas para a população, mas sim de comemorar a queda do conservadorismo, e a decadência do totalitarismo bolsonarista.

Em Fortaleza, o PDT (Partido Democrático Trabalhista) - de Ciro Gomes - trouxe à segunda volta José Sarto contra o candidato do Partido Republicano da Ordem Social. Com o apoio de Bolsonaro, o Republicano sofreu um forte revés, que custou sua eleição. Nestas eleições, o apoio de Bolsonaro custou votos aos candidatos. A chegada do PDT à prefeitura da Capital do Ceará mostra mais um segmento da esquerda fortificado, e deixa aberto o caminho para a candidatura de Ciro Gomes ao Palácio da Alvorada em 2022.

A derrota de Donald Trump é um marco que finaliza a aventura totalitária nos Estados Unidos, e que possui imenso potencial de atingir a extrema-direita populista no resto da América e até no resto do mundo. Em Portugal, cabe aos agentes políticos dos diversos partidos à direita do PS entenderem que não há negociação política com populistas radicais. A mão que Rui Rio estendeu à extrema direita lhe custará o braço, ou lhe custará a democracia. E a história dessa aventura no Brasil já está aí para ser vista.

Artigo de Abel Rodrigues, ativista socioambiental da Greve Climática Estudantil e do Fridays For Future Brasil, coordenador do fundo SOS Amazónia

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